Terça-feira, 17 de Maio de 2011

O NÚMERO TREZE

Por Madalena S.

Olhou para a filha mais nova que fungava um choro manso e pouco sentido com a neta bebé ao colo e pensou para consigo que, por muito que tentasse estar actualizada e ser moderna, nunca compreenderia a celeridade com que as relações começam e acabam nestes novos tempos.
Ela própria estivera casada quarenta e três anos e só deixara de estar porque o seu Jacinto se finara sem um pio naquela fatídica quarta-feira de cinzas. É certo que o seu Jacinto pintava a manta. Aliás, na manhã da sua partida vira-o chegar depois de o ter visto sair no sábado de Carnaval sem lhe ter voltado pôr a vista em cima nos quatro dias de folia. Mas fosse como fosse, casamento era casamento, marido era marido e não percebia como é que ao fim de onze meses se punha fim a uma relação só porque – afirmava a filha entre soluços – “ ele não presta!” Não conseguia ver onde estava o busílis. Homem nenhum presta. Sempre fora a sua opinião.
- Bom, tu é que sabes. Mas pensa bem. Tens uma filha.
- Já pensei mãe. Já pensei. Só preciso de vir cá para casa uns tempos. Até arranjar um canto só para mim e para a menina.
Bebiana Raminhos suspirou, um suspiro fundo, arrancado às entranhas.
Com a mesma conversa regressara a sua Joaquina, a do meio, que trouxera as duas gémeas, ainda de colo, e o Marquinho.
Dois anos depois, o Abel, o seu rapaz mais velho, zangara-se com a mulher, partira-lhe o serviço da Vista Alegre que fora prenda da avó dela e saíra porta fora, caminhando sobre os cacos com raiva e determinação. As diferenças foram tão irreconciliáveis como impossível foi a colagem do serviço. Os cinco netos ficaram com a mãe e o Abel voltou à casa paterna. Até ao dia em que a ex-nora arranjou um namorado novo e foi viver para Moçambique. As crianças vieram viver com o pai.
E agora era a sua Geninha que mal saíra da lua-de-mel e já estava de volta, uma bebé nos braços e um casamento curto, de menos de um ano. É verdade que esta nem chegara a casar, mas era como se tivesse casado, estas coisas já não são o que eram e, verdade, verdadinha, até lhe dera mais jeito assim, que não tivera despesas nem na altura, com festanças de casório, nem agora com papeladas de divórcio.
O que lhe matava as entranhas era aquela agonia de deitar contas à vida, mais duas bocas para o total dos lugares à mesa. Somou-as mentalmente e, contando com a bebé, chegou ao número redondo de treze. Não gostava de treze pessoas à mesa. A sorte era que, para contrabalançar azares vindouros, a mais pequena ainda levaria algum tempo até se sentar à mesa.
Pediu emprestado um colchão extra à vizinha Gracinda e acomodou mãe e filha no seu quarto, atravessadas aos pés da cama.
De manhã era a primeira a sair para o trabalho que a limpeza de escritórios era feita em turnos, um até às 3 da manhã, o outro a começar às 4 e meia. A encarregada, que gostava dela, tentava sempre dar-lhe o turno da manhã e, assim, ela conseguia estar despachada ao meio dia e ir buscar os miúdos à escola, dar-lhes o almoço e, ainda, fazer umas horas a passar a ferro em casa da doutora da farmácia.
Costumava rezar para que, quando caía à cama, por volta das dez da noite, a pequenita já estivesse ferrada no sono e a deixasse descansar o corpo moído durante as magras cinco horas de repouso que lhe sobravam até à hora de retomar a faina.
O facto é que o canto que a sua Geninha ia arranjar só para ela e para a menina tardava em aparecer e não demorou muito até a mais novinha ganhar direito a um lugar à mesa. Aí estavam os treze que Bebiana temia.
Por essa altura, acrescia ao fatídico número de comensais, a sensação de a sua ser uma casa de doidos. Bebiana Raminhos não dava conta do recado e preocupava-a cada dia mais um incómodo que lhe batia no peito, se avolumava e ganhava tonalidades de raiva e de um certo rancor mal contido contra toda aquela gente, uma turba barulhenta e mal cheirosa, encostada às facilidades que o seu feitio meigo e manso lhe garantia.
A ideia germinou no seu cérebro cansado como erva de cheiro que rompe para a vida. Cresceu, tomou formas e deu frutos. Tratou de tudo o que tinha a tratar e passou o Natal em família, sem deixar perceber o que quer que fosse.
No dia de Ano Novo, assou um lombo de porco para o almoço e ficou de pé, encostada à bancada da cozinha, a vê-los sentados à mesa, em alegre gritaria, a sua dúzia privada, filhos e netos.
Calma, anunciou:
- Amanhã vou-me embora.
O Abel ainda perguntou para onde, distraído, mas as raparigas ficaram alerta, de imediato.
E então Bebiana explicou que treze à mesa era um número que a afligia. Não conseguia engolir nada se estivessem treze à mesa. Por isso, tinha tratado de tudo e arranjara trabalho na Suiça, em casa de uns amigos da doutora da farmácia. Ia ganhar bem, podia mandar-lhes algum dinheiro. Eles teriam de partilhar a casa, as despesas, as ralações, os barulhos. Podiam usar a cama dela e devolver o colchão à vizinha Gracinda. Mas tinham de fazer pela vida.
No dia seguinte, olhando pela janela do avião para os cumes nevados dos Alpes, Bebiana Raminhos antecipou com um certo formigueiro de prazer, a paz e o silêncio que o futuro imediato lhe anunciava.

Sábado, 23 de Abril de 2011

A ROTINA

Por Madalena S.

Costumava deitar-se tarde deixando-se ficar pela noite dentro em frente da televisão, a beber filmes e séries como se dali lhe viesse algum sopro de vida extra.
Algumas vezes, continuava para lá da última série a apreciar os milagres das televendas, produtos extraordinários que lhe mudariam a vida num instante, a fazer fé nas palavras mágicas dos respectivos promotores.
Amiúde dormitava no sofá e acordava estremunhado, lá pelas cinco e tal da manhã. Só nessa altura apagava a televisão e cambaleava a depressão em direcção à cama onde se deixava cair para um sono que não chegava a ser reparador, de curto e tardio que era.
Às sete estava a pé. Vestia-se sem dar grande atenção à roupa o que frequentemente fazia com que saísse de casa com uns conjuntos perfeitamente anacrónicos e berrantes, a parte de cima colidindo aparatosamente com a de baixo.
Passava o dia sem história, uma hora a seguir à outra, um minuto depois do anterior. Fazia uma pausa ao meio dia, para sair do cubículo minúsculo e ir comer uma sopa, uma bifana e uma bica no café em frente e voltava uma hora depois para retomar a conferência dos documentos, uma guia sobre outra guia, e depois outra e outra, até ficar completamente anestesiado.
Na volta à casa, ao começo da noite, parava no quiosque da comida rápida, à saída do terminal dos autocarros, e comprava uma sopa. Às vezes juntava-lhe um salgado. E, aproximadamente uma vez por semana, uma embalagem pequena de gelatina de morango.
Entrava em casa, despia-se, pendurava a roupa no cabide de quarto aos pés da cama e vestia o pijama.
Só se dava ao trabalho de aquecer a sopa se a dita estivesse completamente fria. Caso contrário, comi-a assim, tépida, engolida directamente da embalagem para não ter de lavar louça. À noite nem bebia café tentando não espantar o sono, mas o efeito do chá de cidreira que levava para a sala para ir bebericando enquanto fazia os primeiros zappings da noite era absolutamente nulo e o sono tardava, por sistema.
Vivia naquela pasmaceira há mais de vinte anos. Cumprimentava os vizinhos com um aceno de cabeça ou com um bom dia surdo e murmurado para dentro, mas nem lhes conhecia o nome.
Não esperava mais da vida.
Até ao dia em que parou no quiosque da comida rápida para comprar a sopa da ordem e foi servido por uma empregada diferente da habitual.
- Aconteceu alguma coisa à D. Fernanda? – Atreveu-se a perguntar.
- Não, reformou-se. – Respondeu-lhe a outra, mal-humorada.
Agradeceu, pagou a sopa e a empadinha de frango e encaminhou-se para casa. A meio do caminho, porém, estacou. Alguma coisa dentro de si lhe doía, uma dor fininha, uma espécie de picada que lhe atravessava o peito. Rodou sobre os calcanhares e voltou ao quiosque. Pediu mais uma sopa, mais um salgado e duas embalagens de gelatina de morango.
Quinze minutos depois batia à porta da D. Fernanda, a empregada do quiosque de comida rápida que o atendera durante vinte anos.
Primeiro, a mulher entreabriu a porta e espreitou, sem dizer nada. Depois, franqueou-lhe a entrada como se estivesse à espera daquela visita há muito tempo.
- Trouxe jantar. – Explicou.
Sentaram-se na mesa da cozinha da D. Fernanda que decidiu que a sopa precisava de um calorzinho. De seguida, cortou um tomate para uma saladinha de acompanhamento dos salgados. Foi buscar um pão e um queijinho.
Partilharam uma cerveja e enfeitaram a gelatina com um resto de chantilly que andava há tempos no frigorífico.
Ela fez café e foi buscar a garrafa da ginjinha. Ainda pensou recusar o café, por causa da insónia, mas depois achou que era falta de educação, de modo que bebeu uma grande xícara de café e acompanhou com um generoso cálice de ginja.
Sentaram-se no sofá, lado a lado. Ia começar mais uma reposição de E tudo o Vento Levou. Pensou que a coisa iria atirá-lo lá para as quatro e meia da madrugada e considerou a hipótese de se ir embora. Mas começara a chover e ela disse-lhe:
- Deixe-se estar. Eu nunca me deito cedo.
Deixou-se estar. Adormeceu recostado no sofá, pouco passava das onze e meia.

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

A RETOMA

Por Madalena S.

