terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

A CASCA DE BANANA

Por Madalena S.

Ao fim de 30 anos de abusos e desconsiderações, Adelina atingiu finalmente o limite da paciência e da subserviência.
O ponto de ruptura deu-se na noite de passagem de ano quando, faltava um quarto para a meia-noite, a cunhada lhe telefonou a perguntar por onde andavam e ela teve de lhe responder que não andavam por lado nenhum: ela estava em casa, à espera do Júlio que ficara de a ir buscar às nove mas, até àquela hora, ainda não aparecera.
A cunhada ainda tentou convencê-la a ir ter com eles – sem grande convicção, é certo – mas ela recusara. Não ia chegar antes da meia-noite e não lhe estava a apetecer passar o ano na rua, no meio de coisa nenhuma a caminho de uma festa de família onde, ainda por cima, a sua presença sem o Júlio ia causar constrangimentos.
À meia-noite, levantou-se do sofá, meteu doze passas na boca e bebeu um golinho de vinho do porto para empurrar. E decidiu para si mesma, em silêncio: acabou-se!
O Júlio apareceu no final do dia de Ano Novo, seriam já umas onze e meia da noite, com uma bebedeira que devia ser a mesma que apanhara na noite de Natal, sujo e mal cheiroso e a arrastar a voz enquanto lhe ia contando pormenores da sua noite de passagem de ano, com o Zé e o Bexiga e com umas amigas deles, umas gajas todas boazonas que tinham feito isto e aquilo e frito e cozido.
Adelina nem respondeu.
A Graciete dera-lhe o nome do advogado que lhe tratara do divórcio. No dia seguinte ia falar com ele e acabava com aquilo de uma vez por todas.
Mas, depois, o Júlio começou a descrever com minúcia o que tinha feito especificamente com uma das boazonas. Sentado à mesa da cozinha, a descascar uma banana, ia falando como se estivesse a gabar-se para uma roda de amigos e não na presença da sua mulher. Uma mulher que tinha dezasseis anos quando casara com ele; que lhe dera três filhos maravilhosos; que trabalhava que nem uma moira, de manhã à noite, para sustentar a casa, os vícios do marido e os estudos dos filhos.
Já nenhum vivia com eles e, com a saída dos rapazes lá de casa, tudo se tornara ainda mais difícil. Nos trinta anos de casamento amargurado, Adelina não podia queixar-se de grandes tareias mas levara, por junto, talvez uma meia dúzia de tabefes e um único soco de mão fechada que lhe partira um dente e lhe deixara uma cicatriz fininha por cima do lábio.
Mais do que a violência física, o que a fartara de vez fora a violência psicológica, os vexames e humilhações, o abandono, a falta de respeito e consideração.
E agora que estavam sozinhos, até parecia que a coisa piorara. O vício do álcool acentuara-se e o abandono crescera desmesuradamente. A tal ponto que ela nem conseguia identificar as emoções que lhe povoavam o espírito. A única certeza é que não era amor, nem paixão, mas tão pouco ódio ou rancor. Tudo se desvanecera com o passar dos dias e, durante muito tempo, Adelina apenas sentira medo, um pânico quase absurdo, uma vontade urgente de se tornar invisível de cada vez que Júlio entrava em casa.
Nessa noite, porém, até esse sentimento de pavor doentio desaparecera. Olhou para ele que se ria alarvemente e pensou: “Mas até quando é que vais aturar isto, Adelina? Divórcio? Ele nunca vai aceitar. Não vai assinar papel nenhum, não vai falar com advogados, nem juízes, nem porra nenhuma. Ainda vai ficar ressabiado e vai moer-te a dobrar. Às tantas, voltas a apanhar que é coisa que nos últimos anos nem tem acontecido.”
As ideias fervilhavam-lhe na cabeça. Podia ir-se embora mas não tinha para onde. Não queria ir sobrecarregar os filhos. Os rapazes tinham a vida deles. O mais velho vivia com a namorada, a casa era minúscula, não dava para mais quem quer que fosse. O do meio partilhava um apartamento com três colegas e o mais novo alugara um estúdio encavalitado numas águas furtadas na zona do Castelo onde ele mal cabia, quanto mais a mãe e as suas tralhas.
E o Júlio que não se calava com a boazona assim e a boazona assado. E ria, o animal!
De repente, Adelina sentiu descer sobre si uma calma inexplicável. E, nesse mesmo instante, soube exactamente qual era a solução para o seu problema.
Abriu a porta do armário onde guardava as panelas e procurou a frigideira grande de ferro. Agarrou-a pela asa comprida, com as duas mãos, e mirou o formato, pesando-a a olho, avaliando a capacidade de movimentação e a velocidade que lhe conseguia imprimir.
Aproximou-se do Júlio, por trás, levantou a frigideira e lançou-a com toda a força sobre a nuca do marido. A pancada da frigideira a bater em cheio no crânio do homem soou grave e pesada e o Júlio caiu de borco sobre a mesa, inanimado, o sangue a jorrar-lhe de uma brecha larga, aberta ligeiramente acima do pescoço.
Adelina posou a frigideira no lava louça e voltou para junto do homem. Colocou-lhe dois dedos no pescoço, à procura de pulsação, mas não encontrou nada. Encostou o ouvido o mais possível à cara dele, tentando ouvir algum silvo, mesmo que frouxo, de respiração. Nada.
Foi à mala buscar o espelhinho pequeno que usava para arranjar as sobrancelhas e colocou-o em frente da boca do Júlio. Nem pingo de vapor. Voltou a tentar encontrar-lhe um vestígio de batidas do coração, no pescoço e no pulso, e mais uma vez não sentiu coisa alguma. Estava visto. Fora instantâneo. Júlio quinara sem sequer perceber o que lhe acontecera.
Então, Adelina agarrou-o por debaixo dos braços e levantou-o da cadeira. Sorte que a má vida que o homem sempre levara o deixara assim enfezado e mais leve do que seria normal num homem feito.
Puxou-o para junto da bancada de mármore do lado do fogão e mediu a distância com uma olhadela entendida. Aproximou-lhe a zona da ferida do bordo da bancada e, quando achou que a distância era a correcta, largou-o. A cabeça do homem bateu em cheio na esquina de pedra e o corpo morto escorregou em direcção ao chão de mosaico, deixando um rasto de sangue a escorrer pela porta do armário.
De seguida, Adelina pegou num esfregão, encheu um alguidar de água com lixívia e limpou a mesa até não restar um único vestígio de sangue. Lavou a frigideira, limpou-a e guardou-a no lugar devido. Colocou a fruteira sobre a mesa, olhou em volta certificando-se de que tudo estava no lugar e, então, agarrou na casca da banana que Júlio estivera a comer e, pegando num pé do cadáver, obrigou-o a pontapear a casca, como se esta estivesse no chão e ele tivesse escorregado. A casca voou até à outra ponta da cozinha, deixando um rasto pegajoso no sítio onde supostamente teria sido pisada e Adelina largou o pé do morto que caiu e ficou ali, inerte, a biqueira do sapato a apontar para coisa nenhuma.
Apagou a luz, saiu da cozinha e foi-se deitar. Armou o despertador para as quatro da manhã e adormeceu pacificamente. Quando o despertador tocou, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e caminhou até junto do corpo que continuava na posição em que o deixara. Voltou a certificar-se de que se tratava de um cadáver, procurando o pulso que não encontrou, obviamente, tanto mais que, por essa altura, o corpo já se encontrava asquerosamente frio.
Foi buscar o telefone e ligou para o 112. Deu todas as indicações que lhe pediram e, quando desligou, sentou-se e ficou a aguardar enquanto revia mentalmente a história que engendrara: deitara-se cedo, pelas dez horas. Não dera por o marido entrar em casa. Às quatro da manhã levantara-se, viera à cozinha beber água e deparara-se com aquele espectáculo.
Ainda considerou deitar umas lágrimas mas depois pensou melhor e achou que era preferível não fazer cenas dessas. Toda a vizinhança conhecia a sua relação infeliz e ninguém estava à espera de grandes manifestações de desgosto. Mais valia ser sincera.
Recostou-se na cadeira, em espera silenciosa, e deu graças a Deus por todas as noites em que, sozinha, vira e revira duas e três vezes, todos os episódios do CSI.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

O MILAGRE

Por Madalena S.

Acordou com esforço, os olhos teimando em não se abrirem, as pálpebras ramelosamente coladas. Nestes dias em que o despertar era assim difícil, a vontade era de se deixar ficar, não lutar contra este peso que o pregava ao colchão, fingir-se de morto, respirar devagarinho para ninguém dar por ele.
Apurou o ouvido e sentiu a chuva a cair na rua atapetada pelo amarelo-torrado das folhas dos plátanos outonais.
Sentiu uma certa alegria ao pensar que a chuva ia impedir a estucha de trabalho que o esperava nesse domingo.
Um nó no estômago indicou-lhe que era errado pensar assim.
Aquele fogo a comer-lhe as entranhas era uma sensação que o assaltava sempre que o seu interior lutava desta maneira, o grilo falante da sua consciência a azucrinar-lhe os ouvidos e a aguçar-lhe o bicho do remorso.
Mas, por outro lado, a chuva não era responsabilidade sua. E se chovia daquela maneira, só tinha de humildemente aceitar a diluviana vontade divina que assim afogava a cidade.
Afastou os lençóis, cambaleou em direcção à casa de banho e tratou da sua higiene matinal. Era frugal nestas coisas: um duche rápido, a barba feita com uma lâmina das mais baratas, descartável, dentes escovados com genica e pouco mais. O cabelo tinha pouco que pentear e a fraca variedade de roupa também não obrigava a escolhas problemáticas. Ainda assim, teve dificuldade em encontrar um par de meias sem que, pelo menos uma delas, tivesse um buraco.
Enquanto mastigava uma torrada que ia molhando na chávena de café com leite para amolecer a côdea, rezava afincadamente para que a chuva continuasse a cair.
Saiu de casa e caminhou apressado, lutando com o chapéu-de-chuva mas não evitando que as calças se ensopassem e os pés se alagassem dentro dos sapatos de sola grossa.
Chegado ao destino, tinha as manas Antoninhas à sua espera e teve de ouvir as suas lamúrias a respeito da chuva e de como o dia estava mau e de como tudo podia estragar-se…
Foi assentindo, entre resmungos mal-humorados, mas, no seu íntimo, uma luz ia-se acendendo aos poucos na esperança de que a chuva não parasse.
Quando chegou o Hilário, mandou-o preparar tudo na mesma porque a chuva podia muito bem parar.
- Mantemos a hora de saída? – Perguntou o Hilário.
- Claro. Não está previsto para as três?
- Sim, mas com esta chuva…
- Bom, a essa hora logo se vê.
Ao meio-dia, a chuva parecia ter redobrado de intensidade. O seu coração iluminou-se mais um bocado enquanto mastigava a bifana rija que o Hilário lhe fora buscar ao café do cunhado, empurrada com uma cerveja preta sem álcool.
À uma da tarde, até trovejava e ele começou a ter dificuldade em disfarçar o bom humor que, aos poucos, parecia querer tomar conta de si. Afinal, não podia dar a entender que estava satisfeito com aquele contratempo. Para não levantar suspeitas, fardou-se a rigor.
Seriam umas duas e meia quando a chuva parou subitamente. Nem queria acreditar. Olhou para as manas Antoninhas nas suas farpelas domingueiras e só lhe apeteceu despejar-lhes um balde de água em cima, para aprenderem.
O Hilário entrou de rompante:
- Está a chegar gente aos molhos!
- É um milagre! – Anunciou a Maria Antoninha.
- Louvado seja Deus! – Completou a Antoninha Maria.
Eram três e vinte e um sol tímido espreitava por entre as nuvens que desapareciam rapidamente deixando entrever largos pedaços de céu azul, quando saiu para a rua e se colocou debaixo do pálio, depois de o último andor, com a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, ser carregado pela escadaria da igreja com a dificuldade que o seu peso exigia. Atrás de si, a filarmónica da terra entoava uma marcha de procissão num som roufenho e desafinado, seguida por uma multidão de fiéis que encerrava o cortejo.
Voltara-lhe o mau humor. A sorte é que a populaça entendia o cenho carregado como sacrifício e não como sinal de frete. Olhou para o andor que seguia na sua frente e pareceu-lhe que a imagem de madeira se voltava lentamente para o mirar por cima do ombro e para lhe dizer, com um sorriso trocista:
- Mas passou-te pela cabeça que iria chover à hora da procissão? Não estás bom do juízo, rapaz. Então eu sou Nossa Senhora dos Milagres, para quê? Que vergonha. Um padre sem fé!
Abanou a cabeça desalentado, pensou “Estou feito!” e, pelo sim, pelo não, iniciou um rosário completo e fervoroso de Ave-marias. Para se penitenciar.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

O SEMÁFORO

Por Madalena S.

O semáforo caiu para vermelho dois instantes antes de poder passar com segurança. Ainda pensou em acelerar e tentar a sorte mas, no último momento, o pé direito girou rapidamente do acelerador para o travão e o esquerdo levou a embraiagem a fundo fazendo o carro estacar com alguma chiadeira dos pneus.
Porque teve a noção de que a manobra podia ter induzido o condutor que a seguia em erro, instintivamente olhou pelo espelho retrovisor. Não havia azar. O carro de trás parara em segurança.
Irritava-a ter de parar naquele cruzamento porque o sinal demorava imenso tempo até voltar a ficar verde, mas quando era preciso, era preciso.
Olhou em volta. À sua direita parara um carro comercial, com umas listas verdes na diagonal e um logótipo que, com alguma boa vontade e uma generosa dose de criatividade, seria um parafuso. Por baixo, a confirmação: Ferragens São Martinho. Mirou o condutor que tinha o dedo indicador direito todo enfiado no nariz e quedou-se a apreciar a técnica com que o dito o rodava cuidadosamente, numa manobra em tudo semelhante à do parafuso, trazendo-o até à entrada e voltando a rodar de modo a enfiá-lo até meio, o polegar a auxiliar o manejo segurando a aba da narina… O homem deve ter sentido que estava a ser observado porque olhou de esguelha e retirou rapidamente o dedo, ao mesmo tempo que passava a mão na cara como se estivesse a espalhar o sono e o cansaço.
Sorriu para dentro e desviou o olhar, voltando a espreitar pelo retrovisor.
No carro de trás, um casal sentava-se em silêncio, ele ao volante, ela no lugar do pendura, cada um olhando para fora do carro pela respectiva janela.
Deixou-se ficar a olhar. O cabelo dele começava a rarear na frente e o dela mostrava uma raiz mais escura que o resto, denunciando necessidade de tinta fresca. Estariam na casa dos quarenta, a meio caminho para os “enta” seguintes.
Ele abriu a boca e disse qualquer coisa sem, contudo, olhar para ela. Ela não respondeu. Ele voltou a falar, olhando em frente e gesticulando com a mão direita enquanto a esquerda se mantinha, displicente, sobre o volante. Dessa vez ela respondeu, inclinando a cabeça para a esquerda enquanto falava mas sem desviar, ainda assim, os olhos da janela.
Imaginou-os casados. Ela, “Deolinda de Jesus”, administrativa na função pública, numa conservatória. Com quase trinta anos de serviço sonhava com a reforma mas via-a cada dia mais longe e isso deixava-a deprimida. Ele, “António José”, pasteleiro. Ou empregado de mesa numa pastelaria. Sim, era mais isso. “Via-o” de camisa branca e calça preta, com o nome numa placa de alumínio pregada no bolso da camisa, a pedir uma meia de leite e um jesuíta para o senhor engenheiro, lançando a voz meio gritada para dentro do balcão.
Fantasiou-os no dia do casamento. Na igreja de Santo António, com mais uma dúzia de outros noivos. Tinham sido noivos de Santo António. Ela estava bonita nesse dia. Mas agora, vendo-a assim através do vidro, não lhe parecia bonita, nem bem arranjada. Como é que o “António José” a teria conhecido? E o que é que o levara a apaixonar-se por ela?
Mas ele apaixonara-se. Sem remédio. Pois se até tinham casado… nessa época ela era magra e tinha o cabelo de uma cor só. Era fácil apaixonar-se.
O difícil era perceber como é que se mantinham juntos. É certo que tinha havido aquele caso com a outra. Ora, uma outra… seria quem? Ah, sim, podia ser a ”Zézinha”, cabeleireira, que ele conhecera num jantar em casa de amigos e com quem costumava ir até à praia de Carcavelos, tomar um copo numa esplanada. Não, cabeleireira não, era antes caixa no supermercado, brasileira e chamava-se “Magali”.
Mas a “Deolinda” era uma mulher à séria. Perdoara. Também não havia grande coisa para perdoar porque aquilo não passara de um devaneio e ele nem nunca chegara a molhar a sopa.
Agora olhava para eles, assim à socapa, numa imagem reflectida, e deu consigo a pensar como seria a vida desta gente, “Deolinda” e “António” – podiam ser Maria e Manuel ou José e Casimira que, para o caso, tanto faria. A curiosidade era acreditar que ele ainda gostava dela. O que seria, porém, que o fazia gostar de uma mulher que não tinha nada a ver com a mulher por quem se apaixonara há vinte anos? O hábito? Porque é que nos mantemos ao lado da mesma pessoa ano após ano? É para sempre? Nem sempre é para sempre.
“António José” voltou a dizer qualquer coisa e “Deolinda” riu-se, rodando o rosto para ele. Era isso, ela tinha sentido de humor. E na cama ele passara a apreciar mulheres mais cheiinhas. Visualizou a cena na sua cabeça. Ele e ela, nus… ou com pijama? Pijama ele e camisa de noite ela… talvez um negligé preto… hum… provavelmente era essa a cola que os mantinha unidos…
De repente uma buzina soou, frenética, e o “António José” gesticulou na sua direcção e do semáforo, o vizinho do lado acelerou o carro das Ferragens São Martinho e, em simultâneo, ela percebeu que o sinal estava verde. Avançou e esqueceu por instantes o casal do carro de trás e o facto de algum dia os ter imaginado na intimidade.
Quando voltou a olhar, o carro atrás de si era um táxi cheio de turistas.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

O MEMORANDO

Por Madalena S.

Começou por ter dificuldade em lembrar-se de coisas simples: recados, nomes de pessoas que tinha a certeza de conhecer, sítios onde tinha de ir, coisas que tinha para fazer.
Não ligou muito. Atribuiu ao cansaço e ao peso da idade. Afinal, os anos passam, quer se queira, quer não.
Foi à farmácia e a doutora vendeu-lhe umas ampolas para o cérebro. Magnésio, disse ela. Faziam muito bem e ajudavam a rejuvenescer as células.
Tomou duas caixas mas as memórias teimavam em fugir-lhe.
Até ao dia em que se esqueceu de abrir a porta ao Pepe – o seu rafeiro fiel e único companheiro há mais de doze anos – e só o uivar desgostoso do canito, farto de estar ao frio e à chuva que começou a cair por volta da meia-noite, o tirou da cama num susto para o ir recolher.
Nessa noite custou-lhe a pegar de novo no sono. Levantou-se por volta das cinco da manhã e às seis já estava à porta do Centro de Saúde para garantir que arranjava uma consulta.
O médico perguntou-lhe a idade e fez-lhe uns testes próprios para quem chega à beira dos setenta sem grandes sobressaltos. Fez-lhe mais perguntas. E mais perguntas. Até à fatal, a que sempre receara ouvir:
- Ó Senhor Alberto, você não tem família?
Não. Não tinha família, nem próxima nem afastada. Nem primos, nem sobrinhos, nem afilhados. Nada.
- E amigos?
Bom… tinha tido alguns. Ao longo da vida. Não muitos. Mais colegas de trabalho do que propriamente amigos. Amigos do peito, se assim se pode dizer, tivera o Almerindo, camarada de tropa que o salvara de uma bala cega numa picada em Angola, nos idos dos anos sessenta quando a guerra lhe comera a juventude. E o Santos, companheiro de bancada na oficina, parceiro na partilha da fresadora, na rotina diária do ganha-pão. Com o Santos também ia às meninas. Geralmente ao sábado à noite, nem todos os sábados, só quando podiam. Depois, o Santos casou e acabaram-se as noitadas a dois. Ainda tentou aliciar o Almerindo mas em vão porque o Almerindo fizera uma jura de nunca pagar para “amandar uma pinocada”!
Tanto um como o outro já lá estavam, tinham ido à sua frente para a terra da verdade.
- Pois é, pois é… - e o doutor franzia o sobrolho, preocupado.
Mandou-o fazer exames. Análises, TAC, uma prova de esforço, mais uma ressonância magnética. Gastou uma mão cheia de dinheiro e continuou a tomar ampolas de magnésio, embora com resultados muito fracos. A única vantagem é que tinha menos cãibras nas pernas, de noite.
Por fim, estava passado quase um ano desde que começara naquela vida, acabou por lhe ser diagnosticada a doença, sem sombra para dúvidas. O doutor dissera-lhe o nome mas assim que saiu do consultório, a designação esvaiu-se, apagou-se e passou a fazer parte das coisas de que não se lembrava. Só lhe ficou a martelar a ideia de que tinha um nome arrevesado e não tinha cura nem havia volta a dar. Ia continuar a esquecer-se de tudo, até ao dia em que a sua memória fosse apenas uma mancha branca, um vasto lençol estendido sobre a sua vida passada, apagando-lhe o prazer das boas recordações e a mágoa das más.
O médico receitou-lhe mais medicamentos, mandou-o exercitar o cérebro, ler, fazer palavras cruzadas. Encaminhou-o para a Segurança Social, a fim de tratar de um apoio para quando a doença já não lhe permitisse viver sozinho.
A sua primeira reacção foi de medo que foi crescendo até ao nível do pânico. Depois acalmou-se.
Voltou para casa e enquanto grelhava uma tira de entremeada para o almoço, olhou em redor e sentiu-se melhor quando percebeu que reconhecia todos os objectos, sabia como fazer uma refeição, ainda sabia que aquele instrumento era um garfo e aqueles pauzinhos eram fósforos.
Agora bastava-lhe não se esquecer de que era preciso tirar a pele daquelas bolas acastanhadas, antes de as meter dentro de água, ao lume. Elas tinham nome, certamente que tinham. E ele sabia-o. Logo se lembraria.
Nessa tarde, saiu e foi à papelaria do Centro comprar umas quantas folhas de etiquetas autocolantes. Voltou para casa e sentou-se na sala, a escrever o nome de todos os objectos que o rodeavam. Pela noite dentro foi colando etiquetas um pouco por toda a casa, identificando mesas e cadeiras, sofás e armários, pratos e copos, a pasta dos dentes, a caixa de guardar os óculos.
Em algumas coisas foi deixando uma folhinha anexa, explicando a utilização a dar-lhes – o sal é para pôr uma pitada na comida, a substância daquela caixa é para passar nos sapatos e esfregar com aquele objecto que se chama escova; o ferro de engomar queima mas é preciso estar ligado pelo fio aos buraquinhos da tomada, na parede.
Por fim, alinhou as caixas dos diferentes comprimidos e colou em cada uma a respectiva etiqueta com a dose diária a tomar. E no armário por cima do lava-louça, na cozinha, e no espelho da casa de banho, dois avisos iguais: “Vai tomar os comprimidos!”
Sentiu-se contente. Ia bater a doença. Ia vencê-la pelo cansaço.
Já a manhã clareava quando se sentou a escrever a última recomendação que titulou em maiúsculas centradas ao cimo da página - MEMORANDO: “Se te esqueceste de tudo o resto e não sabes o que estás aqui a fazer, chegou a hora de partires. Veste-te, penteia-te, solta o Pepe e vai buscar todos os teus remédios que estão na bancada da cozinha. Mistura-os e engole-os com um copo de água bem cheio. Depois senta-te no sofá, liga a televisão e espera que o tempo passe.”
Pregou esta folhinha ao abajur do candeeiro da mesa-de-cabeceira e foi à sua vida, sem se preocupar mais com a falta de memória.


sábado, 30 de Maio de 2009

A COMEMORAÇÃO

Por Madalena S.