No dia em que comprou o andar na Brandoa, Graciliano Baptista não teve dúvidas que atingira os mais altos píncaros da sua vida, a vários níveis.
Profissionalmente estava no auge. Em meados dos anos oitenta, vender automóveis topo de gama era como vender pãezinhos quentes. Não havia yuppie que se prezasse que não estivesse disposto a gastar uma pequena fortuna num modelo desportivo que lhe garantisse o sucesso dos engates de fim-de-semana.
O ordenado base era razoável e as comissões por cada carro vendido pagaram-lhe as mobílias e os electrodomésticos em duas penadas.
Na primavera de 85 casou com a Xana, namorada de longa data, e, quando deu por si, era pai de cinco raparigas nascidas em anos consecutivos. Quando a mais nova acabou de abrir os olhos ao mundo por via de uma cesariana – último recurso de um parto complicado a coroar uma gravidez de risco – o médico aproveitou para dar um nó nas trompas da Xana fechando assim a fonte de onde escorria aquele mar de mulheres que lhe invadira a vida.
- Não pode ter mais filhos! – Fora a sentença.
Graciliano também não queria mais filhos. Mesmo com a venda de carros topo de gama a manter-se em alta, cinco bocas para alimentar, não contando com a sua e a da Xana, eram um peso pesado.
Quando as miúdas eram pequenas, apesar de tudo, as coisas mostravam-se relativamente fáceis: a roupa das mais velhas passava para as mais novas, toda a gente comia sopa, as diversões de fim-de-semana eram familiares e baratas, as férias no parque de campismo de Vila Nova de Mil Fontes não traziam reclamações de maior.
Os problemas estrearam-se com a chegada das adolescências, ao ritmo de uma por ano num intervalo de cinco anos. Homem nenhum está algum dia preparado para tamanha provação.
A sopa foi banida da ementa quotidiana e substituída por batidos energéticos e barritas dietéticas que custavam uma fortuna e só podiam fazer mal à saúde. A roupa da mais velha começou a ser doada no Centro Paroquial porque a mana seguinte se recusava a vestir os trapos usados e esta atitude foi tendo os óbvios reflexos nas restantes. Passaram a usar ténis de marca, jeans de marca, t-shirts de marca, acessórios de marca. A ele, a única coisa que lhe interessava era verificar qual o preço marcado.
A juntar a tudo isto, a viragem do milénio inaugurou uma fase de algum decréscimo no ritmo das vendas. As comissões ressentiram-se.
A Xana ainda pensou em arranjar trabalho mas a dactilografia, que em tempos fora ganha-pão certo, passara de moda. Com a chegada da Microsoft e quejandos, qualquer um dactilografava com quaisquer dois dedos, e apagava as gralhas com mais rapidez do que levava a detectar o erro.
Graciliano Baptista deu consigo a fazer contas à vida. As duas mais velhas estavam na faculdade mas as outras ainda marchavam no compasso do secundário. E embora toda a gente estivesse no ensino público, não deixava de ser uma despesa considerável. Para não falar nos aparelhos dos dentes para as duas mais novas, nem nas lentes especiais para a do meio que, sem óculos, não via um palmo à frente do nariz. E nem queria pensar que alguma delas lhe pudesse aparecer a dizer que ia casar. Seria a calamidade final.
Sentia-se encurralado. Deu por si a matutar em alternativas para arranjar dinheiro.
Foi por esse tempo que conheceu Ramón Garcia.
Amanhecera deprimido, a condizer com o dia frio, cinzento e chuvoso. Fora o primeiro a chegar ao stand, como sempre acontecia desde que o patrão reduzira o pessoal a si, único vendedor efectivo, ao Mané que trabalhava a recibos verdes, à Rosinda do escritório e a ele próprio que, por ser patrão, não se sentia na obrigação de cumprir horário. Como a Rosinda dormia amiúde com o patrão, considerava que também não tinha de cumprir horário e como o Mané dormia, de vez em quando, com a Rosinda, devia considerar-se no mesmo direito do patrão, por interposta pessoa. De modo que até às dez, dez e meia, o stand estava habitualmente por sua conta.
Graciliano Baptista abriu as portas, ligou as luzes e a aparelhagem sonora de onde escoava aquela música de embalar clientes e sentou-se na sua secretária a ler o jornal.
Faltariam uns quinze minutos para as dez, quando Ramón Garcia entrou e lhe deu os bons dias com aquele sorriso de orelha a orelha que o caracterizava. Graciliano Baptista olhou para o homem e, pelo resto da sua vida havia de se lembrar de ter pensado que num dia como aquele, o que lhe faltava para o deprimir ainda mais era um galego qualquer com o espírito inteiro no alto.
Ramón Garcia queria comprar um carro. De luxo. Espampanante quanto bastasse para condizer com o lenço de seda estampado em cores garridas que trazia enrolado ao pescoço. Não queria carros pretos que lhe lembravam funerais. Nem carrinhas de família. Tinha pensado num BMW cor-de-rosa. Queria dar nas vistas. Ao meio dia, depois de muita conversa, Graciliano conseguira convencê-lo de que a BMW em nenhuma circunstância pintaria os seus modelos de cor-de-rosa mas que o Alfa Romeo amarelo gema de ovo, que tinha no stand há mais de um ano, era o último grito da moda. Saíram para um test drive. Almoçaram juntos. No final do dia, Graciliano Baptista fizera uma venda e um amigo.
Por alturas da revisão dos vinte mil quilómetros, Graciliano e Rámon eram quase inseparáveis. Quando não se juntavam ao almoço, faziam-no ao jantar. Graciliano ainda se sentia um bocado estranho nas saídas com o espanhol, porque as pessoas olhavam para eles de esguelha, admiradas com aquele par tão heterogéneo, um de fato e gravata, discreto, cinzento, uma ligeira calvície a despontar a medo, o outro de botas de verniz e calças justas, cheio de pulseiras e de lenços coloridos ao pescoço, sentado ao volante de um Alfa Romeo amarelo gema de ovo que só a quem fosse completamente cego poderia passar despercebido.
Um dia, Graciliano contou-lhe as suas dificuldades. Rámon ouviu-o, em silêncio religioso. No final, disse-lhe que tinha a solução para ele. E explicou-lha. Graciliano começou por se rir a bandeiras despregadas. Parou de rir quando o outro lhe disse quanto podia ganhar por noite. Nem queria acreditar. Andou duas semanas a reflectir e a remoer em cima do assunto, até ao dia em que as duas mais velhas lhe pediram dinheiro para as propinas. Resolveu-se. Foi ter com o amigo e disse-lhe, audaz:
- Aceito!
O dinheiro voltou a entrar no lar da Brandoa como nos tempos áureos do início. Deixou de haver restrições. O que as meninas queriam, as meninas tinham. A Xana quis mudar de cortinados e não encontrou qualquer tipo de oposição. O mesmo para os tapetes do quarto. Foi só quando obteve autorização, sem resistência, para fazer obras e mudar os móveis da cozinha que uma luz de desconfiança se acendeu no seu espírito inocente.
Fez uma cena. Exigiu saber o que se passava. Associou a boa vida recente às novas amizades do marido, incluindo o tal Rámon, o espanhol que ela conhecera umas semanas antes, num jantar, e que se lembrava de ter achado muito esquisito. Amaricado, para não dizer pior. O que andavam eles a fazer todas as noites até às quatro que nunca ele chegava antes dessa hora?
- Graciliano, tu explica-te! Tu andas a traficar?
- Ó mulher! Estás doida? A traficar?! Eu sou lá homem para me meter nessas coisas! Ganhei umas comissões com que não estava a contar! Só isso.
- Ná!... – E a Xana abanava a cabeça recusando-se a acreditar em mentira tão óbvia. Tanto insistiu e tantas acusações lhe fez que Graciliano não teve outro remédio senão abrir o jogo.
Nessa noite, a Xana, sentada numa mesa de canto, no Tropicália Club, ali para os lados de Santos, não conseguia fechar a boca, a surpresa a descair-lhe o queixo.
No palco, o seu Graciliano, travestido de pin-up dos anos 40, loura platinada dentro de um corpete justo de lamé prata, segurando na cabeça, com maestria de profissional, um imenso toucado de plumas de avestruz de tom verde brilhante, assumia a sua vida dupla e soltava a voz em estridências antes desconhecidas e que agora lhe rendiam, para além de um prazer óbvio, um muito confortável reforço do orçamento familiar. Em off, o apresentador anunciara:
- Minhas senhoras e meus senhores, convosco… Margot, a Rainha da Noite!

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

O PRIMEIRO PARÁGRAFO

Por Madalena S.

Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão. Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.
O dia amanhecera num tom entre o cinzento e o amarelado, como se as nuvens cerradas não fossem suficientemente espessas para impedir a passagem da luz do sol que, por trás delas, procurava afincadamente romper para cumprir a sua função de causticar aquele tempo de Agosto abrasante.
Chegara-se à janela no instante em que os pingos grossos como bagos de uva começaram uma sinfonia de sons ao baterem no tejadilho dos carros, nas pedras da calçada, nos canteiros e nos caminhos de saibro do pequeno jardim fronteiriço, nos vidros das janelas, no telhado de chapa de zinco da oficina do Ramos. Deixara-se ficar encostado ao parapeito, espreitando o cenário à sua volta, observando a ucraniana que vivia nas águas furtadas do outro lado da rua a apanhar a roupa estendida com a maior rapidez que conseguia; sorrindo perante o desespero do papagaio da D. Carolina, no seu poleiro do lado de fora da janela da dona, retorcendo-se e sacudindo as penas molhadas, calado e demasiado ocupado para repetir até à exaustão o seu “Ó Lina!” com que exasperava os vizinhos; admirando a ligeireza do velho Garcia, sempre coxo e a queixar-se das artroses, das artrites, dos reumáticos, mas que agora atravessava a rua num passo corrido, ligeiro e sem mancar, entrando na leitaria do Vacas com um rompante próprio de adolescente.
Lembrava-se do instante preciso em que as palavras se acenderam dentro do seu espírito, sonoras, volumosas, desproporcionadas, como se uma voz tonitruante lhas ditasse, uma a uma, qual mandamento, o mais importante dos dez, num eco repetitivo para que as memorizasse sem esforço. A ucraniana recolhia a última camisa da corda, a D. Carolina acoitava a sua ave falante e ensopada e a chuva parava, ficando no ar apenas o som dos pingos finais, o último andamento daquele concerto estival de frescura abençoada e a frase inteira, escrita a néon vermelho, intermitente, a brilhar-lhe diante dos olhos: “Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Há quanto tempo procurava em si uma frase assim, capaz de um grande começo, de introduzir um primeiro parágrafo perfeito, sem mácula, limpo de metáforas e de pontuações duvidosas.
Voltou-se com rapidez e mesmo de pé, dobrado sobre a mesa que era de cozinha, de jantar e de trabalho, escrevinhou a sentença numa folha branca e pontuou-a exclamativamente. Endireitou-se e ficou a olhar para a linha única. Voltou a dobrar-se e riscou o ponto de exclamação. Naquela frase, bastava um ponto final. Tão simples quanto isso.
Sentou-se à mesa e ligou o computador. Há dois dias que não lhe mexia nem para ver se tinha correio.
Abriu um documento novo e repetiu a escrita da sua frase, ao cimo da folha, sem se preocupar com formatações. Deixava isso para depois.
“Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Sorriu e continuou a escrever, ligeiro, as letras a aparecerem uma a seguir à outra diante dos seus olhos: “Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.”
Ali estava o seu primeiro parágrafo.
Admirou-o, lambeu-o como os cães lambem as feridas, aspirou-lhe os odores, tomou-lhe o gosto e teve, nessa febre de inspiração, a sua epifania – fosse o que fosse que ele escrevesse em continuação, aquele primeiro parágrafo garantia-lhe a genialidade do romance que há cinco anos lhe fugia. Agora só precisava de definir o narrador, o tempo, o espaço, as personagens, a acção… coisas de nada, comparadas com a falta de um primeiro parágrafo.

Domingo, 27 de Junho de 2010

O MACHO

Por Madalena S.