No dia em que Manuel João da Veiga, vulgo Manecas Veiguinha, comunicou à família que ia mudar de sexo, a tragédia abateu-se pesadamente sobre a parentela, da mais chegada à mais remota, com especial incidência no avô Xavier que nunca mais recuperou do AVC diagnosticado sem apelo nem agravo pelo primo Joaquim o qual, ainda que especializado em obstetrícia, tinha conhecimentos suficientes para reconhecer a sintomatologia e prestar socorro em primeira mão.
Até porque o Manecas escolheu mal a ocasião: comemorava-se o aniversário de casamento do tio Francisco com a tia Mimi, cinquenta anos de felicidade ininterrupta, lua-de-mel permanente desde que ele lhe pusera a vista em cima e as mãos em baixo para a amparar e impedir de cair por via do encontrão desastrado mesmo à esquina do Eduardo Martins, descia ele a Rua Garrett e subia ela a Rua Nova do Almada.
Ora cinco décadas e picos depois de tão auspicioso embate – que o namoro fora de curta duração – reuniu-se a família na quinta de Benavente, para almoço de fausto e fartura, com animação variada que incluiu logo pela alvorada missa evocativa com renovação de votos, seguida de garraiada no tentadero, abertura de pipos com prova de vinho novo e preparação do porco que foi posto a assar no espeto, em fogo lento mas determinado, por volta das onze da manhã.
De norte a sul, ninguém faltou à chamada. E até o primo Bernardo voou de Inglaterra trazendo a reboque a mulher, a galesa Bridget, e os sete filhos com que ela o brindara em oito anos de casamento.
Entre primos e primas, em primeiro, segundo ou terceiro graus, tios, tias, mães, pais, avós variados, cunhados e cunhadas, noras e genros, filhos e filhas, sobrinhos, cães, gatos e outros animais de muita ou pouca estimação, estimou-se uma participação na ordem das cento e trinta pessoas. Era obra.
E tudo correu bem até às quatro da tarde, quando começou o baile, abrilhantado pelo grupo do Finezas, barbeiro por obrigação profissional mas músico por gosto e obstinação, exímio tocador de concertina, acompanhado na viola braguesa pelo Afonsino e nos bandolins pelo Zé Maria e pelo Valentim.
Dançava-se o fado.
A tia Mimi, afogueada nos braços do esposo adorado, demonstrava à horda de primos jovens como eram as danças antigas e como, há cinquenta anos, os rapazes se sujeitavam a regras de convívio altamente respeitadoras das donzelas solteiras.
O Manecas estava para lá de bem bebido. Levantou-se do lugar onde aterrara há algum tempo, debaixo da sombra fresca do toldo gigantesco que cobria a mesa principal, e procurando manter um percurso certo e equilibrado rumou na direcção do Carlinhos – o namorado novo da prima Eduarda – dobrou-se sobre o rapaz e, ignorando completamente a presença dos demais convivas, declarou-lhe o seu amor eterno e incondicional e os inflamados desejos carnais que lhe maceravam o peito desde que lhe pusera a vista em cima, três meses antes, numa festa de arromba, no Lux.
Uma bomba, fosse ela de que calibre fosse, não teria feito tanto estrago.
O visado não achou graça, a prima Eduarda ainda menos, alguns dos mais chegados à cena riram-se e levaram a coisa para o lado do excesso alcoólico, mas o Manecas insistiu. Começou a falar alto, a repetir o que tinha dito, vieram mais tios ver o que se passava, chegou o avô Xavier e teve de se sentar à pressa numa cadeira, começou a sentir-se mal, o primo Joaquim mandou chamar o 112, a mãe do Manecas só dizia “ ai, ai”, o pai do Manecas afirmava que não podia ser, o tio Francisco segredava à tia Mimi “ Eu cá me parecia!...”, a tia Mimi revirava os olhos divertida, a prima Eduarda queria bater no Manecas em defesa da honra do Carlinhos e a festa acabou ali mesmo, com cento e trinta participantes em luta acesa, uns a favor, outros contra, outros nem sim nem não, os restantes a tentar perceber o que raio se estava a passar e o Manecas, afogado em lágrimas e em vomitado de bêbado, a garantir para quem o queria ouvir que tinha uma operação marcada para dali a duas semanas, nos Estados Unidos, para mudar de sexo – libertar-se dos acessórios masculinos e assumir livre e gloriosamente os seios que lhe estavam a crescer desde que iniciara um tratamento hormonal adequado, acompanhado de terapia de apoio e de mais uma parafernália de procedimentos preparatórios. Num gesto teatral, abriu a camisa num arranque que lhe fez saltar os botões e mostrou os seios novos, firmes e levantados, num tamanho já razoável tendo em conta a formação recente. A prima Eduarda emudeceu e amareleceu de inveja. Outras primas e tias a acompanharam e pensaram que Deus não era justo, nem bom, nem coisa nenhuma.
O Carlinhos levantou-se, em silêncio ofendido, deu meia volta e dirigiu-se à saída com a prima Eduarda no seu encalço. Mesmo ao portão, gerou-se discussão acesa entre ambos. A família, preocupada, tentava perceber o alcance da refrega mas em vão.
O dia acabou triste, os restos da festa abandonados sobre as mesas, a carcaça do porco a consumir as últimas brasas, metade da família na sala de espera do hospital por causa do avô Xavier, o primo Bernardo a tentar trocar nove bilhetes de avião marcados para dali a dois dias de forma a regressar o mais rapidamente possível ao remanso conservador e bucólico do campo inglês.
No ano seguinte, o tio Francisco e a tia Mimi decidiram comemorar o aniversário de casamento apenas a dois, não fosse o diabo tecê-las. Durante um mês inteiro pensaram no que fazer e, finalmente, decidiram-se por algo verdadeiramente radical porque, afinal, só se vive uma vez.
De modo que o avô Xavier ia tendo uma reincidência do seu AVC quando chegou uma carta do tio Francisco e da tia Mimi, directamente de Venice Beach, Califórnia, USA, com uma colecção de fotos da festa de união do Carlinhos com o Manecas, quase irreconhecível no seu vestido de lamê dourado, justo e de generoso decote de onde pareciam querer saltar as “meninas” que tinham amarelecido de inveja a prima Eduarda, um ano antes.
O tio Francisco e a tia Mimi tinham apadrinhado a união e iam ficar por lá mais uns tempos a ajudar o movimento que lutava pela legalização do casamento gay na Califórnia. Continuavam felizes e esperavam que a prima Alice se assumisse definitivamente, de preferência antes da comemoração das bodas de diamante.

terça-feira, 24 de Março de 2009

A VIÚVA

Por Madalena S.

Dona Cândida era ainda uma mulher interessante quando enviuvou. Os belos olhos verdes amendoados sempre haviam sido o seu melhor atributo e nem os rios de lágrimas amargas que a partida do falecido desencadeara tinham conseguido manchar a limpidez do verde e o amendoado das formas.
Quanto ao resto, não havia sinal digno de nota. Algumas rugas, não muitas, um peso claramente superior ao desejável, o cabelo curto e espesso pintado num tom a oscilar entre o caju e o ameixa escuro e os dedos pequenos e sapudos cobertos de anéis de imitação com grandes pedras de vidro colorido.
Ao ver-se sozinha nas suas cinco assoalhadas antigas em Campo de Ourique, obrigada ao uso do preto por força das conveniências sociais – pelo menos durante um ano como mandavam as regras do luto de viuvez – Dona Cândida passou por várias fases: primeiro revoltou-se com a situação, acusando Deus de lhe pregar tamanha partida; depois voltou as suas recriminações para o defunto que não soubera resguardar a saúde e levara uma vida de libertinagem e excessos, de álcoois e tabacos, de gorduras variadas e toda a qualidade de desmandos alimentares, até entupir definitivamente as artérias e cair redondo e desamparado à porta de casa após esforçar o coração na íngreme jornada até ao 4º andar, sem elevador.
Também conheceu a etapa em que se autoflagelou por não ter sabido impor-se, obrigá-lo a dietas, a caminhadas saudáveis, a vigilâncias regulares pelo médico de família.
Por fim, quando já era passado meio ano, a dor foi amainando e Dona Cândida aprendeu a conviver com o seu novo estado civil. Começou por comprar uma blusa preta com pintinhas brancas e uma saia cinzenta. Depois, como precisava de mudar de roupa, a compra seguinte já foi um vestido com uns laivos de amarelo. Estava claramente a “aliviar o luto”, mesmo sem perfazer o protocolar prazo de um ano. De manhã, antes de sair de casa para comprar o pão, uns legumes ou uma fruta, olhava-se ao espelho e pincelava as maçãs do rosto e o nariz com um cheirinho de pó-de-arroz numa tonalidade de pêssego maduro que lhe dava um ar corado e saudável e ligava muito bem com os olhos verdes amendoados.
A primeira vez que foi sozinha à matiné nas Amoreiras, custou-lhe horrores e sentiu-se uma pecadora sem nome. Na segunda vez já respirou melhor e a partir da terceira insistência decidiu prazenteiramente instituir aquele hábito assentando numa ida semanal ao cinema.
Foi num domingo à tarde – tinha ela ido passear até à beira rio, apanhar sol frente aos Jerónimos e comer dois pastéis de Belém com um chá de camomila – que conheceu Abel, antigo sargento da marinha, aposentado com uma pensão muito jeitosa, divorciado, sem filhos, com residência nos Olivais, proprietário de um Renault 21 Nevada cinzento-escuro que, não fora o design algo antiquado, ninguém diria estar na sua posse há mais de vinte anos de tão estimado que era.
Foi ele que meteu conversa e se apresentou. Ela achou-o simpático e deu-lhe corda. Conversa puxa conversa, combinaram no mesmo sítio e à mesma hora para o domingo seguinte. E atrás desse domingo veio um outro e ainda um outro antes de ser marcado um primeiro encontro mais formal, com direito a jantar e fados e guitarradas, numa casa muito conhecida, em Alfama.
Embora não se podendo considerar que tivesse sido um espinhoso calvário, também não foi a coisa mais fácil do mundo para Abel conseguir que Dona Cândida o convidasse a jantar em sua casa. Por essa altura, ela esperava ansiosamente por um pedido para avançarem para uma etapa mais formal da relação.
Recebeu-o com sorrisos, amabilidade e um assado no forno a libertar um tal aroma pela escada abaixo que ainda ele não tinha chegado ao patamar do 2º andar e já os seus sentidos estavam em alerta total. No final do jantar, Abel estava rendido e absolutamente convencido que encontrara a mulher da sua vida, com quem tinha de casar rapidamente, antes que alguém aparecesse e se antecipasse.
Estavam sentados na sala em frente da televisão, em silêncio satisfeito, a ver um documentário sobre os rituais de acasalamento dos elefantes no National Geographic e a bebericar golinhos de licor de figo, quando Dona Cândida começou a sentir algum incómodo. Queria descalçar os sapatos, desapertar o soutien, tirar a cinta, “pôr-se à vontade”, mas a presença do convidado inibia-a.
Franziu o sobrolho, olhando para ele de esguelha. Era um belo homem, não havia dúvida. Alto, seco de carnes, o cabelo a grisalhar sobre as fontes. Mas não passava disso.
Mentalmente reviu os últimos dois meses, depois de se terem conhecido. Os encontros, as saídas, os jantares. Feitas as contas e os somatórios, não tinham ido ver um único filme escolhido por si, não gostara de nenhum dos restaurantes onde a levara, não apreciara especialmente a noite de fados. Ele quisera falar de livros mas ela nunca lera Lobo Antunes nem Jorge Amado que ele idolatrava e ele não suportava Paulo Coelho que ainda era o único autor que, lá de vez em quando, Dona Cândida conseguia ler.
A estas desarmonias foi juntando outras que buscou no fundo da memória recente: o anel que ele usava no dedo mindinho, os sapatos demasiado bicudos para o seu gosto, o aftershave de perfume adocicado.
O perfil sombrio do companheiro sentado a seu lado foi-se avolumando na sua imaginação de uma tal maneira que Dona Cândida deu consigo a pensar que metera um estranho em casa, que estava a correr um risco terrível, que podia ser assassinada, quem diabo seria o homem, Meu Deus, o que é que eu fiz? e Meu Deus, o que é que eu faço agora? será que ele já percebeu, será que ele me vai propor alguma indecência, se o apanho a olhar-me com segundas intenções dou-lhe com o candeeiro em cheio nas ventas, e por aí fora. Deixou de prestar atenção ao documentário e ficou sem saber o que fazia a elefante fêmea depois da cópula. Mas também, em boa verdade, não era coisa que lhe interessasse.
De modo que – seria perto da meia-noite – quando Abel, talvez embalado pelos rituais de acasalamento dos elefantes, lhe perguntou se ela não estava a pensar em refazer a sua vida, Dona Cândida respondeu-lhe peremptoriamente que a sua vida estava refeita. O que ela não tinha era intenção de voltar a desfazê-la. Como ele parecesse não ter percebido, ela acrescentou mais dois ou três esclarecimentos, foi dizendo que sim senhora, que ele até era simpático, mas nunca na vida, e estava bem assim e já era tarde, e os vizinhos iam falar, e mais isto e mais aquilo e foi-se levantando e andando para a porta.
Cinco minutos depois, Abel, ao volante do seu Renault 21 Nevada cinzento-escuro, fazia um esforço para perceber o que lhe tinha acontecido mas sem obter grandes resultados.
No 4º andar em Campo de Ourique, Dona Cândida finalmente descalçou-se, tirou a lingerie que a atabafava, vestiu um robe e deitou-se no sofá pondo os pezinhos gordos sobre uma almofada para melhorar a circulação. Sintonizou um canal de filmes e recostou-se, a preguiçar e a bebericar golinhos de licor de figo.
À cautela, deixou de ir apanhar sol para os Jerónimos e passou a frequentar o Parque das Nações.

sexta-feira, 6 de Março de 2009

O ANIVERSÁRIO

Por Madalena S.