Silvestre Amorzinho, apesar do nome, era um macho. E latino.
Mas a latinidade fora um acaso, porque podia ter nascido na Escandinávia, na Terra do Fogo, ou em Vladivóstok que nada mudaria para si. Seria sempre um macho e orgulhava-se disso.
Tinha pelo na venta. E não só. Tinha pelo no peito, nas costas, no pescoço grosso como um tronco de árvore, nas pernas grossas como dois troncos de árvore.
Ainda andava descalço pelo meio dos trigais a perder de vista na sua Amareleja natal quando sentiu pela primeira vez que era um macho. Verdade se diga que essa primeira vez o deixou um bocado acagaçado nos seus frugais doze anos, face à poderosa sensação até aí desconhecida. Mas rapidamente lhe passou o cagaço e, mais rapidamente ainda, lhe nasceu esse espírito de varão, de galo de capoeira bicando em tudo o que era galinha e arrasando a crista dos rivais, simples pintos efeminados e mortiços.
Zarpou da Amareleja directamente para a Pontinha, aquartelado no Regimento de Engenharia nº 1 para cumprir três anos de serviço militar obrigatório, dois dos quais nas águas tépidas da Baía de Luanda quando o mandaram para a guerra mas a sua boa estrela lhe atirou o processo para o fundo de uma qualquer gaveta do sistema e por ali ficou esquecido, na cidade, a arrastar os fundilhos da areia da praia para o Rialto, para emborcar Cucas e galar as miúdas que passavam no largo fronteiro.
Foi a melhor época da sua vida: saía do quartel montado na Solex 3800 que comprara em quinta mão ao Vieira de Avintes – desmobilizado e de volta para a terra – e fazia o pobre motor espremer-se até ao limite, marginal fora em direcção à ponta da cidade para atravessar para o Mussulo na barca do Zé Muxima e ir estender-se na sombra dos coqueiros, colado ao corpo mulato da Sandra, o chocolate da sua pele jovem a contrastar com a areia branca e fina até quase o enlouquecer.
Tanto gostou daquela terra que, depois da tropa, ficou por lá. Levou a Sandra para uma casa que arranjou no Bairro das Ingombotas e começou a trabalhar como empregado de mesa, no Clube Naval. Ganhava bem e prosperava. Era feliz. Depois a Sandra ficou grávida e arredondou as formas. Sobretudo à terceira vez. E ele começou a demorar-se mais para voltar para casa. Até que, à quarta vez, desapareceu por mais de seis meses e só regressou quando o Baleizão, colega no serviço de Bar, o informou do nascimento da Maria Flor, a sua filha mais bonita. Pelo menos das que tinha conhecimento.
Em setenta e cinco, quando toda a gente fugiu de Luanda como da peste, Silvestre Amorzinho decidiu não retornar. Ficou sem o emprego mas os anos que levara a servir à mesa no Clube Naval tinham-lhe dado contactos. Conseguiu passagens para mandar a Sandra e os miúdos para a metrópole e, livre de preocupações, dedicou-se às negociatas próprias dos tempos de guerra. Fez amigos na FNLA, na Unita e no MPLA e levava e trazia informações para os militares portugueses que tratavam da última ponte aérea.
Viveu no arame até setenta e nove quando morreu Agostinho Neto.
A chegada do novo presidente ao poder coincidiu com a sua partida, primeiro para a África do Sul, de lá para o Quénia, depois para a Holanda, Inglaterra e, finalmente, Lisboa. Na bagagem trazia mais quatro mulatas que fora coleccionando durante esses anos de loucura e a quem chamava assistentes. Vinha rico e, na passagem por Amesterdão, ainda ficou mais rico quando trocou o que trazia escondido no forro do casaco por uns bons milhares de dólares.
Instalou-se como um nababo num andar à Avenida dos Estados Unidos da América, dez assoalhadas gigantescas no topo de um prédio luxuoso, com direito a terraço panorâmico. A vizinhança olhava para ele de lado, desconfiada daquele entra e sai de mulatas a que rapidamente se juntou um pequeno exército de empregadas louras, umas para cozinhar, outras para limpar, outras para o que fosse preciso.
Em menos de nada chegou a Sandra com as quatro crianças que, entretanto, se transformaram em quatro adolescentes bravios, dois machos e duas fêmeas comandados pela mais nova, a bela Maria Flor, rainha na beleza e na rebeldia, líder incontestada daquela tropa de guerrilha urbana, nome de culto na noite Lisboeta.
Silvestre Amorzinho bancava a extravagância dos filhos e das mulheres que proliferavam em sua casa. O dinheiro jorrava dos seus bolsos como petróleo.
Era o rei da mansão. O Hugh Hefner português.
Até ao dia em que lhe cheirou a esturro. Andava desconfiado. A Sandra dera em sair muito de táxi. Ora ele pagara-lhe a carta de condução e, para além disso, tinha motorista. Começou a empreender naquilo. Para todos os efeitos, a Sandra era a eterna dona do seu coração. Muito à macho, considerava-a como sua mulher mesmo sem nunca ter assinado qualquer compromisso, nem civil nem religioso, e apesar de tanto afastamento e abandono e de tantos anos sem dar notícias. Quando ela se queixara, ele esticara o indicador em frente do nariz e deixara sair um “shiuuuu” sibilante e ameaçador. A Sandra não voltou a abrir a boca. Mas começou a sair muito. De táxi.
Uma tarde, Silvestre Amorzinho foi atrás dela. Na esquina da Almirante Reis conseguiu reconhecer o motorista de táxi – já o vira mais do que uma vez à sua porta.
Quando os viu entrar na Pensão Cairo, no começo da subida para a Graça, a vista turvou-se-lhe e sentiu um baque como se lhe tivessem dado um murro em cheio no estômago.
Respirou fundo. Aquilo não era coisa que macho que se preza aturasse sem retaliar. Estacionou na rua da Palma e, olhando para os lados para ter a certeza de que não era visto, meteu a mão por baixo do assento do carro e tirou de lá uma arma, um revólver pequeno e robusto, que enfiou no cós das calças, por baixo do casaco.
A vista do revólver desatou a língua ao empregado mal-encarado que se encontrava por trás de um balcão encardido, em frente da porta: em que quarto estavam, quantas vezes por semana, três horas de cada vez, ela é que pagava, às vezes levavam uma garrafa de gin, pediam gelo, saíam juntos tal como entravam, identificavam-se como José e Maria.
- Jesus! – Assobiou Silvestre.
- Não, não. Só José e Maria. Nunca veio nenhum Jesus… - esclareceu o homem, apressado em desfazer qualquer mal entendido de carácter evangélico.
Olhou para o infeliz na sua frente, borrado de medo, e pensou que ia subir a escada e dar dois tiros nos desgraçados. Lavava a honra com sangue. À macho. À moda antiga.
Mas, por uma qualquer razão inexplicável, as pernas não se mexeram. Ficou parado, estático. Desengatilhou o revólver e voltou a enfiá-lo no cós das calças. Deu meia volta e saiu daquele antro agoniante com a maior rapidez que conseguiu.
Até à morte da Sandra, comida por um cancro vinte anos depois, Silvestre Amorzinho, macho do baixo Alentejo curtido pelo sol dos trópicos e por uma vida de aventuras, nunca falou no assunto, nunca deixou que alguém tocasse no assunto à sua frente e nunca mais a seguiu. Quando ela saía de táxi, à tarde, ele sentava-se na sala, em frente do televisor e ficava a ver filmes de pancadaria, luta livre, boxe, artes marciais, o que de mais violento conseguisse encontrar. E esquecia tudo. Até à vez seguinte.

Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

DEAN, FRANK E SAMMY

Por Madalena S.
Entrou no teatro pela porta pequena dos artistas.
Subiu a escada esconsa que conduzia aos camarins e, na passagem, atirou um “boa tarde!” para dentro do cubículo onde o Emílio dormitava intermitentemente, equilibrando os seus oitenta anos para trás e para a frente na cadeira de baloiço tão velha quanto ele.
Era cedo. O sítio estava deserto mas era àquela hora que mais gostava de ali estar, quando a ausência de movimento emprestava às sombras e às curvas labirínticas do espaço entre o palco e os camarins uma patina mágica, dourada e aromatizada com o cheiro envelhecido das almas dos que por ali haviam passado antes.
Entrou no seu camarim minúsculo, acendeu as luzes que iluminavam profusamente o espelho grande e brilhante e sentou-se no cadeirão que tomara já as suas formas com o uso continuado de uma vida.
Escolheu entre a pilha de CD amontoada numa extremidade da mesa uma gravação do Dean Martin e colocou-a no leitor, carregando no Play.
- Vamos a isso, Dino, old friend!
A voz arrastada do velho crooner soou melodiosa: “How lucky can one got be, I kissed her and she kissed me, like the fellow once said, ain’t that a kick in the head”. Trauteou a letra com mestria, garantindo que a sua voz coincidia com a do cantor que idolatrava desde a juventude.
Da prateleira lateral ao espelho, por cima da sua cabeça, retirou uma garrafa de Jack Daniels e um copo e serviu-se de uma dose generosa.
Depois, enquanto as melodias se sucediam e o bourbon lhe aquecia a garganta, foi preparando a sua transformação. Colocou uma base de cor específica na cara e, de seguida, com um pincel que ia molhando num frasquinho, foi colocando as rugas no sítio certo, disfarçando as próprias e criando outras. Com um pó mais escuro sombreou os olhos de modo a salientar as olheiras sobre os papos que lhe vincavam a expressão do olhar.
Penteou o cabelo de forma peculiar, puxando-o para trás, nos lados, para lhe dar aquele toque de anos cinquenta que agora até parecia que estava outra vez na moda.
As duas horas seguintes passaram sem dar por isso. Parou a sua tarefa apenas para mudar para outro CD.
Vestiu as calças do smoking, colocou os botões de punho na camisa branca com folhos no peitilho e a faixa de cetim sobre a cintura. Vestiu o casaco, ajeitou as mangas e sentou-se no cadeirão recostando-se e fechando os olhos.
Bateram à porta e abriram antes que ele dissesse algo:
- Estás pronto? – Perguntou o Carlos, enquanto enfiava a cabeça dentro do camarim.
- Há muito tempo. E vocês?
- O Firmino está a vestir-se mas eu só cheguei agora. É rápido.
- Não sei como consegues transformar-te em Frank Sinatra em cinco minutos.
- É a prática. Até já.
Esperou alguns instantes e, antes que o contra-regra tivesse de o vir chamar, saiu e dirigiu-se para o palco. Ficou ali, a olhar para as bailarinas que constituíam o número de abertura daquele musical que, ia para dois anos, se mantinha em cartaz com um sucesso inexplicável.
Quase no fim do número, Firmino com o seu gingar à Sammy Davis Jr. e Carlos, ainda a compor as calças do smoking, juntaram-se-lhe.
As bailarinas saíram de cena e na aparelhagem sonora, uma voz em off anunciou como se estivessem em Las Vegas:
- And now… ladies and gentlemen… The Rat Pack!
Entraram no palco e, nas duas horas seguintes, a sua perfeita imitação de Dean Martin garantiu-lhe o ordenado de mais um dia, assim como ao Frank e ao Sammy, seus colegas de lides artísticas e seus vizinhos na Praceta de Bafatá, em Sacavém, há mais de trinta anos.

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

A CASCA DE BANANA

Por Madalena S.