No dia em que fez cinquenta anos, Sebastião Salsinha pensou que estava acabado. Sentiu-se asfixiar, afogado numa mágoa inexplicável que lhe consumiu o espírito e o extenuou fisicamente.
Às duas da tarde, após ter almoçado na companhia de alguns colegas de trabalho, voltou ao escritório e sentou-se à secretária olhando para a papelada espalhada na sua frente sem vontade de lhe tocar.
A pressão no peito aumentou. Tossiu para espantar o mau estar e foi buscar uma garrafa de água com gás ao mini bar, encostado no canto entre o sofá e a janela.
Ficou ali parado, a bebericar pequenos golos de água e a mirar o que se passava na rua, dez andares abaixo dos seus pés.
Como se estivesse a assistir a um filme, imaginou-se a abrir a janela e a saltar esparramando-se no solo, numa amálgama de ossos quebrados e massa encefálica, com fios de sangue a escorrerem pela calçada portuguesa, criando novos desenhos, muito mais modernos e inovadores do que os existentes.
Anteviu igualmente o seu velório. Centenas de pessoas. Milhares, mesmo.
Afinal, tratava-se do homem que reinventara a calçada portuguesa, introduzindo notas de modernidade quer no tipo de desenho, quer na cor que passara do branco e negro basalto para o branco, negro basalto e vermelho sangue.
Vermelho sangue… mas o sangue também pode ser azul. Sangue azul. Se ele tivesse sangue azul, seria barão. Ou marquês. Ou duque. O que é que valia mais? Marquês ou duque? Duque… de Loulé, avenida, contra marquês, de Pombal, praça e rotunda. Entre avenida e praça e rotunda, era difícil a escolha.
Voltou ao velório. Uma imensa massa humana a chorar por ele na Basílica da Estrela. Ou nos Jerónimos? Ou no Panteão? Não, no Panteão é para onde se vai depois de morto e enterrado, mas não se fazem velórios. Gostava da ideia de ir parar ao Panteão. Ao lado do Almeida Garrett e da Amália Rodrigues. Isso é que era. E um dia o Eusébio juntar-se-ia a eles.
Na secretária, o telefone deu sinal de vida. Olhou para lá de esguelha e deixou-o tocar. Não se moveu um milímetro do seu poiso seguro, junto à janela. Ao fim de meia dúzia de toques, o aparelho calou-se.
Voltou a olhar para a rua. Agora era a cabeça que parecia querer estalar. Que gaita! Seria que estava a ter um enfarte? Ou um AVC? Apalpou os braços, estendeu as mãos para a frente. Estava um pouco trémulo mas colocou esse tremor na categoria do nervoso miudinho. Estava nervoso. Porém, sem motivo. Só porque fazia cinquenta anos?
Que dor de cabeça do caraças! E que má disposição. Aquilo só podia querer dizer ataque de qualquer coisa suficientemente ruim para o deixar entrevado, sem préstimo, preso a uma cadeira de rodas ou, pior ainda, a uma cama. Mais valia acabar já com tudo.
E se ele se limitasse a abrir a janela, saísse para o parapeito mas não saltasse? Uma cena mais leve, só para dar nas vistas, para assustar a turba lá em baixo e espalhar o terror na turba cá de cima. Humm… Era algo a considerar. Considerar, consideração. Ora aí estava uma coisa que ninguém tinha por ele. Há mais de trinta anos que ali trabalhava e nunca lhe tinham dado ao menos uma palmadinha nas costas. Costas, costas largas. Ou costas quentes? O que é que se aplicava melhor a si próprio? Costas quentes, quentes, mornas, águas mornas, trópicos, Caraíbas, Cuba… Cuba, férias. Férias! Era disso que ele precisava urgentemente.
Sentiu um ligeiro alívio sobre a pressão no peito. Respirou fundo, emborcou o resto da água e dirigiu-se novamente para a secretária. Sentou-se de forma displicente e colocou os pés cruzados sobre o tampo da mesa. Fechou os olhos. Ao fundo do seu cérebro cansado começaram a chegar imagens suas, em calções, de chinelas havaianas, camisa às flores, desabotoada, panamá colorido a tapar-lhe a careca. Estava sentado à beira mar, debaixo de um chapéu-de-sol imenso, com os pés dentro de água, a bebericar por uma palhinha de meio metro um cocktail cor-de-rosa servido num copo extra largo.
Por todo o lado havia música, rumbas e mambos, e mulatas belíssimas que agitavam provocantemente as ancas fartas mesmo na frente dos seus olhos.
Sentia o coração a bater na mesma onda da música e à medida que o ritmo desta abrandava também a sua pulsação diminuía. A pouco e pouco perdeu a noção do que o rodeava e percebeu que estava a cair num torpor apenas explicável pela iminência da morte. Sobre si foi descendo um véu carregado de escuridão, que o envolveu por completo e o apagou suavemente.
Passava das quatro da tarde quando Dona Mariquinha, estranhando tamanha quietude, abriu a porta e se dirigiu à secretária para confirmar que o ruído que dali provinha era mesmo o ressonar regular e plácido da sesta de Sebastião Salsinha que, parecendo senti-la, acordou em sobressalto, deu um pulo na cadeira e rematou atrapalhado:
- … Hum… Dona Mariquinha… hã… tenho estado aqui a pensar… traga-me lá o dossier do projecto de Moçambique, faça favor!
E enquanto a mulher dava meia volta e saía em direcção ao arquivo, exclamou para si mesmo:
- Merda para isto! Agora já só consigo sair daqui depois das oito e vou chegar atrasado ao jantar de aniversário!

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

O LIVRO

Por Madalena S.

Há dois anos que jurava a pés juntos ao seu editor que o livro estava quase pronto. Faltava acabar a revisão, aprimorar dois ou três parágrafos, dar um jeitinho no epílogo, um jeitinho apenas, uma questão de verosimilhança.
A verdade é que depois do seu último sucesso editorial – dez semanas no top de vendas – apoderara-se dele uma “branca” de tal ordem que não conseguia alinhavar duas frases com sentido.
Começara vários projectos, com efeito, mas deixara-os com uma página, alguns com duas, apenas um ou dois haviam passado das três páginas. Na sua cabeça, criara um sem número de personagens mas depois não tivera como lhes dar vida, não soubera o que lhes fazer, andavam por ali a mastigar-se em rolos de palavras desconexas.
Tinha sobressaltos de cada vez que o telefone tocava, sempre a pensar que era da editora, reclamando o livro ou a devolução do adiantamento que entretanto já esbanjara desafogadamente. Um dia recebeu a intimação judicial: ou livro ou processo por quebra de compromisso.
Na manhã seguinte comprou uma arma. Coisa simples, sem grandes exigências de treino, algo que ele próprio pudesse manusear facilmente. Dirigiu-se à editora. Entrou calmamente no edifício, passou pela recepcionista com um bom dia seco e desembocou no gabinete do editor que estava sentado à secretária a mexer em papéis.
Nem sequer abriu a boca para se justificar. Perdido por cem, perdido por mil. Empunhou a arma e disparou três vezes. Logo à primeira, o editor escancarou os olhos sem perceber o que era aquela coisinha que lhe batera no centro da testa, queimando como ponta de cigarro, e caiu para trás desamparado, os braços abertos numa ridícula tentativa para encontrar um ponto de equilíbrio.
Finalmente, tinha matéria para o seu novo romance policial: arma, criminoso, vítima, motivo, oportunidade e todos os demais ingredientes do género.
Seis meses depois, a história do autor que matou o seu próprio editor era um best-seller e ia ser adaptada ao cinema. Da prisão, enviava por e-mail aos seus leitores, autógrafos digitalizados.

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

TRÂNSITO

Por Madalena S.

Parado na fila, sem andar um metro há mais de quinze minutos, fixava, com o olhar estático de quem não está a ver nada, o movimento regular dos limpa pára-brisas na sua dança simétrica sacudindo as gotas grossas da chuva que caía, ininterrupta, desde a noite anterior.
O caos instalara-se na cidade. O temporal nocturno provocara inundações e quedas de árvores, entupira sumidouros, deixara as ruas num lamentável estado de desordem.
Já pela manhã, o martírio do trânsito agravara-se com vários acidentes que tinham vindo completar a situação apocalíptica.
E nada fazia prever que o tempo estivesse para mudar. O céu mantinha-se cinzento, escuro e carregado de água que despejava impiedosamente sobre a cidade impermeável.
No rádio ligado mais por hábito que por gosto, a voz grave do jornalista debitava o estado dos vários acessos, dos acidentes que cortavam vias, dos cruzamentos por onde nada circulava.
Procurou outro posto. Passou pelos Rolling Stones, pelo Abrunhosa, por mais notícias, publicidade, pela nostalgia do José Cid, mais publicidade e acabou por sintonizar a Ella Fitzgerald dando corpo à música de Gershwin.
Anteviu a sua chegada ao trabalho, o olhar enviesado do coordenador rodando dele para o relógio, sem dar nas vistas para não armar em patrão à antiga mas de forma suficientemente explicita para lhe passar a mensagem de que o estava a controlar.
Depois pensou na Cristina. Na véspera, voltara a discutir com ela até à exaustão, por causa da Vera e dos ciúmes. De nada lhe valia garantir-lhe que há muito tudo estava acabado, de nada valia pedir desculpas, suplicar perdões. De seguida, pensou na Vera. Ainda estava para perceber o que lhe passara pela cabeça para andar enrolado com ela.
Acendeu o quinto cigarro do dia e aspirou com força inundando os pulmões de nicotina e alcatrão. Que estúpido se sentia por ter voltado a fumar. Três anos sem dar uma passa e numa noite apenas, para aconchegar uns whiskies a mais em farra de amigalhaços, deitara por terra todo o sacrifício passado e confirmado pelos doze quilos que ganhara com a abstinência.
Começou a sentir um formigueiro nos pés. Estava incomodado. A cabeça fervia-lhe num exagero de imagens que vinham em catadupa, sem plano prévio, sem razão aparente. A Cristina não podia ter filhos, logo ele não iria ter filhos. Mas a Vera fizera um aborto. Duas prestações da casa em atraso. A máquina de lavar avariada. O merdas do Mendonça recebera o prémio de mérito e passara-lhe à frente na empresa. Que raio de mérito havia em beijar o cu aos chefes? Tinha de responder aos telefonemas da mãe. Já ia em três, com mensagem deixada no telemóvel. Ia ter de a ouvir. À tarde não podia esquecer-se de passar no sapateiro para ir buscar as botas da Cristina. As botas da Cristina tinham um salto tão alto e tão fino… Se ela lhe desse com a bota na cabeça, conseguia furar-lhe o crânio com aquele salto!... Sentiu a dor aguda do salto a enterrar-se-lhe nos miolos.
Abriu uma nesga da janela para deixar sair o fumo e entrar o fresco. A chuva, porém, batida exactamente daquele lado, começou a molhar o interior. Voltou a fechar a janela. Faltava-lhe o ar. Porra! Há vinte minutos que aquilo não andava, nem para a frente nem para trás! Começou a doer-lhe a cabeça. Era a falta da primeira bica do dia. Já a devia ter bebido há coisa de uma hora.
E então, repentinamente, fez-se um grande silêncio à sua volta. O rádio, que passara da Ella Fitzgerald para o Elvis Presley, calou-se. Os ruídos do trânsito e da chuva desapareceram. Dentro da sua cabeça, as imagens pararam. Sentiu uma pressão tão grande como se estivesse a ser esmagado numa prensa gigante. Quis respirar e não conseguiu. Libertou-se do cinto de segurança e esticou o peito para a frente em direcção ao volante, procurando endireitar o corpo. Ia morrer?!?
O universo inteiro pareceu ficar suspenso, como se estivesse dentro de um filme e alguém tivesse carregado no botão da pausa.
Mas tão inexplicavelmente como surgira, o silêncio morreu num enorme urro urbano, o som infernal das buzinas a massacrá-lo sem piedade.
Nesse instante, tudo lhe pareceu tão claro e tão simples que até lhe custava a entender como não vira mais cedo a solução.
Desligou o motor, abriu a porta e saiu ao encontro da chuva purificadora.
Começou a caminhar por entre os carros até chegar ao passeio, andou mais dois quarteirões e continuou, calmamente, debaixo de água, como se soubesse exactamente para onde ia.
Desapareceu na esquina seguinte.
Foram precisas duas horas para desfazer o imbróglio criado por um carro cujo condutor se evaporara misteriosamente deixando o rádio ligado, a chave na ignição e as luzes acesas.
Durante muito tempo, a Judiciária investigou a possibilidade de rapto. Sem resultados.

domingo, 1 de Fevereiro de 2009

O ESPELHO

Por Madalena S.

Três meses antes, ao tentar fugir para a casa de banho para evitar os murros do marido, sentira-o a agarrá-la pelos cabelos no último minuto e só se lembrava de olhar para o espelho e, um instante antes de a cara se esborrachar em cheio contra o vidro empurrada pela manápula grosseira do homem, pensar que partir um espelho dava sete anos de azar.
Agora, olhava a sua imagem distorcida pelo vidro rachado e pensava que de azar tinham sido os catorze anos anteriores, duas vezes sete anos, tempo de martírio que só terminara no dia em que partira um espelho à cabeçada, atirada contra ele como se fosse uma pedra, um tijolo sem valor.
Tirou o espelho da parede com cuidado para não se cortar nos cacos mal unidos entre si, atirou-os para dentro de um saco de plástico e, desembrulhando com cuidado o novo espelho que encostara à banheira, pegou-lhe pela argola da corrente e pendurou-o no lugar do anterior.
Olhou em frente, séria e sem pestanejar, e mirou-se pela primeira vez em três meses numa superfície lisa e intacta que lhe devolveu uma imagem de marcas e cicatrizes, umas na alma, fundas e sem remédio, outras no rosto, dois golpes sobre o sobrolho direito, um outro mais profundo cortando-lhe a face esquerda em dois em direcção à orelha, e um outro arrepanhando-lhe o lábio superior, num trejeito que, ironia das ironias, lembrava um sorriso permanente.
No hospital disseram-lhe que podia fazer uma operação plástica. Ou mais do que uma. Para recuperar as feições. Estava em lista de espera mas a sua médica já lhe tinha dito que ia tentar tudo para a operar rapidamente, para não lhe prolongar demais o sofrimento. Ela acreditava. Os médicos tinham sido todos muito bons para ela. O ortopedista que lhe tratara da fractura no braço direito fizera um trabalho perfeito, felizmente. E hoje, já conseguia ir trabalhando ainda que continuasse na fisioterapia “pelo menos mais dois meses”, já lhe anunciara o Dr. João.
As patroas também tinham sido muito compreensivas e tinham aguardado pela sua recuperação. Todas menos a lambisgóia do engenheiro. A estúpida nem esperara que ela saísse do hospital, mandara recado a dizer que não podia estar sem ninguém, ia arranjar outra pessoa. A culpa era dela que acedia a trabalhar sem contrato, sem descontar para a segurança social, sem seguro. Não fosse isso e a finória tinha de ter baixado a bolinha, que ela tinha direito a estar de baixa médica, a recuperar.
Vá lá que a D. Irene e a D. Filomena tinham sido impecáveis. E ela até calculava o transtorno que devia ter sido para a D. Filomena, com cinco homens em casa, todas as semanas um rol de camisas para passar a ferro, sem falar nas fardas do marido, oficial da marinha, sempre exigente com os vincos das calças.
Agarrou no saco com os cacos do espelho partido e foi deitá-lo no lixo, serena, tão serena como no dia da última tareia quando se arrastara a pingar sangue até ao patamar da escada e pedira à vizinha que chamasse a polícia, pondo um ponto final no horror de uma vida em sobressalto constante.
Do tacho pequeno sobre um fogo brando, saía o aroma dos coentros e do alho para uma minúscula açorda para o almoço, com a qual ia aproveitar os restos do pão da véspera, já duro e sem préstimo para ser comido ao natural.
Escalfou um ovo na açorda e tirou-a do lume com cuidado despejando-a para o prato fundo. Sentou-se à mesa e comeu com vagar, saboreando a comida e o silêncio à sua volta.

quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

O DOM

Por Madalena S.

Maria Celestina tinha um dom. Não sabia com exactidão quando é que a coisa começara mas costumava recordar aquela longínqua noite da sua adolescência em que tivera a premonição sobre a morte da Salomé, a gata siamesa da Tia Veva, como a primeira manifestação séria do seu dom.
Antes disso, lembrava-se de pequenos episódios adivinhatórios, como saber quanto eram oito vezes nove antes mesmo de a professora a fazer declinar em conjunto com os colegas a simples tabuada do dois, ou ter a certeza de que o Celso se ia espalhar ao comprido nos degraus da igreja, ainda o dito não tinha virado a esquina em correria desenfreada para fugir da fisga do Zeca Finuras.
Depois do trágico desaparecimento da Salomé, que viera confirmar as suas capacidades de prever o futuro, Maria Celestina começou a ser solicitada para pequenos favores à vizinhança.
A Laurinda pedira-lhe o sexo do bebé que esperava, o Sr. Manuel da mercearia queria saber se o Felismino lhe ia pagar a dívida que lá tinha há mais de um ano e quando é que isso aconteceria, a prima Gracinda precisava insistentemente de conhecer o nome da lambisgóia que lhe andava a desnortear o marido.
O tempo foi passando e Maria Celestina foi crescendo, de corpo e de espírito, transformando o que era uma corrente de pequenos obséquios à família e conhecidos numa verdadeira prestação de serviços à comunidade.
Começou a dar consultas em casa, no quartinho dos fundos onde colocou uma mesa redonda e um par de cadeiras e pendurou nas paredes uns quadros e uns cartazes mais ou menos esotéricos, com claras alusões aos astros, ao oculto e a conceitos similares. Por via das dúvidas, acrescentou à decoração uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, com uma lamparina acesa em chama mortiça a aquecer os pés de gesso da santinha, e mandou fazer uns cartões com a figura de Santo António e uma oração no verso que oferecia às clientes com problemas sentimentais.
Como o seu dom parecia crescer em eficácia, a palavra começou a espalhar-se e Maria Celestina ganhou notoriedade alargando a sua área de influência para além das fronteiras do bairro. Quando tomou consciência de que era conhecida pela Vidente Celestina, mandou fazer uma tabuleta discreta e colou-a ao lado da campainha. A clientela cresceu.
Um dia bateram-lhe à porta, de manhã cedo, estava ela a preparar-se para sair, ir beber a sua bica matinal, comprar o pão, um peixito para o almoço e voltar para casa por volta das onze para começar as consultas.
Maria Celestina abriu a porta e olhou para o homem engravatado que tinha na sua frente, segurando uma pasta castanha e um chapéu-de-chuva com uma vareta partida.
O homem identificou-se. Era das finanças. Tinham recebido uma queixa. Havia ali actividade comercial, negócio, sem recibos, sem facturas, sem contabilidade organizada.
Maria Celestina rapou do caderno onde assentava o seu deve e haver, de um lado o nome dos clientes e a data das consultas, do outro as quantias que recebia de cada um. Mais organizada que ela não havia, podia haver igual mas mais não!
O homem não aceitou a explicação. Onde estavam as declarações do IRS, do IVA? Onde estavam as contribuições para a segurança social? Se era uma actividade económica, onde estava a declaração de IRC? Fuga ao fisco, declaradamente.
Preencheu um impresso, depois um outro, mais duas folhas cheias de perguntas e de quadrados onde foi inserindo cruzes. No final, entregou-lhe um duplicado amarelo e informou-a de que tinha oito dias para apresentar recurso. E teria de encerrar imediatamente a actividade.
Saiu no preciso instante em que chegou a Micaela, que vinha tirar a limpo se a cunhada andava metida com o tipo da imobiliária ou não.
Maria Celestina estava perturbada. Ainda tentou satisfazer a curiosidade da Micaela mas em vão. Não via mais nada para além dos oito dias que tinha pela frente para resolver a vida e nem conseguia perceber como é que não tinha adivinhado o que lhe ia cair em cima. Que diabo! Seria que o dom começava a falhar-lhe?
Nessa noite não dormiu nada de jeito mas, pela madrugada, tinha resolvido que estava na hora de usar o seu dom em proveito próprio.
Oito dias depois, a vizinhança acordou num alvoroço e a notícia correu como rastilho – a Vidente Celestina fora-se embora. A casa estava vazia, vendera os móveis ao Inácio da barbearia, deixara a Nossa Senhora de Fátima à Micaela – para compensar a sua incapacidade de lhe dar a informação pretendida – e distribuíra o resto das orações de Santo António pelas empregadas do minimercado.
A maioria ficou com pena, muitos não percebiam o porquê da partida mas, entre uns quantos, houve logo quem duvidasse das suas intenções e denegrisse as suas capacidades premonitórias.
Só quando o Horácio do Snack-bar Avenida anunciou aos quatro ventos que ela tinha acertado no Totoloto, Joker incluído, é que a populaça percebeu a real dimensão do dom de Maria Celestina.



quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

O JANTAR

Por Madalena S.

Enfiou o vestido preto sem costas pelo pescoço e ajeitou-o na cintura. Calçou os sapatos de salto agulha e mirou-se ao espelho de um lado e do outro, tentando ver como ficava por trás, voltando o pescoço até onde a flexibilidade da sua coluna permitia.
Estava gira.
Conferiu o conteúdo da pochette de lantejoulas – BI, carta, cartão multibanco, batom, telemóvel. Tirou a carta e colocou-a sobre a mesa-de-cabeceira. Não ia conduzir, para quê a carta?
Aspergiu uma quantidade generosa de perfume sobre o pescoço e para dentro do decote e, vestindo o casaquinho de veludo que comprara para o casamento da prima, sorriu e dirigiu-se para a saída batendo com a porta da rua com força atrás de si.
Andou até à entrada do Metro, equilibrando-se o melhor possível sobre as agulhas dos saltos, enquanto amaldiçoava os inventores da calçada à portuguesa que não tinham tido nenhuma consideração pela elegância das senhoras.
Saiu no Cais do Sodré. Apanhou um táxi e, depois de dar ao taxista as indicações necessárias, recostou-se no assento confortável e deixou a imaginação antever a noite fabulosa que a esperava, no barco do Carlos, que conhecera há três dias e que lhe garantira já estar de cabeça perdida por ela. O homem tinha charme e tinha um barco. O homem estava, aliás, carregado de charme. Convidara-a para jantar no Tejo. Que romântico.
Tinha jurado a si mesma que não ia exagerar no champanhe. Fazia sempre tolices quando bebia uma flute a mais e ela não queria estragar a noite com tolices. Definitivamente.
Quando o táxi parou e olhou para o homem lá fora à sua espera, ficou um bocadinho desconcertada ao ver a sua indumentária mas não teve tempo de reagir porque ele a agarrou com força e a levantou como se fosse uma pena. Sentiu-se arrebatada. Teve a certeza que ia fazer tolices mesmo sem champanhe.
Já a manhã do dia seguinte ia a meio quando a Mizé teve uma aberta no cabeleireiro e lhe entrou na loja para saber novidades, percebendo logo, pela sua cara, que a noite não tinha corrido exactamente como se esperava.
- E então? – Perguntou numa ansiedade – Como foi?
- Tu nem me digas nada! Estou que nem posso. Eu nem acredito.
- Credo, mulher! Desembucha.
- Eu devia ter adivinhado quando o vi à minha espera em fato de treino!
- Hem??
- Isso que estás a ouvir. Fato de treino vermelho e ténis brancos. Agarrou em mim e levou-me para a beira do rio. Calcula o meu espanto quando vi o barco: era uma lancha, daquelas de andar à pesca, tipo traineira. Para entrar tive de me equilibrar em cima duma prancha que abanava por todo o lado. Estás-me a ver com os meus saltos de dez centímetros em cima daquilo? Jantar romântico? Claro. Eu, ele e mais quatro mânfios amigos dele. Parece que são amigos de infância e ele fez questão de me apresentar oficialmente. O jantar foi feito por um deles, o Ferrobico ou Ferrodente ou lá como se chama. Caldeirada. Em pratos de plástico. Para beber, minis. Também tinham gasosa. A pensar em mim. Fizeram-me panachés. Os amigos saíram de lá às três da manhã. Eu saí às oito.
- E agora?
- Agora? Para a semana preciso que me emprestes o teu saco cama. Vamos de lancha até ao Cabo Espichel, acampamos na Lagoa de Albufeira e vou provar feijoada de búzios.

sábado, 6 de Dezembro de 2008

A DETENÇÃO

Por Madalena S.