Ao fim de 30 anos de abusos e desconsiderações, Adelina atingiu finalmente o limite da paciência e da subserviência.
O ponto de ruptura deu-se na noite de passagem de ano quando, faltava um quarto para a meia-noite, a cunhada lhe telefonou a perguntar por onde andavam e ela teve de lhe responder que não andavam por lado nenhum: ela estava em casa, à espera do Júlio que ficara de a ir buscar às nove mas, até àquela hora, ainda não aparecera.
A cunhada ainda tentou convencê-la a ir ter com eles – sem grande convicção, é certo – mas ela recusara. Não ia chegar antes da meia-noite e não lhe estava a apetecer passar o ano na rua, no meio de coisa nenhuma a caminho de uma festa de família onde, ainda por cima, a sua presença sem o Júlio ia causar constrangimentos.
À meia-noite, levantou-se do sofá, meteu doze passas na boca e bebeu um golinho de vinho do porto para empurrar. E decidiu para si mesma, em silêncio: acabou-se!
O Júlio apareceu no final do dia de Ano Novo, seriam já umas onze e meia da noite, com uma bebedeira que devia ser a mesma que apanhara na noite de Natal, sujo e mal cheiroso e a arrastar a voz enquanto lhe ia contando pormenores da sua noite de passagem de ano, com o Zé e o Bexiga e com umas amigas deles, umas gajas todas boazonas que tinham feito isto e aquilo e frito e cozido.
Adelina nem respondeu.
A Graciete dera-lhe o nome do advogado que lhe tratara do divórcio. No dia seguinte ia falar com ele e acabava com aquilo de uma vez por todas.
Mas, depois, o Júlio começou a descrever com minúcia o que tinha feito especificamente com uma das boazonas. Sentado à mesa da cozinha, a descascar uma banana, ia falando como se estivesse a gabar-se para uma roda de amigos e não na presença da sua mulher. Uma mulher que tinha dezasseis anos quando casara com ele; que lhe dera três filhos maravilhosos; que trabalhava que nem uma moira, de manhã à noite, para sustentar a casa, os vícios do marido e os estudos dos filhos.
Já nenhum vivia com eles e, com a saída dos rapazes lá de casa, tudo se tornara ainda mais difícil. Nos trinta anos de casamento amargurado, Adelina não podia queixar-se de grandes tareias mas levara, por junto, talvez uma meia dúzia de tabefes e um único soco de mão fechada que lhe partira um dente e lhe deixara uma cicatriz fininha por cima do lábio.
Mais do que a violência física, o que a fartara de vez fora a violência psicológica, os vexames e humilhações, o abandono, a falta de respeito e consideração.
E agora que estavam sozinhos, até parecia que a coisa piorara. O vício do álcool acentuara-se e o abandono crescera desmesuradamente. A tal ponto que ela nem conseguia identificar as emoções que lhe povoavam o espírito. A única certeza é que não era amor, nem paixão, mas tão pouco ódio ou rancor. Tudo se desvanecera com o passar dos dias e, durante muito tempo, Adelina apenas sentira medo, um pânico quase absurdo, uma vontade urgente de se tornar invisível de cada vez que Júlio entrava em casa.
Nessa noite, porém, até esse sentimento de pavor doentio desaparecera. Olhou para ele que se ria alarvemente e pensou: “Mas até quando é que vais aturar isto, Adelina? Divórcio? Ele nunca vai aceitar. Não vai assinar papel nenhum, não vai falar com advogados, nem juízes, nem porra nenhuma. Ainda vai ficar ressabiado e vai moer-te a dobrar. Às tantas, voltas a apanhar que é coisa que nos últimos anos nem tem acontecido.”
As ideias fervilhavam-lhe na cabeça. Podia ir-se embora mas não tinha para onde. Não queria ir sobrecarregar os filhos. Os rapazes tinham a vida deles. O mais velho vivia com a namorada, a casa era minúscula, não dava para mais quem quer que fosse. O do meio partilhava um apartamento com três colegas e o mais novo alugara um estúdio encavalitado numas águas furtadas na zona do Castelo onde ele mal cabia, quanto mais a mãe e as suas tralhas.
E o Júlio que não se calava com a boazona assim e a boazona assado. E ria, o animal!
De repente, Adelina sentiu descer sobre si uma calma inexplicável. E, nesse mesmo instante, soube exactamente qual era a solução para o seu problema.
Abriu a porta do armário onde guardava as panelas e procurou a frigideira grande de ferro. Agarrou-a pela asa comprida, com as duas mãos, e mirou o formato, pesando-a a olho, avaliando a capacidade de movimentação e a velocidade que lhe conseguia imprimir.
Aproximou-se do Júlio, por trás, levantou a frigideira e lançou-a com toda a força sobre a nuca do marido. A pancada da frigideira a bater em cheio no crânio do homem soou grave e pesada e o Júlio caiu de borco sobre a mesa, inanimado, o sangue a jorrar-lhe de uma brecha larga, aberta ligeiramente acima do pescoço.
Adelina posou a frigideira no lava louça e voltou para junto do homem. Colocou-lhe dois dedos no pescoço, à procura de pulsação, mas não encontrou nada. Encostou o ouvido o mais possível à cara dele, tentando ouvir algum silvo, mesmo que frouxo, de respiração. Nada.
Foi à mala buscar o espelhinho pequeno que usava para arranjar as sobrancelhas e colocou-o em frente da boca do Júlio. Nem pingo de vapor. Voltou a tentar encontrar-lhe um vestígio de batidas do coração, no pescoço e no pulso, e mais uma vez não sentiu coisa alguma. Estava visto. Fora instantâneo. Júlio quinara sem sequer perceber o que lhe acontecera.
Então, Adelina agarrou-o por debaixo dos braços e levantou-o da cadeira. Sorte que a má vida que o homem sempre levara o deixara assim enfezado e mais leve do que seria normal num homem feito.
Puxou-o para junto da bancada de mármore do lado do fogão e mediu a distância com uma olhadela entendida. Aproximou-lhe a zona da ferida do bordo da bancada e, quando achou que a distância era a correcta, largou-o. A cabeça do homem bateu em cheio na esquina de pedra e o corpo morto escorregou em direcção ao chão de mosaico, deixando um rasto de sangue a escorrer pela porta do armário.
De seguida, Adelina pegou num esfregão, encheu um alguidar de água com lixívia e limpou a mesa até não restar um único vestígio de sangue. Lavou a frigideira, limpou-a e guardou-a no lugar devido. Colocou a fruteira sobre a mesa, olhou em volta certificando-se de que tudo estava no lugar e, então, agarrou na casca da banana que Júlio estivera a comer e, pegando num pé do cadáver, obrigou-o a pontapear a casca, como se esta estivesse no chão e ele tivesse escorregado. A casca voou até à outra ponta da cozinha, deixando um rasto pegajoso no sítio onde supostamente teria sido pisada e Adelina largou o pé do morto que caiu e ficou ali, inerte, a biqueira do sapato a apontar para coisa nenhuma.
Apagou a luz, saiu da cozinha e foi-se deitar. Armou o despertador para as quatro da manhã e adormeceu pacificamente. Quando o despertador tocou, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e caminhou até junto do corpo que continuava na posição em que o deixara. Voltou a certificar-se de que se tratava de um cadáver, procurando o pulso que não encontrou, obviamente, tanto mais que, por essa altura, o corpo já se encontrava asquerosamente frio.
Foi buscar o telefone e ligou para o 112. Deu todas as indicações que lhe pediram e, quando desligou, sentou-se e ficou a aguardar enquanto revia mentalmente a história que engendrara: deitara-se cedo, pelas dez horas. Não dera por o marido entrar em casa. Às quatro da manhã levantara-se, viera à cozinha beber água e deparara-se com aquele espectáculo.
Ainda considerou deitar umas lágrimas mas depois pensou melhor e achou que era preferível não fazer cenas dessas. Toda a vizinhança conhecia a sua relação infeliz e ninguém estava à espera de grandes manifestações de desgosto. Mais valia ser sincera.
Recostou-se na cadeira, em espera silenciosa, e deu graças a Deus por todas as noites em que, sozinha, vira e revira duas e três vezes, todos os episódios do CSI.

Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

O MILAGRE

Por Madalena S.

Acordou com esforço, os olhos teimando em não se abrirem, as pálpebras ramelosamente coladas. Nestes dias em que o despertar era assim difícil, a vontade era de se deixar ficar, não lutar contra este peso que o pregava ao colchão, fingir-se de morto, respirar devagarinho para ninguém dar por ele.
Apurou o ouvido e sentiu a chuva a cair na rua atapetada pelo amarelo-torrado das folhas dos plátanos outonais.
Sentiu uma certa alegria ao pensar que a chuva ia impedir a estucha de trabalho que o esperava nesse domingo.
Um nó no estômago indicou-lhe que era errado pensar assim.
Aquele fogo a comer-lhe as entranhas era uma sensação que o assaltava sempre que o seu interior lutava desta maneira, o grilo falante da sua consciência a azucrinar-lhe os ouvidos e a aguçar-lhe o bicho do remorso.
Mas, por outro lado, a chuva não era responsabilidade sua. E se chovia daquela maneira, só tinha de humildemente aceitar a diluviana vontade divina que assim afogava a cidade.
Afastou os lençóis, cambaleou em direcção à casa de banho e tratou da sua higiene matinal. Era frugal nestas coisas: um duche rápido, a barba feita com uma lâmina das mais baratas, descartável, dentes escovados com genica e pouco mais. O cabelo tinha pouco que pentear e a fraca variedade de roupa também não obrigava a escolhas problemáticas. Ainda assim, teve dificuldade em encontrar um par de meias sem que, pelo menos uma delas, tivesse um buraco.
Enquanto mastigava uma torrada que ia molhando na chávena de café com leite para amolecer a côdea, rezava afincadamente para que a chuva continuasse a cair.
Saiu de casa e caminhou apressado, lutando com o chapéu-de-chuva mas não evitando que as calças se ensopassem e os pés se alagassem dentro dos sapatos de sola grossa.
Chegado ao destino, tinha as manas Antoninhas à sua espera e teve de ouvir as suas lamúrias a respeito da chuva e de como o dia estava mau e de como tudo podia estragar-se…
Foi assentindo, entre resmungos mal-humorados, mas, no seu íntimo, uma luz ia-se acendendo aos poucos na esperança de que a chuva não parasse.
Quando chegou o Hilário, mandou-o preparar tudo na mesma porque a chuva podia muito bem parar.
- Mantemos a hora de saída? – Perguntou o Hilário.
- Claro. Não está previsto para as três?
- Sim, mas com esta chuva…
- Bom, a essa hora logo se vê.
Ao meio-dia, a chuva parecia ter redobrado de intensidade. O seu coração iluminou-se mais um bocado enquanto mastigava a bifana rija que o Hilário lhe fora buscar ao café do cunhado, empurrada com uma cerveja preta sem álcool.
À uma da tarde, até trovejava e ele começou a ter dificuldade em disfarçar o bom humor que, aos poucos, parecia querer tomar conta de si. Afinal, não podia dar a entender que estava satisfeito com aquele contratempo. Para não levantar suspeitas, fardou-se a rigor.
Seriam umas duas e meia quando a chuva parou subitamente. Nem queria acreditar. Olhou para as manas Antoninhas nas suas farpelas domingueiras e só lhe apeteceu despejar-lhes um balde de água em cima, para aprenderem.
O Hilário entrou de rompante:
- Está a chegar gente aos molhos!
- É um milagre! – Anunciou a Maria Antoninha.
- Louvado seja Deus! – Completou a Antoninha Maria.
Eram três e vinte e um sol tímido espreitava por entre as nuvens que desapareciam rapidamente deixando entrever largos pedaços de céu azul, quando saiu para a rua e se colocou debaixo do pálio, depois de o último andor, com a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, ser carregado pela escadaria da igreja com a dificuldade que o seu peso exigia. Atrás de si, a filarmónica da terra entoava uma marcha de procissão num som roufenho e desafinado, seguida por uma multidão de fiéis que encerrava o cortejo.
Voltara-lhe o mau humor. A sorte é que a populaça entendia o cenho carregado como sacrifício e não como sinal de frete. Olhou para o andor que seguia na sua frente e pareceu-lhe que a imagem de madeira se voltava lentamente para o mirar por cima do ombro e para lhe dizer, com um sorriso trocista:
- Mas passou-te pela cabeça que iria chover à hora da procissão? Não estás bom do juízo, rapaz. Então eu sou Nossa Senhora dos Milagres, para quê? Que vergonha. Um padre sem fé!
Abanou a cabeça desalentado, pensou “Estou feito!” e, pelo sim, pelo não, iniciou um rosário completo e fervoroso de Ave-marias. Para se penitenciar.

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

O SEMÁFORO

Por Madalena S.

O semáforo caiu para vermelho dois instantes antes de poder passar com segurança. Ainda pensou em acelerar e tentar a sorte mas, no último momento, o pé direito girou rapidamente do acelerador para o travão e o esquerdo levou a embraiagem a fundo fazendo o carro estacar com alguma chiadeira dos pneus.
Porque teve a noção de que a manobra podia ter induzido o condutor que a seguia em erro, instintivamente olhou pelo espelho retrovisor. Não havia azar. O carro de trás parara em segurança.
Irritava-a ter de parar naquele cruzamento porque o sinal demorava imenso tempo até voltar a ficar verde, mas quando era preciso, era preciso.
Olhou em volta. À sua direita parara um carro comercial, com umas listas verdes na diagonal e um logótipo que, com alguma boa vontade e uma generosa dose de criatividade, seria um parafuso. Por baixo, a confirmação: Ferragens São Martinho. Mirou o condutor que tinha o dedo indicador direito todo enfiado no nariz e quedou-se a apreciar a técnica com que o dito o rodava cuidadosamente, numa manobra em tudo semelhante à do parafuso, trazendo-o até à entrada e voltando a rodar de modo a enfiá-lo até meio, o polegar a auxiliar o manejo segurando a aba da narina… O homem deve ter sentido que estava a ser observado porque olhou de esguelha e retirou rapidamente o dedo, ao mesmo tempo que passava a mão na cara como se estivesse a espalhar o sono e o cansaço.
Sorriu para dentro e desviou o olhar, voltando a espreitar pelo retrovisor.
No carro de trás, um casal sentava-se em silêncio, ele ao volante, ela no lugar do pendura, cada um olhando para fora do carro pela respectiva janela.
Deixou-se ficar a olhar. O cabelo dele começava a rarear na frente e o dela mostrava uma raiz mais escura que o resto, denunciando necessidade de tinta fresca. Estariam na casa dos quarenta, a meio caminho para os “enta” seguintes.
Ele abriu a boca e disse qualquer coisa sem, contudo, olhar para ela. Ela não respondeu. Ele voltou a falar, olhando em frente e gesticulando com a mão direita enquanto a esquerda se mantinha, displicente, sobre o volante. Dessa vez ela respondeu, inclinando a cabeça para a esquerda enquanto falava mas sem desviar, ainda assim, os olhos da janela.
Imaginou-os casados. Ela, “Deolinda de Jesus”, administrativa na função pública, numa conservatória. Com quase trinta anos de serviço sonhava com a reforma mas via-a cada dia mais longe e isso deixava-a deprimida. Ele, “António José”, pasteleiro. Ou empregado de mesa numa pastelaria. Sim, era mais isso. “Via-o” de camisa branca e calça preta, com o nome numa placa de alumínio pregada no bolso da camisa, a pedir uma meia de leite e um jesuíta para o senhor engenheiro, lançando a voz meio gritada para dentro do balcão.
Fantasiou-os no dia do casamento. Na igreja de Santo António, com mais uma dúzia de outros noivos. Tinham sido noivos de Santo António. Ela estava bonita nesse dia. Mas agora, vendo-a assim através do vidro, não lhe parecia bonita, nem bem arranjada. Como é que o “António José” a teria conhecido? E o que é que o levara a apaixonar-se por ela?
Mas ele apaixonara-se. Sem remédio. Pois se até tinham casado… nessa época ela era magra e tinha o cabelo de uma cor só. Era fácil apaixonar-se.
O difícil era perceber como é que se mantinham juntos. É certo que tinha havido aquele caso com a outra. Ora, uma outra… seria quem? Ah, sim, podia ser a ”Zézinha”, cabeleireira, que ele conhecera num jantar em casa de amigos e com quem costumava ir até à praia de Carcavelos, tomar um copo numa esplanada. Não, cabeleireira não, era antes caixa no supermercado, brasileira e chamava-se “Magali”.
Mas a “Deolinda” era uma mulher à séria. Perdoara. Também não havia grande coisa para perdoar porque aquilo não passara de um devaneio e ele nem nunca chegara a molhar a sopa.
Agora olhava para eles, assim à socapa, numa imagem reflectida, e deu consigo a pensar como seria a vida desta gente, “Deolinda” e “António” – podiam ser Maria e Manuel ou José e Casimira que, para o caso, tanto faria. A curiosidade era acreditar que ele ainda gostava dela. O que seria, porém, que o fazia gostar de uma mulher que não tinha nada a ver com a mulher por quem se apaixonara há vinte anos? O hábito? Porque é que nos mantemos ao lado da mesma pessoa ano após ano? É para sempre? Nem sempre é para sempre.
“António José” voltou a dizer qualquer coisa e “Deolinda” riu-se, rodando o rosto para ele. Era isso, ela tinha sentido de humor. E na cama ele passara a apreciar mulheres mais cheiinhas. Visualizou a cena na sua cabeça. Ele e ela, nus… ou com pijama? Pijama ele e camisa de noite ela… talvez um negligé preto… hum… provavelmente era essa a cola que os mantinha unidos…
De repente uma buzina soou, frenética, e o “António José” gesticulou na sua direcção e do semáforo, o vizinho do lado acelerou o carro das Ferragens São Martinho e, em simultâneo, ela percebeu que o sinal estava verde. Avançou e esqueceu por instantes o casal do carro de trás e o facto de algum dia os ter imaginado na intimidade.
Quando voltou a olhar, o carro atrás de si era um táxi cheio de turistas.

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

O MEMORANDO

Por Madalena S.

Começou por ter dificuldade em lembrar-se de coisas simples: recados, nomes de pessoas que tinha a certeza de conhecer, sítios onde tinha de ir, coisas que tinha para fazer.
Não ligou muito. Atribuiu ao cansaço e ao peso da idade. Afinal, os anos passam, quer se queira, quer não.
Foi à farmácia e a doutora vendeu-lhe umas ampolas para o cérebro. Magnésio, disse ela. Faziam muito bem e ajudavam a rejuvenescer as células.
Tomou duas caixas mas as memórias teimavam em fugir-lhe.
Até ao dia em que se esqueceu de abrir a porta ao Pepe – o seu rafeiro fiel e único companheiro há mais de doze anos – e só o uivar desgostoso do canito, farto de estar ao frio e à chuva que começou a cair por volta da meia-noite, o tirou da cama num susto para o ir recolher.
Nessa noite custou-lhe a pegar de novo no sono. Levantou-se por volta das cinco da manhã e às seis já estava à porta do Centro de Saúde para garantir que arranjava uma consulta.
O médico perguntou-lhe a idade e fez-lhe uns testes próprios para quem chega à beira dos setenta sem grandes sobressaltos. Fez-lhe mais perguntas. E mais perguntas. Até à fatal, a que sempre receara ouvir:
- Ó Senhor Alberto, você não tem família?
Não. Não tinha família, nem próxima nem afastada. Nem primos, nem sobrinhos, nem afilhados. Nada.
- E amigos?
Bom… tinha tido alguns. Ao longo da vida. Não muitos. Mais colegas de trabalho do que propriamente amigos. Amigos do peito, se assim se pode dizer, tivera o Almerindo, camarada de tropa que o salvara de uma bala cega numa picada em Angola, nos idos dos anos sessenta quando a guerra lhe comera a juventude. E o Santos, companheiro de bancada na oficina, parceiro na partilha da fresadora, na rotina diária do ganha-pão. Com o Santos também ia às meninas. Geralmente ao sábado à noite, nem todos os sábados, só quando podiam. Depois, o Santos casou e acabaram-se as noitadas a dois. Ainda tentou aliciar o Almerindo mas em vão porque o Almerindo fizera uma jura de nunca pagar para “amandar uma pinocada”!
Tanto um como o outro já lá estavam, tinham ido à sua frente para a terra da verdade.
- Pois é, pois é… - e o doutor franzia o sobrolho, preocupado.
Mandou-o fazer exames. Análises, TAC, uma prova de esforço, mais uma ressonância magnética. Gastou uma mão cheia de dinheiro e continuou a tomar ampolas de magnésio, embora com resultados muito fracos. A única vantagem é que tinha menos cãibras nas pernas, de noite.
Por fim, estava passado quase um ano desde que começara naquela vida, acabou por lhe ser diagnosticada a doença, sem sombra para dúvidas. O doutor dissera-lhe o nome mas assim que saiu do consultório, a designação esvaiu-se, apagou-se e passou a fazer parte das coisas de que não se lembrava. Só lhe ficou a martelar a ideia de que tinha um nome arrevesado e não tinha cura nem havia volta a dar. Ia continuar a esquecer-se de tudo, até ao dia em que a sua memória fosse apenas uma mancha branca, um vasto lençol estendido sobre a sua vida passada, apagando-lhe o prazer das boas recordações e a mágoa das más.
O médico receitou-lhe mais medicamentos, mandou-o exercitar o cérebro, ler, fazer palavras cruzadas. Encaminhou-o para a Segurança Social, a fim de tratar de um apoio para quando a doença já não lhe permitisse viver sozinho.
A sua primeira reacção foi de medo que foi crescendo até ao nível do pânico. Depois acalmou-se.
Voltou para casa e enquanto grelhava uma tira de entremeada para o almoço, olhou em redor e sentiu-se melhor quando percebeu que reconhecia todos os objectos, sabia como fazer uma refeição, ainda sabia que aquele instrumento era um garfo e aqueles pauzinhos eram fósforos.
Agora bastava-lhe não se esquecer de que era preciso tirar a pele daquelas bolas acastanhadas, antes de as meter dentro de água, ao lume. Elas tinham nome, certamente que tinham. E ele sabia-o. Logo se lembraria.
Nessa tarde, saiu e foi à papelaria do Centro comprar umas quantas folhas de etiquetas autocolantes. Voltou para casa e sentou-se na sala, a escrever o nome de todos os objectos que o rodeavam. Pela noite dentro foi colando etiquetas um pouco por toda a casa, identificando mesas e cadeiras, sofás e armários, pratos e copos, a pasta dos dentes, a caixa de guardar os óculos.
Em algumas coisas foi deixando uma folhinha anexa, explicando a utilização a dar-lhes – o sal é para pôr uma pitada na comida, a substância daquela caixa é para passar nos sapatos e esfregar com aquele objecto que se chama escova; o ferro de engomar queima mas é preciso estar ligado pelo fio aos buraquinhos da tomada, na parede.
Por fim, alinhou as caixas dos diferentes comprimidos e colou em cada uma a respectiva etiqueta com a dose diária a tomar. E no armário por cima do lava-louça, na cozinha, e no espelho da casa de banho, dois avisos iguais: “Vai tomar os comprimidos!”
Sentiu-se contente. Ia bater a doença. Ia vencê-la pelo cansaço.
Já a manhã clareava quando se sentou a escrever a última recomendação que titulou em maiúsculas centradas ao cimo da página - MEMORANDO: “Se te esqueceste de tudo o resto e não sabes o que estás aqui a fazer, chegou a hora de partires. Veste-te, penteia-te, solta o Pepe e vai buscar todos os teus remédios que estão na bancada da cozinha. Mistura-os e engole-os com um copo de água bem cheio. Depois senta-te no sofá, liga a televisão e espera que o tempo passe.”
Pregou esta folhinha ao abajur do candeeiro da mesa-de-cabeceira e foi à sua vida, sem se preocupar mais com a falta de memória.


Sábado, 30 de Maio de 2009

A COMEMORAÇÃO

Por Madalena S.