O agente Lopes acabou de preencher o formulário inscrevendo a sua assinatura no final da descrição da ocorrência e confirmou com o sujeito sentado na sua frente, enfiado num fato vermelho, um barrete da mesma cor a tapar-lhe a cabeleira farta e branca e as mãos de dedos cruzados pousadas sobre a rotundidade de um ventre enorme:
- Mais alguma coisa a declarar?
O sujeito arrancou um suspiro do fundo da alma e abanou negativamente a cabeça.
- Não, que eu me lembre. – Reforçou.
- Muito bem. Nesse caso, vou ler a participação para ver se está tudo correcto e depois o meu amigo assina-a. Certo?
- Certo. – Resmungou o outro, entre dentes.
- Ora vamos lá a ver. – E começou a ler em voz alta: pelas 23 e 45h foi recebida na central uma chamada dando conta de desacatos no nº 14 da Rua Nova. Dirigiu-se a brigada de piquete ao local onde testemunhas ali presentes testemunharam que os desacatos tinham lugar no último andar, onde os agentes Lopes, nº 356, e Barroso, nº 423, subiram para tomarem conta da ocorrência que estava a ocorrer. Chegados ao último andar, verificaram a presença de um indivíduo vestido de fato vermelho, em acesa disputa com o proprietário da fracção esquerda que o acusava de destruição da propriedade e comportamento desordeiro. Detido o indivíduo, foi o mesmo transportado para a esquadra e feita a verificação de identidade e de seguida ouvido sobre o que se lhe oferecia dizer, e disse que conduzia um trenó puxado a renas e que todos os anos fazia a volta para entrega de presentes e que de ano para ano as coisas estavam mais difíceis e já não bastava a crise que o obrigava a matar a cabeça para fazer as compras como cada vez estava mais impossível de andar nos centros comerciais e que ainda no último fim-de-semana quase o tinham comido vivo no Colombo por causa de uma promoção de telemóveis com toques polifónios e que acabara por conseguir encontrar as seiscentas barbis que tinha encomendadas num armazém de revenda chinês à saída de Odivelas mas por causa disso chegara atrasado para levantar os quatrocentos equipamentos do Benfica. E mais confessou que andava farto de aturar as madurezas do pessoal que tinha a trabalhar para ele, e que se queria a árvore enfeitada tivera de ser ele a enfeitá-la e que a mulher lhe moía o juízo e reclamava por ele nunca passar o Natal em casa e que o ameaçara com o divórcio que agora até nem precisava de consentimento. E disse que esta noite saiu como é habitual para fazer a volta mas o GPS não funcionou o que fez com que se perdesse a meio do caminho e tivesse ido parar com o carregamento de truces e peúgos de desporto em turco à Quinta da Marinha e deixado ficar as garrafas de malte escocês na Bobadela. E depois de ter recarregado o transporte, se dirigiu ao nº 14 da Rua Nova para depositar um espremedor de frutas, um DVD do filme Punhos do Inferno do Chuck Norris, o último CD do Justin Timbarleique e um aftershave da Adidas para homem, e não tinha conseguido entrar pela chaminé e quando percebeu que não havia chaminé estava entalado no exaustor e nem para cima nem para baixo e apareceu o proprietário da fracção e começou a questioná-lo e o indivíduo começou a soltar impropérios e outros palavrões e quando finalmente conseguiu desentalar-se do exaustor caiu em cima da fruteira e esborrachou duas bananas, três clementinas e uma pêra rocha e começou a lamentar-se e o proprietário quis expulsá-lo mas quando tentou usar a força o indivíduo deu-lhe um piparote que o virou e disse bardamerda para isto tudo, para mim acabou-se, para o ano quem quiser que faça a volta, estou farto de ingratos, vou apanhar sol para as Maldivas e dirigiu-se para a saída escaqueirando na passagem alguma loiça que estava no escorredouro e o jarrão da entrada, e dando pontapés nas paredes e na porta da rua onde estava quando foi detido, ainda a soltar impropérios e outros palavrões e feito o teste do álcool acusou 1,2 e o indivíduo disse que gostava de nos ver a fazer a volta sem emborcar umas vodkas para aquecer.
O agente Lopes parou a leitura e olhando para o outro por cima dos óculos perguntou:
- É isto?
- É! – Respondeu o detido.
- Muito bem, então assine aqui. – E apontou-lhe uma linha no final do impresso, entregando-lhe uma caneta.
O homem pegou na caneta, chegou-se à secretária, voltou a suspirar e assinou: Nicolau, PN.

quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

O PROJECTO

Por Madalena S.

Rabiscou duas ou três linhas sobre a folha branca, acrescentou-lhe mais uns quantos traços que vincou com a ponta da caneta, dando-lhes maior densidade e espessura, cruzou as várias rectas com algumas curvas e, afastando de si o papel, olhou-o de largo, apreciando o trabalho e abrindo um sorriso aprovador.
Voltou a folha ao contrário e apresentou o projecto com uma frase tão linear como o esquiço:
- Em traços largos é isto.
- O projecto para a nossa casa? - Perguntou ela num fio de voz.
- Sim… Porquê? Não consegues ver? Aqui tens o fundo do terreno, aqui começa o talude, esta é a parede mestra em torno da qual crescem os volumes… Está tudo aqui.
Ela olhou de novo, fazendo um esforço para imaginar, naquele emaranhado de fios a tinta-da-china, a mestria da parede ou o medrar dos volumes.
- Não sei… É difícil.
Ele suspirou e voltou a explicar-lhe, enfadado, uma coisa que para ele era tão simples, estava tudo ali, era só visualizar no espaço, geometria descritiva pura.
- Não sei onde está a dificuldade. Já te disse que os volumes crescem a partir desta parede que divide as áreas e, simultaneamente as une. Partem daqui os eixos sobre os quais vai assentar a estrutura que dará alma à casa!
- Pois… está bem.
Ele irritou-se, apresentou razões, levantou a voz a ponto de os ocupantes das mesas mais próximas olharem para eles, curiosos. Era impensável que a dois meses do casamento ela viesse torcer o nariz ao projecto, agora que tinham finalmente encontrado o terreno ideal. Ele é que tinha dificuldade em perceber como é que ela não via uma coisa tão visível, tão bela. Até lhe parecia impossível e questionava-se acerca das capacidades que ela eventualmente teria, ou não, para o acompanhar na subida meteórica que a sua carreira estava a conhecer, integrado num gabinete de projecto de superior prestígio. Explicou as suas ideias, gesticulou e brandiu a colher sobre o traçado fazendo cair dois pingos de leite-creme exactamente sobre a parede mestra em torno da qual cresciam os volumes.
Calou-se e, com a ponta do guardanapo, tentou limpar o desenho. Erro fatal: o açúcar queimado do leite-creme esborratou a tinta e fez alastrar os pingos.
Quieta, ela observava a cena e o frenesim dele a tentar limpar a mancha que alastrava assustadoramente.
Então começou finalmente a ver crescer os volumes, enegrecidos e gordurosos, sentiu a parede mestra a esboroar-se sob o peso do leite-creme, olhou para os eixos a chocarem de frente e a fazerem desabar toda a estrutura e sentiu que a sua alma, ainda antes da da casa, estava a ser reduzida a escombros.
Levantou-se lentamente, pegou no copo de água em frente do prato e despejou-o sobre o que restava dos rabiscos e do papel empapado em leite-creme.
- Esqueceste-te da piscina! – E saiu, dizendo de si para si que era mesmo uma mulher inteligente.

terça-feira, 7 de Outubro de 2008

HOMEM COM CÃO

Por Madalena S.


Pôs a trela no cão e saiu para a volta higiénica das seis da tarde.
O final do dia, soturno e triste, chegava sob um céu cinza escuro que anunciava uma chuvada das fortes.
A dita começou daí a dez minutos. Estava ele com o cão a subir a Alameda.
Refugiou-se numa paragem de autocarro, o cão a seu lado sentado no quadril traseiro, a língua de fora e a arfar de cansaço.
Olhou para o lado e viu-a. Não era muito alta mas tinha boas proporções. A cabeleira postiça, que era evidente, dava-lhe um certo ar agaiatado e rejuvenescedor e as pernas, longas e esguias, estavam enfiadas numas botas até ao joelho, num vermelho vivo a contrastar gritantemente com o casaco preto e cintado que lhe dava pelo meio das coxas. As meias de rede completavam o conjunto preenchendo o espaço de perna deixado livre pela mini-saia assustadoramente curta.
Ela retribuiu-lhe o olhar e sorriu.
Sentiu-se um bocadinho constrangido. Virou a cabeça, como se procurasse alguém mais a quem o sorriso pudesse ter sido dirigido mas, na verdade, o que lhe interessava era perceber se havia testemunhas daquela súbita cumplicidade em resultado de um dilúvio anunciado. Não havia.
O abrigo aberto à intempérie mal protegia os ocasionais inquilinos da água que vertia do céu em cascata e pela inclinação da rua desciam agora vários hectolitros de líquido barrento que os sumidouros entupidos não conseguiam escoar.
O cão levantou-se do seu canto e ladrou em direcção à rua, enervado com o súbito temporal.
Ela chamou o animal, batendo com a mão ao de leve na coxa e fazendo um ruído seco com a garganta.
O cão baixou o focinho e dirigiu-se-lhe, procurando um mimo que lhe acalmasse a ansiedade.
- Lindo cão, lindo… - tinha uma voz baixa, cheia e de contornos suaves e, enquanto afagava as orelhas do animal, inclinada sobre ele, balbuciava palavras que o barulho da chuva o impedia de perceber mas que o cão parecia beber, encantado, a avaliar pelo modo como a cauda abanava sem parar.
Sentiu-se ludibriado. A ideia de arranjar um cão tinha partido da irmã que lhe afiançara que um canito simpático produzia um fluxo de atracção insuperável sobre o mulherio.
- Ficas a saber – dissera-lhe – que não há gaja que resista a um tipo simpático com um cão porreiro, a passear no parque com o bicho, a dar-lhe mimos… enfim… é quase tão bom como um sobrinho pequeno. E pensa bem… estás nos quarenta! Estás à espera de quê?
Nas férias, tinha ido ao canil adoptar um rafeiro que era de facto uma simpatia. Mas, passados que estavam seis meses, não notara nenhum efeito sobre o sexo oposto.
Até esse momento.
A primeira vez que o cão cumpria a função para a qual fora diligentemente adoptado e logo a parte contrária constituía recurso que poderia ter atraído de formas mais radicais, mais dispendiosas é certo, mas também menos passíveis de insucesso.
Ora, abóbora!
Enquanto mirava a conversa terna com o cão, pensava onde seria que ela iria pousar na sua vidinha andarilha, numa noite tão invernosa como a que se avizinhava.
Parecendo adivinhar-lhe o pensamento ela levantou a cabeça e disse-lhe:
- Bom, esta noite já não se consegue trabalhar. Tenho a minha gente aqui mais abaixo mas com este temporal o assunto está encerrado.
Ele sorriu mas não lhe respondeu. Não queria confusões. Não ia dar conversa. Era o que faltava.
E então, de supetão, apareceram várias pessoas, rapazes jovens, mulheres menos jovens e homens feitos, com câmaras de filmar, microfones, tripés, caixas e bobines de cabos, tentando resguardar os materiais com plásticos e procurando abrigo no mesmo apeadeiro que, de repente, ficou sobrelotado.
- Estavas aqui? – Perguntou o homem mais velho. Já estávamos preocupados. Deixámos de te ver.
- Ora, começou a chover tão de repente que só tive tempo de me abrigar aqui. Como é? Faz-se mais alguma coisa hoje?
- Nem pensar. Já mandei subir as carrinhas para guardar o material. Fica-nos a faltar a cena da esquina mas faz-se amanhã. Vai para casa e toma um banho quente que não podes adoecer.
- Ok.
- Onde tens o carro?
- Aqui mesmo em frente. Vou andando. Até amanhã.
- Até…
Tirou a cabeleira e enfiou-a no bolso do casaco. Fez uma última festa no cão e atravessou a rua a correr, entrando num Alfa Spider vermelho estacionado quase em frente.
Tão rapidamente como enchera, a paragem desertificou-se quando duas carrinhas brancas pararam e, num ápice, recolheram toda a gente e todos os materiais.
Ficou sozinho com o cão.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

O DOUTOR

Por Madalena S.


Saiu do seu Audi último modelo depois de dar algumas ordens ao motorista e dirigiu-se apressado para as escadas do edifício sede.
Estranhou o olhar enviesado que o porteiro lhe atirou mas pensou para si que a concertação social não estava a correr como seria de esperar, pelo que era natural que os olhares não fossem muito francos.
Não estava preocupado.
Subiu ao piso da Administração e não gostou dos cochichos das Secretárias, cujo ligeiro matraquear sentiu nas suas costas.
Mas continuava sem estar preocupado.
Quando o Assistente lhe trouxe um café frio, sem o habitual copo de água e com maus modos, começou a sentir um incómodo. Coisa ligeira, nada que o preocupasse.
À hora do almoço, no restaurante habitual, esteve vinte minutos à espera de mesa! Nessa altura o incómodo transformou-se num formigueiro de ansiedade, sobretudo quando, ao fim de duas insistências, o chefe de sala lhe comunicou com cara de poucos amigos e voz de enfado que não podia fazer nada, que tinha a sala ocupada com as mesas do Doutor e da respectiva comitiva.
Nessa altura o Engenheiro começou a preocupar-se.
Porém, somente às quatro da tarde, quando recebeu a nota de demissão assinada pelo Presidente, dando-lhe conta da sua substituição pelo Doutor, é que a sua testa alta de homem inteligente se amarfanhou de verdadeira preocupação.

O BOLERO

Por Madalena S.


Gostava de velhos boleros, sempre gostara.
De preferência cantados por cantoras decadentes, com vozes nutridas pelos eflúvios do rum e pelo fumo azulado dos puros.
Costumava flanar pelas ruas magras da cidade, vasculhando nas lojas de velharias em vãos de escada esconsos, procurando discos antigos de vinil em que as estrias cansadas e gastas se enrolavam em espirais intermináveis e onde a agulha do seu consumido gira-discos se engasgava em soluços agonizantes.
À terça-feira e ao sábado rumava ao Campo de Santa Clara e perdia-se nas bancas da Feira da Ladra, demandando alguma novidade com mais de sessenta anos.
Um dia, vinha a descer o Bairro da Bica em direcção ao Largo de S. Paulo e, numa esquina onde se cruzavam um beco escuro e estreito com outro beco ainda mais escuro e mais estreito, viu uma porta baixa entreaberta, dando passagem para um curto corredor com as paredes cobertas de capas de discos, aguarelas e gravuras antigas, espelhos com molduras art nouveau e mais uma quantidade de pequenas bugigangas que não deixavam qualquer espaço por preencher.
Entrou de mansinho, bebendo a atmosfera como se se tratasse de oxigénio perfumado e, atravessando o corredor, desembocou num pátio interior com reminiscências de jardim de inverno ou vestíbulo andaluz.
Por todo o lado, móveis velhos misturavam-se com objectos repletos de história e de estórias, plantas naturais e artificiais, candeeiros e lampadários diversos e caixotes e caixotes de discos, LP’s mais antigos do que o próprio som.
Então, do fundo escuro da sala, como se saísse do vazio do tempo, surgiu uma extraordinária figura que primeiro lhe custou reconhecer mas que, depois de semicerrar os olhos e esticar o pescoço na sua direcção, lhe apareceu em todo o seu esplendor romântico – Serena del Rio, a Rainha da Noite!
A pérola mais rara da sua colecção de boleros era um disco de 78 rotações, editado em 1957 e que reproduzia a voz rouca e sensual da Rainha da Noite, cantando a obra-prima do grande Carlos Almaran, Historia de un amor: “Ya no estás más a mi lado, corazón… En el alma solo tengo soledad… Y si ya no puedo verte… porque Dios me hizo quererte… para hacerme sufrir más…”
Nessa época, o seu coração perdia-se na espessura das palavras e na liquidez fluida da música e todas as noites a insónia se instalava no som desse bolero fatal, macerando-lhe os olhos cansados de tanto fixarem a capa do disco onde a cabeleira de fogo vermelho de Serena del Rio se espalhava sobre os seus dedos.
E agora ali estava ela. Tanto tempo passado, tempo sem fim, incontável, tempo que lhe marcara os dias e as horas mas que parecia não ter sequer beliscado a mulher. Não tinha rugas e o encarnado da sua juba exuberante estava ainda mais vivo, se tal fosse possível.
Caminhou na sua direcção e sentiu o coração subir-lhe à boca quando a voz única lhe cantou “Siempre fuiste la razón de mi existir… adorarte para mi fue religión… en tus besos yo encontraba… el calor que me brindaba… el amor y la pasión” e, estendendo-lhe as mãos, o guiou mais para o interior daquela gruta de memórias inexplicáveis.
Nunca mais ninguém o viu. Quando a polícia o procurou pelas escadinhas da Bica, orientada pelas indicações da Adelina, criada velha que lhe conhecia os hábitos e as manias como nenhuma outra pessoa, subiu e desceu e passou várias vezes naquela esquina onde se cruzavam um beco escuro e estreito com outro beco ainda mais escuro e mais estreito. Mas a porta baixa e arruinada que dava para um pátio abandonado e despido de vida, escuro e mal cheiroso que os vizinhos garantiam estar desabitado há mais de 50 anos, guardava em si o segredo de uma história, a História de un amor, a história de um velho bolero como aqueles de que ele tanto gostava.

terça-feira, 5 de Agosto de 2008

O ENGENHEIRO

Por Madalena S.

O engenheiro chegou ao gabinete e atirou com a pasta para cima do sofá de couro, polido pelo tempo e pelos milhares de fundilhos de vários tipos e texturas que por ali tinham já passado.
Sentou-se à secretária, um móvel imenso, três metros quadrados de superfície encerada sobre a qual assentavam algumas pastas de cartão contendo os documentos a despacho.
Com dois dedos enfiados no colarinho, alargou o nó da gravata, desapertou o botão de cima e bufou, expulsando o ar dos pulmões com o vigor que a raiva costuma dar a esse acto.
O engenheiro não estava satisfeito. Não estava mesmo nada satisfeito.
A reunião do conselho deixara-o nervoso e frustrado perante a sua notória impotência para fazer passar a proposta, a única proposta que tinha cabimento no contexto com o qual se debatiam. Aquela cambada de incompetentes não conseguira perceber o alcance das medidas que lhes expusera como uma tábua de salvação para a situação periclitante em que se encontravam.
O pacote era aquele. Não havia outras opções. Não havia alternativas.
- Não me parece bem que as medidas sejam aplicadas em pacote! – Contrapusera o anormal dos transportes. Por causa dele é que algumas das coisas tinham chegado àquele ponto, ele que não conseguira controlar as transportadoras, com as mercadorias a acumularem-se nos armazéns. E agora saía-se com aquela de não concordar com o pacote.
E o imbecil do doutorzinho responsável pela segurança também não ajudara em nada, antes pelo contrário. Nem a estúpida da gaja da formação, o estafermo.
Nem um, nem um se aproveitava. Estava rodeado por imbecis que não viam dois centímetros para além daquilo que lhes era posto diante do nariz. Não tinham capacidade de antecipar, de prever os resultados.
Claro, ele, que era engenheiro, sabia fazer cálculos, projectar no espaço. Se algum daqueles totós tivesse desenhado uma moradia que fosse, como ele fizera, tantas, quando começara, agora não viriam com aqueles argumentos de pacotilha.
O engenheiro bufou outra vez e, levantando o auscultador do telefone, marcou o número da extensão interna.
- Isabel, chegue aqui.
A assistente, loura, esguia, enfeitada de colares e pulseiras brilhantes, unhas de gel de vários centímetros, entrou no gabinete e, sem dizer nada, aguardou pelas ordens.
O engenheiro, então, voltou-se para ela e disse-lhe:
- Isabel, vamos fazer um memorando interno: a partir de hoje, é expressamente proibido discordar de medidas em pacote, com uma única excepção para os casos em que o pacote obrigue a procedimentos de desalfandegamento, com pagamento de portes extras e extraordinários, bem como de trabalhos suplementares que impliquem taxas e tarifas com acréscimo de penalizações e de cobrança de juros por moras e relaxes tributáveis percentualmente, ressalvando-se as situações decorrentes de penhoras e outros débitos, por ordem judicial ou que haja transitado em julgado sem que tivesse dado lugar a ressarcimento das partes, acordando-se ainda que os valores a creditar possam ser iguais ou superiores ao previsto para situações similares e devidamente acauteladas pelo quadro legal em vigor e em que, cumulativamente, se verifiquem as seguintes condições: a) que o despacho seja proferido pela tutela; b) que anualmente não se verifiquem mais do que uma e menos do que duas situações de excepção e c) que para cada situação de excepção seja produzido relatório interno circunstanciado e acompanhado de documentação justificativa da indispensável fundamentação. Tomou nota de tudo?
- Sim, senhor.
- Ah, e para não dizerem que somos complicados, simplifique e elimine o papel: mande por e-mail para toda a gente. Eu sou engenheiro, gosto de coisas simples.

domingo, 3 de Agosto de 2008

CHOCOLATE

Por Madalena S.

Quando o Barata ficou viúvo, ao fim de 40 anos de casamento desinteressado e desinteressante, o Costa – amigo de sempre – aconselhou-o a arranjar um cão.
- “Sempre é uma companhia!” dizia, procurando consolar o parceiro de dominó sem perceber que, na sua recente condição de celibatário forçado, o que o Barata mais vinha apreciando era precisamente a ausência de companhia. Temeroso da crítica se se percebesse que o seu desgosto era de lágrima difícil, o Barata resmungava um “não sei, não sei”, mas acabou por ceder. O Costa arranjou-lhe um rafeiro de pata rasteira e pêlo crespo e acastanhado que, em baptismo colectivo numa tarde de dominó acérrimo, recebeu o nome de Chocolate por causa da cor e de uma certa doçura que lhe transparecia no olhar canino e inevitavelmente fiel.
Seis meses depois, o Barata e o Chocolate estavam em plena lua-de-mel e o viúvo, não sem algum constrangimento à mistura, dava consigo a pensar que a sua relação actual era substancialmente mais feliz que a anterior.
Até à noite em que acordou em sobressalto e, ao seu lado na cama, sentiu um rosnar ameaçador.
Acendeu a luz e estranhou o olhar do cão, amarelo de rancor, o beiço levantado a mostrar os caninos ferozes, e aquele ronco interior que não prenunciava nada de bom. E então sentiu a alma a empapar-se em suores frios quando o bicho abriu a boca e lhe disse, numa voz que ele reconheceria em qualquer lado como a da sua falecida Zulmira:
- “Com que então, achaste que te livravas de mim? Pois estás muito enganado! Agora é que vais ver como elas te mordem!”

sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

O FIM DE SEMANA

Por Madalena S.


À minha amiga Bela, uma loura com alguns pecados,
não muito graves mas muito originais!

Já o sol ia alto sobre as nuvens cor-de-rosa, quando JC acordou. Levantou-se vagarosamente e dirigiu-se à secção das nuvens azuis onde Pedro, sentado à secretária junto dos grandes portões de ouro maciço, fazia o check-in dos futuros residentes, resignada e ordeiramente enfileirados por Gabriel.
JC chegou junto de Pedro e soprou-lhe ao ouvido:
- Estou chateado que nem um peru!
Pedro respondeu entre dentes, para que o casal de futuros residentes que nesse momento assinava o registo não ouvisse:
- E que queres que eu faça?
- Dá-me um passe de fim-de-semana.
Pedro ficou vermelho, soprou com força deitando fora todo o ar que tinha nos pulmões e, com um ligeiro acenar de cabeça, chamou Simão para o substituir.
Pegou num braço de JC e afastou-se em direcção à área neutra das nuvens brancas.
- Outra vez a mesma conversa? Ainda não percebeste que tens responsabilidades? Não és um qualquer! Que digo se o teu pai me perguntar por ti?
- Que fui em missão.
- Que missão?
- Então? … Sei lá… converter um ou dois transviados…
- Que transviados, que história é essa??!! A tua época de conversões já passou.
- Não sejas assim, Pedro. É só um fim-de-semana.
- Ahhhhh…. não sei, não… – gemeu Pedro, martirizado pelos olhos suplicantes de JC. Continuava a ser quase impossível resistir àquele olhar. – Está bem, então. Um fim-de-semana. E se o teu pai perguntar, foste converter… sei lá… um pecador proeminente, para justificar teres ido tu próprio.
- O Bush?
- Esse não tem conversão possível. Já está na listagem do nosso amigo lá de baixo.
- Bom, então… uma pecadora… uma prostituta… uma pecadora arrependida…
- Outra? Tens mesmo um fraco pelas arrependidas…
- Que queres? Comovem-me.
Pedro tirou um fio com uma chave pendurada da algibeira do seu albornoz branco e entregou-o a JC.
- Aqui tens. Agora vê lá. É para estares aqui no domingo à noite. Sem falta.
- Fica descansado. O sábado à noite é que me interessa. Vou até Las Vegas. É onde se encontram as melhores pecadoras. E as mais louras e com maiores pecados!
E JC afastou-se em direcção à zona de descida, montando num raio de sol direito ao deserto do Nevada.

sexta-feira, 25 de Julho de 2008

WWW.

Por Madalena S.