No dia em que Manuel João da Veiga, vulgo Manecas Veiguinha, comunicou à família que ia mudar de sexo, a tragédia abateu-se pesadamente sobre a parentela, da mais chegada à mais remota, com especial incidência no avô Xavier que nunca mais recuperou do AVC diagnosticado sem apelo nem agravo pelo primo Joaquim o qual, ainda que especializado em obstetrícia, tinha conhecimentos suficientes para reconhecer a sintomatologia e prestar socorro em primeira mão.
Até porque o Manecas escolheu mal a ocasião: comemorava-se o aniversário de casamento do tio Francisco com a tia Mimi, cinquenta anos de felicidade ininterrupta, lua-de-mel permanente desde que ele lhe pusera a vista em cima e as mãos em baixo para a amparar e impedir de cair por via do encontrão desastrado mesmo à esquina do Eduardo Martins, descia ele a Rua Garrett e subia ela a Rua Nova do Almada.
Ora cinco décadas e picos depois de tão auspicioso embate – que o namoro fora de curta duração – reuniu-se a família na quinta de Benavente, para almoço de fausto e fartura, com animação variada que incluiu logo pela alvorada missa evocativa com renovação de votos, seguida de garraiada no tentadero, abertura de pipos com prova de vinho novo e preparação do porco que foi posto a assar no espeto, em fogo lento mas determinado, por volta das onze da manhã.
De norte a sul, ninguém faltou à chamada. E até o primo Bernardo voou de Inglaterra trazendo a reboque a mulher, a galesa Bridget, e os sete filhos com que ela o brindara em oito anos de casamento.
Entre primos e primas, em primeiro, segundo ou terceiro graus, tios, tias, mães, pais, avós variados, cunhados e cunhadas, noras e genros, filhos e filhas, sobrinhos, cães, gatos e outros animais de muita ou pouca estimação, estimou-se uma participação na ordem das cento e trinta pessoas. Era obra.
E tudo correu bem até às quatro da tarde, quando começou o baile, abrilhantado pelo grupo do Finezas, barbeiro por obrigação profissional mas músico por gosto e obstinação, exímio tocador de concertina, acompanhado na viola braguesa pelo Afonsino e nos bandolins pelo Zé Maria e pelo Valentim.
Dançava-se o fado.
A tia Mimi, afogueada nos braços do esposo adorado, demonstrava à horda de primos jovens como eram as danças antigas e como, há cinquenta anos, os rapazes se sujeitavam a regras de convívio altamente respeitadoras das donzelas solteiras.
O Manecas estava para lá de bem bebido. Levantou-se do lugar onde aterrara há algum tempo, debaixo da sombra fresca do toldo gigantesco que cobria a mesa principal, e procurando manter um percurso certo e equilibrado rumou na direcção do Carlinhos – o namorado novo da prima Eduarda – dobrou-se sobre o rapaz e, ignorando completamente a presença dos demais convivas, declarou-lhe o seu amor eterno e incondicional e os inflamados desejos carnais que lhe maceravam o peito desde que lhe pusera a vista em cima, três meses antes, numa festa de arromba, no Lux.
Uma bomba, fosse ela de que calibre fosse, não teria feito tanto estrago.
O visado não achou graça, a prima Eduarda ainda menos, alguns dos mais chegados à cena riram-se e levaram a coisa para o lado do excesso alcoólico, mas o Manecas insistiu. Começou a falar alto, a repetir o que tinha dito, vieram mais tios ver o que se passava, chegou o avô Xavier e teve de se sentar à pressa numa cadeira, começou a sentir-se mal, o primo Joaquim mandou chamar o 112, a mãe do Manecas só dizia “ ai, ai”, o pai do Manecas afirmava que não podia ser, o tio Francisco segredava à tia Mimi “ Eu cá me parecia!...”, a tia Mimi revirava os olhos divertida, a prima Eduarda queria bater no Manecas em defesa da honra do Carlinhos e a festa acabou ali mesmo, com cento e trinta participantes em luta acesa, uns a favor, outros contra, outros nem sim nem não, os restantes a tentar perceber o que raio se estava a passar e o Manecas, afogado em lágrimas e em vomitado de bêbado, a garantir para quem o queria ouvir que tinha uma operação marcada para dali a duas semanas, nos Estados Unidos, para mudar de sexo – libertar-se dos acessórios masculinos e assumir livre e gloriosamente os seios que lhe estavam a crescer desde que iniciara um tratamento hormonal adequado, acompanhado de terapia de apoio e de mais uma parafernália de procedimentos preparatórios. Num gesto teatral, abriu a camisa num arranque que lhe fez saltar os botões e mostrou os seios novos, firmes e levantados, num tamanho já razoável tendo em conta a formação recente. A prima Eduarda emudeceu e amareleceu de inveja. Outras primas e tias a acompanharam e pensaram que Deus não era justo, nem bom, nem coisa nenhuma.
O Carlinhos levantou-se, em silêncio ofendido, deu meia volta e dirigiu-se à saída com a prima Eduarda no seu encalço. Mesmo ao portão, gerou-se discussão acesa entre ambos. A família, preocupada, tentava perceber o alcance da refrega mas em vão.
O dia acabou triste, os restos da festa abandonados sobre as mesas, a carcaça do porco a consumir as últimas brasas, metade da família na sala de espera do hospital por causa do avô Xavier, o primo Bernardo a tentar trocar nove bilhetes de avião marcados para dali a dois dias de forma a regressar o mais rapidamente possível ao remanso conservador e bucólico do campo inglês.
No ano seguinte, o tio Francisco e a tia Mimi decidiram comemorar o aniversário de casamento apenas a dois, não fosse o diabo tecê-las. Durante um mês inteiro pensaram no que fazer e, finalmente, decidiram-se por algo verdadeiramente radical porque, afinal, só se vive uma vez.
De modo que o avô Xavier ia tendo uma reincidência do seu AVC quando chegou uma carta do tio Francisco e da tia Mimi, directamente de Venice Beach, Califórnia, USA, com uma colecção de fotos da festa de união do Carlinhos com o Manecas, quase irreconhecível no seu vestido de lamê dourado, justo e de generoso decote de onde pareciam querer saltar as “meninas” que tinham amarelecido de inveja a prima Eduarda, um ano antes.
O tio Francisco e a tia Mimi tinham apadrinhado a união e iam ficar por lá mais uns tempos a ajudar o movimento que lutava pela legalização do casamento gay na Califórnia. Continuavam felizes e esperavam que a prima Alice se assumisse definitivamente, de preferência antes da comemoração das bodas de diamante.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

A VIÚVA

Por Madalena S.

Dona Cândida era ainda uma mulher interessante quando enviuvou. Os belos olhos verdes amendoados sempre haviam sido o seu melhor atributo e nem os rios de lágrimas amargas que a partida do falecido desencadeara tinham conseguido manchar a limpidez do verde e o amendoado das formas.
Quanto ao resto, não havia sinal digno de nota. Algumas rugas, não muitas, um peso claramente superior ao desejável, o cabelo curto e espesso pintado num tom a oscilar entre o caju e o ameixa escuro e os dedos pequenos e sapudos cobertos de anéis de imitação com grandes pedras de vidro colorido.
Ao ver-se sozinha nas suas cinco assoalhadas antigas em Campo de Ourique, obrigada ao uso do preto por força das conveniências sociais – pelo menos durante um ano como mandavam as regras do luto de viuvez – Dona Cândida passou por várias fases: primeiro revoltou-se com a situação, acusando Deus de lhe pregar tamanha partida; depois voltou as suas recriminações para o defunto que não soubera resguardar a saúde e levara uma vida de libertinagem e excessos, de álcoois e tabacos, de gorduras variadas e toda a qualidade de desmandos alimentares, até entupir definitivamente as artérias e cair redondo e desamparado à porta de casa após esforçar o coração na íngreme jornada até ao 4º andar, sem elevador.
Também conheceu a etapa em que se autoflagelou por não ter sabido impor-se, obrigá-lo a dietas, a caminhadas saudáveis, a vigilâncias regulares pelo médico de família.
Por fim, quando já era passado meio ano, a dor foi amainando e Dona Cândida aprendeu a conviver com o seu novo estado civil. Começou por comprar uma blusa preta com pintinhas brancas e uma saia cinzenta. Depois, como precisava de mudar de roupa, a compra seguinte já foi um vestido com uns laivos de amarelo. Estava claramente a “aliviar o luto”, mesmo sem perfazer o protocolar prazo de um ano. De manhã, antes de sair de casa para comprar o pão, uns legumes ou uma fruta, olhava-se ao espelho e pincelava as maçãs do rosto e o nariz com um cheirinho de pó-de-arroz numa tonalidade de pêssego maduro que lhe dava um ar corado e saudável e ligava muito bem com os olhos verdes amendoados.
A primeira vez que foi sozinha à matiné nas Amoreiras, custou-lhe horrores e sentiu-se uma pecadora sem nome. Na segunda vez já respirou melhor e a partir da terceira insistência decidiu prazenteiramente instituir aquele hábito assentando numa ida semanal ao cinema.
Foi num domingo à tarde – tinha ela ido passear até à beira rio, apanhar sol frente aos Jerónimos e comer dois pastéis de Belém com um chá de camomila – que conheceu Abel, antigo sargento da marinha, aposentado com uma pensão muito jeitosa, divorciado, sem filhos, com residência nos Olivais, proprietário de um Renault 21 Nevada cinzento-escuro que, não fora o design algo antiquado, ninguém diria estar na sua posse há mais de vinte anos de tão estimado que era.
Foi ele que meteu conversa e se apresentou. Ela achou-o simpático e deu-lhe corda. Conversa puxa conversa, combinaram no mesmo sítio e à mesma hora para o domingo seguinte. E atrás desse domingo veio um outro e ainda um outro antes de ser marcado um primeiro encontro mais formal, com direito a jantar e fados e guitarradas, numa casa muito conhecida, em Alfama.
Embora não se podendo considerar que tivesse sido um espinhoso calvário, também não foi a coisa mais fácil do mundo para Abel conseguir que Dona Cândida o convidasse a jantar em sua casa. Por essa altura, ela esperava ansiosamente por um pedido para avançarem para uma etapa mais formal da relação.
Recebeu-o com sorrisos, amabilidade e um assado no forno a libertar um tal aroma pela escada abaixo que ainda ele não tinha chegado ao patamar do 2º andar e já os seus sentidos estavam em alerta total. No final do jantar, Abel estava rendido e absolutamente convencido que encontrara a mulher da sua vida, com quem tinha de casar rapidamente, antes que alguém aparecesse e se antecipasse.
Estavam sentados na sala em frente da televisão, em silêncio satisfeito, a ver um documentário sobre os rituais de acasalamento dos elefantes no National Geographic e a bebericar golinhos de licor de figo, quando Dona Cândida começou a sentir algum incómodo. Queria descalçar os sapatos, desapertar o soutien, tirar a cinta, “pôr-se à vontade”, mas a presença do convidado inibia-a.
Franziu o sobrolho, olhando para ele de esguelha. Era um belo homem, não havia dúvida. Alto, seco de carnes, o cabelo a grisalhar sobre as fontes. Mas não passava disso.
Mentalmente reviu os últimos dois meses, depois de se terem conhecido. Os encontros, as saídas, os jantares. Feitas as contas e os somatórios, não tinham ido ver um único filme escolhido por si, não gostara de nenhum dos restaurantes onde a levara, não apreciara especialmente a noite de fados. Ele quisera falar de livros mas ela nunca lera Lobo Antunes nem Jorge Amado que ele idolatrava e ele não suportava Paulo Coelho que ainda era o único autor que, lá de vez em quando, Dona Cândida conseguia ler.
A estas desarmonias foi juntando outras que buscou no fundo da memória recente: o anel que ele usava no dedo mindinho, os sapatos demasiado bicudos para o seu gosto, o aftershave de perfume adocicado.
O perfil sombrio do companheiro sentado a seu lado foi-se avolumando na sua imaginação de uma tal maneira que Dona Cândida deu consigo a pensar que metera um estranho em casa, que estava a correr um risco terrível, que podia ser assassinada, quem diabo seria o homem, Meu Deus, o que é que eu fiz? e Meu Deus, o que é que eu faço agora? será que ele já percebeu, será que ele me vai propor alguma indecência, se o apanho a olhar-me com segundas intenções dou-lhe com o candeeiro em cheio nas ventas, e por aí fora. Deixou de prestar atenção ao documentário e ficou sem saber o que fazia a elefante fêmea depois da cópula. Mas também, em boa verdade, não era coisa que lhe interessasse.
De modo que – seria perto da meia-noite – quando Abel, talvez embalado pelos rituais de acasalamento dos elefantes, lhe perguntou se ela não estava a pensar em refazer a sua vida, Dona Cândida respondeu-lhe peremptoriamente que a sua vida estava refeita. O que ela não tinha era intenção de voltar a desfazê-la. Como ele parecesse não ter percebido, ela acrescentou mais dois ou três esclarecimentos, foi dizendo que sim senhora, que ele até era simpático, mas nunca na vida, e estava bem assim e já era tarde, e os vizinhos iam falar, e mais isto e mais aquilo e foi-se levantando e andando para a porta.
Cinco minutos depois, Abel, ao volante do seu Renault 21 Nevada cinzento-escuro, fazia um esforço para perceber o que lhe tinha acontecido mas sem obter grandes resultados.
No 4º andar em Campo de Ourique, Dona Cândida finalmente descalçou-se, tirou a lingerie que a atabafava, vestiu um robe e deitou-se no sofá pondo os pezinhos gordos sobre uma almofada para melhorar a circulação. Sintonizou um canal de filmes e recostou-se, a preguiçar e a bebericar golinhos de licor de figo.
À cautela, deixou de ir apanhar sol para os Jerónimos e passou a frequentar o Parque das Nações.

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

O ANIVERSÁRIO

Por Madalena S.

No dia em que fez cinquenta anos, Sebastião Salsinha pensou que estava acabado. Sentiu-se asfixiar, afogado numa mágoa inexplicável que lhe consumiu o espírito e o extenuou fisicamente.
Às duas da tarde, após ter almoçado na companhia de alguns colegas de trabalho, voltou ao escritório e sentou-se à secretária olhando para a papelada espalhada na sua frente sem vontade de lhe tocar.
A pressão no peito aumentou. Tossiu para espantar o mau estar e foi buscar uma garrafa de água com gás ao mini bar, encostado no canto entre o sofá e a janela.
Ficou ali parado, a bebericar pequenos golos de água e a mirar o que se passava na rua, dez andares abaixo dos seus pés.
Como se estivesse a assistir a um filme, imaginou-se a abrir a janela e a saltar esparramando-se no solo, numa amálgama de ossos quebrados e massa encefálica, com fios de sangue a escorrerem pela calçada portuguesa, criando novos desenhos, muito mais modernos e inovadores do que os existentes.
Anteviu igualmente o seu velório. Centenas de pessoas. Milhares, mesmo.
Afinal, tratava-se do homem que reinventara a calçada portuguesa, introduzindo notas de modernidade quer no tipo de desenho, quer na cor que passara do branco e negro basalto para o branco, negro basalto e vermelho sangue.
Vermelho sangue… mas o sangue também pode ser azul. Sangue azul. Se ele tivesse sangue azul, seria barão. Ou marquês. Ou duque. O que é que valia mais? Marquês ou duque? Duque… de Loulé, avenida, contra marquês, de Pombal, praça e rotunda. Entre avenida e praça e rotunda, era difícil a escolha.
Voltou ao velório. Uma imensa massa humana a chorar por ele na Basílica da Estrela. Ou nos Jerónimos? Ou no Panteão? Não, no Panteão é para onde se vai depois de morto e enterrado, mas não se fazem velórios. Gostava da ideia de ir parar ao Panteão. Ao lado do Almeida Garrett e da Amália Rodrigues. Isso é que era. E um dia o Eusébio juntar-se-ia a eles.
Na secretária, o telefone deu sinal de vida. Olhou para lá de esguelha e deixou-o tocar. Não se moveu um milímetro do seu poiso seguro, junto à janela. Ao fim de meia dúzia de toques, o aparelho calou-se.
Voltou a olhar para a rua. Agora era a cabeça que parecia querer estalar. Que gaita! Seria que estava a ter um enfarte? Ou um AVC? Apalpou os braços, estendeu as mãos para a frente. Estava um pouco trémulo mas colocou esse tremor na categoria do nervoso miudinho. Estava nervoso. Porém, sem motivo. Só porque fazia cinquenta anos?
Que dor de cabeça do caraças! E que má disposição. Aquilo só podia querer dizer ataque de qualquer coisa suficientemente ruim para o deixar entrevado, sem préstimo, preso a uma cadeira de rodas ou, pior ainda, a uma cama. Mais valia acabar já com tudo.
E se ele se limitasse a abrir a janela, saísse para o parapeito mas não saltasse? Uma cena mais leve, só para dar nas vistas, para assustar a turba lá em baixo e espalhar o terror na turba cá de cima. Humm… Era algo a considerar. Considerar, consideração. Ora aí estava uma coisa que ninguém tinha por ele. Há mais de trinta anos que ali trabalhava e nunca lhe tinham dado ao menos uma palmadinha nas costas. Costas, costas largas. Ou costas quentes? O que é que se aplicava melhor a si próprio? Costas quentes, quentes, mornas, águas mornas, trópicos, Caraíbas, Cuba… Cuba, férias. Férias! Era disso que ele precisava urgentemente.
Sentiu um ligeiro alívio sobre a pressão no peito. Respirou fundo, emborcou o resto da água e dirigiu-se novamente para a secretária. Sentou-se de forma displicente e colocou os pés cruzados sobre o tampo da mesa. Fechou os olhos. Ao fundo do seu cérebro cansado começaram a chegar imagens suas, em calções, de chinelas havaianas, camisa às flores, desabotoada, panamá colorido a tapar-lhe a careca. Estava sentado à beira mar, debaixo de um chapéu-de-sol imenso, com os pés dentro de água, a bebericar por uma palhinha de meio metro um cocktail cor-de-rosa servido num copo extra largo.
Por todo o lado havia música, rumbas e mambos, e mulatas belíssimas que agitavam provocantemente as ancas fartas mesmo na frente dos seus olhos.
Sentia o coração a bater na mesma onda da música e à medida que o ritmo desta abrandava também a sua pulsação diminuía. A pouco e pouco perdeu a noção do que o rodeava e percebeu que estava a cair num torpor apenas explicável pela iminência da morte. Sobre si foi descendo um véu carregado de escuridão, que o envolveu por completo e o apagou suavemente.
Passava das quatro da tarde quando Dona Mariquinha, estranhando tamanha quietude, abriu a porta e se dirigiu à secretária para confirmar que o ruído que dali provinha era mesmo o ressonar regular e plácido da sesta de Sebastião Salsinha que, parecendo senti-la, acordou em sobressalto, deu um pulo na cadeira e rematou atrapalhado:
- … Hum… Dona Mariquinha… hã… tenho estado aqui a pensar… traga-me lá o dossier do projecto de Moçambique, faça favor!
E enquanto a mulher dava meia volta e saía em direcção ao arquivo, exclamou para si mesmo:
- Merda para isto! Agora já só consigo sair daqui depois das oito e vou chegar atrasado ao jantar de aniversário!

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

O LIVRO

Por Madalena S.

Há dois anos que jurava a pés juntos ao seu editor que o livro estava quase pronto. Faltava acabar a revisão, aprimorar dois ou três parágrafos, dar um jeitinho no epílogo, um jeitinho apenas, uma questão de verosimilhança.
A verdade é que depois do seu último sucesso editorial – dez semanas no top de vendas – apoderara-se dele uma “branca” de tal ordem que não conseguia alinhavar duas frases com sentido.
Começara vários projectos, com efeito, mas deixara-os com uma página, alguns com duas, apenas um ou dois haviam passado das três páginas. Na sua cabeça, criara um sem número de personagens mas depois não tivera como lhes dar vida, não soubera o que lhes fazer, andavam por ali a mastigar-se em rolos de palavras desconexas.
Tinha sobressaltos de cada vez que o telefone tocava, sempre a pensar que era da editora, reclamando o livro ou a devolução do adiantamento que entretanto já esbanjara desafogadamente. Um dia recebeu a intimação judicial: ou livro ou processo por quebra de compromisso.
Na manhã seguinte comprou uma arma. Coisa simples, sem grandes exigências de treino, algo que ele próprio pudesse manusear facilmente. Dirigiu-se à editora. Entrou calmamente no edifício, passou pela recepcionista com um bom dia seco e desembocou no gabinete do editor que estava sentado à secretária a mexer em papéis.
Nem sequer abriu a boca para se justificar. Perdido por cem, perdido por mil. Empunhou a arma e disparou três vezes. Logo à primeira, o editor escancarou os olhos sem perceber o que era aquela coisinha que lhe batera no centro da testa, queimando como ponta de cigarro, e caiu para trás desamparado, os braços abertos numa ridícula tentativa para encontrar um ponto de equilíbrio.
Finalmente, tinha matéria para o seu novo romance policial: arma, criminoso, vítima, motivo, oportunidade e todos os demais ingredientes do género.
Seis meses depois, a história do autor que matou o seu próprio editor era um best-seller e ia ser adaptada ao cinema. Da prisão, enviava por e-mail aos seus leitores, autógrafos digitalizados.

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

TRÂNSITO

Por Madalena S.

Parado na fila, sem andar um metro há mais de quinze minutos, fixava, com o olhar estático de quem não está a ver nada, o movimento regular dos limpa pára-brisas na sua dança simétrica sacudindo as gotas grossas da chuva que caía, ininterrupta, desde a noite anterior.
O caos instalara-se na cidade. O temporal nocturno provocara inundações e quedas de árvores, entupira sumidouros, deixara as ruas num lamentável estado de desordem.
Já pela manhã, o martírio do trânsito agravara-se com vários acidentes que tinham vindo completar a situação apocalíptica.
E nada fazia prever que o tempo estivesse para mudar. O céu mantinha-se cinzento, escuro e carregado de água que despejava impiedosamente sobre a cidade impermeável.
No rádio ligado mais por hábito que por gosto, a voz grave do jornalista debitava o estado dos vários acessos, dos acidentes que cortavam vias, dos cruzamentos por onde nada circulava.
Procurou outro posto. Passou pelos Rolling Stones, pelo Abrunhosa, por mais notícias, publicidade, pela nostalgia do José Cid, mais publicidade e acabou por sintonizar a Ella Fitzgerald dando corpo à música de Gershwin.
Anteviu a sua chegada ao trabalho, o olhar enviesado do coordenador rodando dele para o relógio, sem dar nas vistas para não armar em patrão à antiga mas de forma suficientemente explicita para lhe passar a mensagem de que o estava a controlar.
Depois pensou na Cristina. Na véspera, voltara a discutir com ela até à exaustão, por causa da Vera e dos ciúmes. De nada lhe valia garantir-lhe que há muito tudo estava acabado, de nada valia pedir desculpas, suplicar perdões. De seguida, pensou na Vera. Ainda estava para perceber o que lhe passara pela cabeça para andar enrolado com ela.
Acendeu o quinto cigarro do dia e aspirou com força inundando os pulmões de nicotina e alcatrão. Que estúpido se sentia por ter voltado a fumar. Três anos sem dar uma passa e numa noite apenas, para aconchegar uns whiskies a mais em farra de amigalhaços, deitara por terra todo o sacrifício passado e confirmado pelos doze quilos que ganhara com a abstinência.
Começou a sentir um formigueiro nos pés. Estava incomodado. A cabeça fervia-lhe num exagero de imagens que vinham em catadupa, sem plano prévio, sem razão aparente. A Cristina não podia ter filhos, logo ele não iria ter filhos. Mas a Vera fizera um aborto. Duas prestações da casa em atraso. A máquina de lavar avariada. O merdas do Mendonça recebera o prémio de mérito e passara-lhe à frente na empresa. Que raio de mérito havia em beijar o cu aos chefes? Tinha de responder aos telefonemas da mãe. Já ia em três, com mensagem deixada no telemóvel. Ia ter de a ouvir. À tarde não podia esquecer-se de passar no sapateiro para ir buscar as botas da Cristina. As botas da Cristina tinham um salto tão alto e tão fino… Se ela lhe desse com a bota na cabeça, conseguia furar-lhe o crânio com aquele salto!... Sentiu a dor aguda do salto a enterrar-se-lhe nos miolos.
Abriu uma nesga da janela para deixar sair o fumo e entrar o fresco. A chuva, porém, batida exactamente daquele lado, começou a molhar o interior. Voltou a fechar a janela. Faltava-lhe o ar. Porra! Há vinte minutos que aquilo não andava, nem para a frente nem para trás! Começou a doer-lhe a cabeça. Era a falta da primeira bica do dia. Já a devia ter bebido há coisa de uma hora.
E então, repentinamente, fez-se um grande silêncio à sua volta. O rádio, que passara da Ella Fitzgerald para o Elvis Presley, calou-se. Os ruídos do trânsito e da chuva desapareceram. Dentro da sua cabeça, as imagens pararam. Sentiu uma pressão tão grande como se estivesse a ser esmagado numa prensa gigante. Quis respirar e não conseguiu. Libertou-se do cinto de segurança e esticou o peito para a frente em direcção ao volante, procurando endireitar o corpo. Ia morrer?!?
O universo inteiro pareceu ficar suspenso, como se estivesse dentro de um filme e alguém tivesse carregado no botão da pausa.
Mas tão inexplicavelmente como surgira, o silêncio morreu num enorme urro urbano, o som infernal das buzinas a massacrá-lo sem piedade.
Nesse instante, tudo lhe pareceu tão claro e tão simples que até lhe custava a entender como não vira mais cedo a solução.
Desligou o motor, abriu a porta e saiu ao encontro da chuva purificadora.
Começou a caminhar por entre os carros até chegar ao passeio, andou mais dois quarteirões e continuou, calmamente, debaixo de água, como se soubesse exactamente para onde ia.
Desapareceu na esquina seguinte.
Foram precisas duas horas para desfazer o imbróglio criado por um carro cujo condutor se evaporara misteriosamente deixando o rádio ligado, a chave na ignição e as luzes acesas.
Durante muito tempo, a Judiciária investigou a possibilidade de rapto. Sem resultados.

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

O ESPELHO

Por Madalena S.

Três meses antes, ao tentar fugir para a casa de banho para evitar os murros do marido, sentira-o a agarrá-la pelos cabelos no último minuto e só se lembrava de olhar para o espelho e, um instante antes de a cara se esborrachar em cheio contra o vidro empurrada pela manápula grosseira do homem, pensar que partir um espelho dava sete anos de azar.
Agora, olhava a sua imagem distorcida pelo vidro rachado e pensava que de azar tinham sido os catorze anos anteriores, duas vezes sete anos, tempo de martírio que só terminara no dia em que partira um espelho à cabeçada, atirada contra ele como se fosse uma pedra, um tijolo sem valor.
Tirou o espelho da parede com cuidado para não se cortar nos cacos mal unidos entre si, atirou-os para dentro de um saco de plástico e, desembrulhando com cuidado o novo espelho que encostara à banheira, pegou-lhe pela argola da corrente e pendurou-o no lugar do anterior.
Olhou em frente, séria e sem pestanejar, e mirou-se pela primeira vez em três meses numa superfície lisa e intacta que lhe devolveu uma imagem de marcas e cicatrizes, umas na alma, fundas e sem remédio, outras no rosto, dois golpes sobre o sobrolho direito, um outro mais profundo cortando-lhe a face esquerda em dois em direcção à orelha, e um outro arrepanhando-lhe o lábio superior, num trejeito que, ironia das ironias, lembrava um sorriso permanente.
No hospital disseram-lhe que podia fazer uma operação plástica. Ou mais do que uma. Para recuperar as feições. Estava em lista de espera mas a sua médica já lhe tinha dito que ia tentar tudo para a operar rapidamente, para não lhe prolongar demais o sofrimento. Ela acreditava. Os médicos tinham sido todos muito bons para ela. O ortopedista que lhe tratara da fractura no braço direito fizera um trabalho perfeito, felizmente. E hoje, já conseguia ir trabalhando ainda que continuasse na fisioterapia “pelo menos mais dois meses”, já lhe anunciara o Dr. João.
As patroas também tinham sido muito compreensivas e tinham aguardado pela sua recuperação. Todas menos a lambisgóia do engenheiro. A estúpida nem esperara que ela saísse do hospital, mandara recado a dizer que não podia estar sem ninguém, ia arranjar outra pessoa. A culpa era dela que acedia a trabalhar sem contrato, sem descontar para a segurança social, sem seguro. Não fosse isso e a finória tinha de ter baixado a bolinha, que ela tinha direito a estar de baixa médica, a recuperar.
Vá lá que a D. Irene e a D. Filomena tinham sido impecáveis. E ela até calculava o transtorno que devia ter sido para a D. Filomena, com cinco homens em casa, todas as semanas um rol de camisas para passar a ferro, sem falar nas fardas do marido, oficial da marinha, sempre exigente com os vincos das calças.
Agarrou no saco com os cacos do espelho partido e foi deitá-lo no lixo, serena, tão serena como no dia da última tareia quando se arrastara a pingar sangue até ao patamar da escada e pedira à vizinha que chamasse a polícia, pondo um ponto final no horror de uma vida em sobressalto constante.
Do tacho pequeno sobre um fogo brando, saía o aroma dos coentros e do alho para uma minúscula açorda para o almoço, com a qual ia aproveitar os restos do pão da véspera, já duro e sem préstimo para ser comido ao natural.
Escalfou um ovo na açorda e tirou-a do lume com cuidado despejando-a para o prato fundo. Sentou-se à mesa e comeu com vagar, saboreando a comida e o silêncio à sua volta.

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

O DOM

Por Madalena S.

Maria Celestina tinha um dom. Não sabia com exactidão quando é que a coisa começara mas costumava recordar aquela longínqua noite da sua adolescência em que tivera a premonição sobre a morte da Salomé, a gata siamesa da Tia Veva, como a primeira manifestação séria do seu dom.
Antes disso, lembrava-se de pequenos episódios adivinhatórios, como saber quanto eram oito vezes nove antes mesmo de a professora a fazer declinar em conjunto com os colegas a simples tabuada do dois, ou ter a certeza de que o Celso se ia espalhar ao comprido nos degraus da igreja, ainda o dito não tinha virado a esquina em correria desenfreada para fugir da fisga do Zeca Finuras.
Depois do trágico desaparecimento da Salomé, que viera confirmar as suas capacidades de prever o futuro, Maria Celestina começou a ser solicitada para pequenos favores à vizinhança.
A Laurinda pedira-lhe o sexo do bebé que esperava, o Sr. Manuel da mercearia queria saber se o Felismino lhe ia pagar a dívida que lá tinha há mais de um ano e quando é que isso aconteceria, a prima Gracinda precisava insistentemente de conhecer o nome da lambisgóia que lhe andava a desnortear o marido.
O tempo foi passando e Maria Celestina foi crescendo, de corpo e de espírito, transformando o que era uma corrente de pequenos obséquios à família e conhecidos numa verdadeira prestação de serviços à comunidade.
Começou a dar consultas em casa, no quartinho dos fundos onde colocou uma mesa redonda e um par de cadeiras e pendurou nas paredes uns quadros e uns cartazes mais ou menos esotéricos, com claras alusões aos astros, ao oculto e a conceitos similares. Por via das dúvidas, acrescentou à decoração uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, com uma lamparina acesa em chama mortiça a aquecer os pés de gesso da santinha, e mandou fazer uns cartões com a figura de Santo António e uma oração no verso que oferecia às clientes com problemas sentimentais.
Como o seu dom parecia crescer em eficácia, a palavra começou a espalhar-se e Maria Celestina ganhou notoriedade alargando a sua área de influência para além das fronteiras do bairro. Quando tomou consciência de que era conhecida pela Vidente Celestina, mandou fazer uma tabuleta discreta e colou-a ao lado da campainha. A clientela cresceu.
Um dia bateram-lhe à porta, de manhã cedo, estava ela a preparar-se para sair, ir beber a sua bica matinal, comprar o pão, um peixito para o almoço e voltar para casa por volta das onze para começar as consultas.
Maria Celestina abriu a porta e olhou para o homem engravatado que tinha na sua frente, segurando uma pasta castanha e um chapéu-de-chuva com uma vareta partida.
O homem identificou-se. Era das finanças. Tinham recebido uma queixa. Havia ali actividade comercial, negócio, sem recibos, sem facturas, sem contabilidade organizada.
Maria Celestina rapou do caderno onde assentava o seu deve e haver, de um lado o nome dos clientes e a data das consultas, do outro as quantias que recebia de cada um. Mais organizada que ela não havia, podia haver igual mas mais não!
O homem não aceitou a explicação. Onde estavam as declarações do IRS, do IVA? Onde estavam as contribuições para a segurança social? Se era uma actividade económica, onde estava a declaração de IRC? Fuga ao fisco, declaradamente.
Preencheu um impresso, depois um outro, mais duas folhas cheias de perguntas e de quadrados onde foi inserindo cruzes. No final, entregou-lhe um duplicado amarelo e informou-a de que tinha oito dias para apresentar recurso. E teria de encerrar imediatamente a actividade.
Saiu no preciso instante em que chegou a Micaela, que vinha tirar a limpo se a cunhada andava metida com o tipo da imobiliária ou não.
Maria Celestina estava perturbada. Ainda tentou satisfazer a curiosidade da Micaela mas em vão. Não via mais nada para além dos oito dias que tinha pela frente para resolver a vida e nem conseguia perceber como é que não tinha adivinhado o que lhe ia cair em cima. Que diabo! Seria que o dom começava a falhar-lhe?
Nessa noite não dormiu nada de jeito mas, pela madrugada, tinha resolvido que estava na hora de usar o seu dom em proveito próprio.
Oito dias depois, a vizinhança acordou num alvoroço e a notícia correu como rastilho – a Vidente Celestina fora-se embora. A casa estava vazia, vendera os móveis ao Inácio da barbearia, deixara a Nossa Senhora de Fátima à Micaela – para compensar a sua incapacidade de lhe dar a informação pretendida – e distribuíra o resto das orações de Santo António pelas empregadas do minimercado.
A maioria ficou com pena, muitos não percebiam o porquê da partida mas, entre uns quantos, houve logo quem duvidasse das suas intenções e denegrisse as suas capacidades premonitórias.
Só quando o Horácio do Snack-bar Avenida anunciou aos quatro ventos que ela tinha acertado no Totoloto, Joker incluído, é que a populaça percebeu a real dimensão do dom de Maria Celestina.