Tinham marcado encontro à porta do D. Maria II, às sete e meia. Ela iria de saia roxa e camisola preta e ele de calças cinzentas e camisa verde água.
A Internet tinha destas coisas, esta possibilidade de marcar encontros com gente desconhecida, a aventura do viver no limite, o perigo de ignorar as consequências, o desatino da juventude irrequieta.
Ela decidiu chegar primeiro. Queria escolher uma posição estratégica de onde pudesse mirar-lhe a aproximação, eventualmente fugir dali a sete pés se o que visse não lhe agradasse.
Ele decidiu mais ou menos a mesma coisa de modo que às sete já lá estavam ambos, um de cada lado da fachada do teatro, olhando a grande praça em frente e tentando lobrigar os desconhecidos que se aproximavam.
Ao fim do primeiro quarto de hora começaram a alargar a área de pesquisa visual para as laterais e os respectivos olhares acabaram por se cruzar, inevitavelmente.
Dirigiram-se então um para o outro, um pouco a medo, em passos incertos, franzindo o sobrolho e tentando perceber se a saia era mesmo roxa e a camisa mesmo verde água.
Quando se encontraram frente a frente, tentaram sorrir embora se sentisse algum constrangimento a envolvê-los.
Ele acabou por falar primeiro:
- Bom, não devo corresponder exactamente ao que esperavas, mas…
- Pois, de facto… não és bem como eu te tinha idealizado mas… por outro lado, eu… também…
- Sim. É verdade. Também estava à espera de alguém… diferente, digamos assim.
- Pois é. E agora?
- Ora… agora nada impede que continuemos como tínhamos planeado. Não queres ir jantar?
- Sim, quero. Vamos.
Ele deu-lhe o braço e voltaram-se, começando a caminhar em direcção à Rua das Portas de Santo Antão. A bengala na sua mão direita ajudava-o a equilibrar o peso do corpo e a marcar a cadência dos passos miúdos de ambos.
- Afinal, em que ano é que nasceste? – Perguntou ela curiosa.
- Um ano antes de começar a Guerra. E tu?
- Um ano depois de acabar a Guerra.
- E como é que descobriste esta coisa da Internet?
- Com a minha neta. E tu?
- Na Universidade Sénior.
E continuaram em direcção ao Solar dos Presuntos.

terça-feira, 3 de Junho de 2008

ÁGUA DE MAR

Por Madalena S.

Era Outubro e chovia sem parar há três dias quando ela nasceu.
Foi certamente por causa dessa condição líquida em redor da sua vinda ao mundo que, uma semana depois de cá estar, a mãe lhe encontrou, à hora do banho, umas pequenas membranas entre os dedos dos pés. Era palmípede!
Cresceu com pés de pato e um andar a condizer, rebolando os quadris estreitos e arrapazados, e com uma natural apetência por tudo quanto era água, doce ou salgada, mansa ou agitada, fria ou quente, mineral, com gás, sem gás, em estado líquido ou sólido.
Um dia, o pai foi nomeado Cônsul Geral das Províncias na Ilha de Zanzibar.
O Índico passou a exercer sobre ela uma atracção descontrolada.
Tiveram de contratar uma negra que só tinha uma perna mas falava um inglês perfeito com voz de cortesã do antigo Egipto, para a vigiar e impedir de entrar no mar e desaparecer no horizonte fluido.
No dia em que fez dezasseis anos, conheceu o príncipe de Dar-es-Salam que viera à ilha, viajando incógnito num barco de pescadores.
Encontraram-se debaixo de um embondeiro gigante à beira da estrada e, nessa noite, fugiram embrulhados na falta de luz e enganando a negra que, por só ter uma perna, não conseguiu correr o suficiente para os interceptar.
Não voltaram a ser vistos mas há quem garanta que na costa oriental de África, de Moçambique à Etiópia, nas noites de lua cheia é possível ver uns vultos nadando incansavelmente junto às praias. Um deles é o príncipe de Dar-es-Salam. O outro, ninguém tem a certeza mas muitos pescadores afiançam que se trata de uma sereia com pés de pato.

sábado, 31 de Maio de 2008

NAS RUAS DE SINGAPURA

Por Madalena S.

Nas ruas de Singapura cresce o perfume dos lírios.
Jesus Cristo está de visita à cidade.
Procura uma hipótese de praticar o bem, talvez fazer um milagre. Ou dois. Quem sabe três.
Encontrou num bordel sete putas velhas a quem pediu abrigo, pão e vinho. Deram-lhe um prato de arroz e uma cerveja e um catre forrado de percevejos.
- Foi o que se pôde arranjar!
Deitou-se com a mais feia mas não conseguiu dormir. Das ruas de Singapura, afogadas no perfume dos lírios, subia o clamor da multidão embriagada pelas novas que corriam pela cidade sobre a chegada do Homem.
Deitou-se com a mais bela mas também não conseguiu dormir, agoniado com o cheiro de mel quente que a sua pele exalava.
Então, saiu para as ruas de Singapura onde crescia o perfume dos lírios e começou a fazer milagres. Deu vista a cinco cegos, curou três paralíticos e ressuscitou um morto.
Ao terceiro dia, estava farto de praticar o bem e faltava-lhe a imaginação para fazer mais milagres.
Voltou ao bordel, arrumou a sua trouxa, despediu-se das sete putas velhas e subiu ao céu.
Das ruas de Singapura desapareceu o perfume dos lírios.

domingo, 18 de Maio de 2008

DONA DINDINHA

Por Madalena S.

Para a Bé.
Vida longa e de sucesso para o seu Paleta de Sabores.

Dona Dindinha nascera em Itacaré, na confluência do Rio das Contas com o Atlântico, sul do estado da Bahía, filha mais velha de família modesta.
Em menina, antes da chegada dos turistas, liderava o bando da criançada que, na praia da Coroinha, bem no centro da vila, jogava futebol no areal escuro e mergulhava nas águas frescas sem medo da poluição que mais tarde passara a afastar os visitantes para as outras praias, pequenos paraísos incrustados nas imediações.
Os moleques habituaram-se às suas ordens enérgicas e ao seu jeito de bola, e havia lutas renhidas, no momento de seleccionar as equipas, com o objectivo de escolher Dindinha, invariavelmente a estrela da partida, artilheira hábil com goleadas memoráveis na sua história de vida.
A família de Dindinha vivia do cacau, à excepção dos irmãos de sua mãe, seus tios Vicente e Joaquim da Cruz Ferreira, que eram pescadores e tinham cada um o seu barco.
Nos anos setenta, com a chegada da Vassoura-de-Bruxa e a morte de muitos pés de cacau vítimas da praga, os pais de Dindinha fugiram à miséria que assolou a região e rumaram ao Rio de Janeiro, levando consigo os nove filhos dos quais o caçula ainda nem caminhava, ajustado ao colo da mãe e dependendo da mama materna para sobreviver.
No Rio de Janeiro, Dindinha acabou de crescer na favela, por entre os malandros do Rio, enquanto tomava conta dos irmãos e do pai permanentemente toldado pela bebida, depois da mãe se ter fartado e ter fugido com um cantor de tangos argentino que passou pelo Teatro Carlos Gomes numa revista musical no início dos anos oitenta. Dindinha fez-se uma mulher bonita, vistosa mesmo, nos seus vestidos simples de algodão, colados ao corpo moreno, exigindo ao espírito que adivinhasse o que mal cobriam. Quando passava na rua, Dindinha fazia os homens voltarem a cabeça e seguirem-na com o olhar guloso.
João Sebastião era bicheiro na favela de Dindinha. Tinha um andar gingão de marinheiro aposentado, um bigodinho fino por cima do lábio, à galã de cinema dos anos quarenta, e o olho pousado em Dindinha desde que ela lhe passara à porta, certa tarde chuvosa e quente, carregando uma trouxa de roupa usada que lhe tinham dado para os irmãos.
Depois dessa tarde, João Sebastião não descansou enquanto não falou com ela. Conversa mole, dengosa mas gostosa de ouvir. Dindinha foi na conversa.
Dois anos depois estava a viver com o bicheiro, trazia um filho no colo e outro a caminho na barriga rotunda.
Todos os dias, quando acordava, João agradecia aos céus a presença de Dindinha. Para além das noites de lutas esgotantes na cama – Eta, mulher brava! – o homem retirava da convivência com a companheira o prazer adicional da mesa que descobrira quase por acaso. Dindinha tinha mão para a panela e cedo se tornaram famosos os seus petiscos baianos. Não havia um dia em que Dindinha não tivesse de cozinhar para alimentar as dezenas de bocas que lhe passavam em casa, amigos e compadres de João, os capagangas, os irmãos, os filhos.
- Dona Dindinha, quando é que tem vatapá?
- Dona Dindinha, faz um acarajé p’ra amanhã!
- Dona Dindinha, eu quero moqueca de camarão, pode?
Dindinha não dizia nada e cozinhava apenas. João Sebastião teve de aumentar a cozinha, estender para trás mais uns metros e arranjar outro fogão, mais panelas e duas ajudantes.
A fama de Dona Dindinha e sua cozinha baiana começou a descer da favela e estendeu-se pela cidade. Organizou-se um circuito de visitantes. A palavra passou e até gente fina começou a ir à favela provar o xinxim de galinha ou o jabá com jerimum de Dona Dindinha.
Um dia, depois de muita banana frita e muito arroz com feijão, depois de muitos anos na frente do fogão, carregando penas e filhos, Dona Dindinha chamou João de lado e falou assim:
- João Sebastião, ‘tou farta de cozinhar para essa turba faminta que não dá valor e ‘tou farta de sustentar vadio desocupado. Vou embora.
- O quê?
- Vou embora. Comprei um espaço – agora se diz assim – no Leblon, vou abrir um restaurante, tocar minha vida p’ra frente!
- O que é que tu ‘tá dizendo, mulher?
- O que tu ouviu.
E, pegando num saco de viagem pequeno, agarrou no guarda-chuva e, da porta, virou-se para trás e esclareceu:
- Se tu quiser, pode ir me visitar. Procura o Chez Dindinha. Vai ter cozinha de autor, bem criativa mas a partir da tradição baiana. Aparece.
Só dez minutos depois João Sebastião conseguiu fechar a boca – o espanto fizera seu queixo cair – e abrir a porta que ela fechara atrás de si. Olhou para a rua, a tempo de a ver desaparecer lá bem no fundo, na esquina do beco com a avenida grande.

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

HASTA SIEMPRE, COMANDANTE!

Por Madalena S.


Nascido em Rosário, Argentina, a 14 de Maio de 1928 - embora os documentos oficiais apontem para 14 de Junho - Ernesto Guevara foi o último dos grandes aventureiros, na busca constante de uma causa para defender.

A sua execução pelo exército Boliviano, em 9 de Outubro de 1967, colocou-o no panteão dos grandes mitos, romanceando a sua figura e transformando em lenda tudo o que rodeou o seu fim aos trinta e nove anos, desde as mãos decepadas, passando pelo desaparecimento do corpo, só descoberto numa vala comum trinta anos mais tarde, até à frase destemida que lhe é atribuída como tendo sido pronunciada na hora da morte: "Dispara cobarde, estás apenas a matar um homem!"

Não tivesse sido assassinado e o Che faria hoje oitenta anos e, se calhar, seria apenas um velhote simpático do folclore cubano para turista ver. Se... apenas se...

A foto que aqui deixo é, muito provavelmente, uma das mais reproduzidas do mundo e transformou-se numa referência para gerações inteiras cujas t-shirts informais e os posters nas paredes repetiram este símbolo até à exaustão, homenageando o herói dos oprimidos e dos mais fracos.

A história faz-se da coragem dos homens e da preservação das memórias.

HASTA SIEMPRE, COMANDANTE!




domingo, 4 de Maio de 2008

TANGO!

Por Madalena S.


O único candeeiro no beco estreito – um dos muitos que levavam às docas – espalhava pelo empedrado da rua uma luz amarela e mortiça que mal dava para iluminar a esquina do prédio degradado e sujo que outrora ostentara uma alegre cor azul-cobalto.
Por cima da porta baixa e pintada de escuro, apenas um tubo de néon vermelho e retorcido anunciava El Café de Paris e, por baixo, em letras mais pequenas, Ballroom.
Aconchegou a gola de pele ao pescoço para se proteger da humidade densa que subia das águas negras do Rio de La Plata, ali mesmo ao lado, e entrou.
Procurou uma mesa vaga, tirou o casaco que pousou a seu lado, sentou-se na beira da cadeira e, num murmúrio, pediu um mate ao empregado velho que arrastava os pés.
No fundo da sala de tectos baixos forrados de espelhos em molduras arte nova sustentados por meia dúzia de colunas a condizer com o restante estilo, sobre um estrado de dois por dois e diante de um reposteiro pesado de veludo carmim, sete músicos tão antigos como o resto do ambiente apertavam-se entre si para tocarem dois bandoneons, três violinos, uma viola e um piano alto enquanto no centro da sala os pares de dançarinos revolteavam nas dobras do tango em contorções acrobáticas.
Sentou-se mais à ponta da cadeira, se tal ainda fosse possível, e muito devagar, de modo quase imperceptível, esticou a perna esquerda, o bico do sapato bem assente no chão, fazendo um arco elegante com o peito do pé magro.
Ele estava do outro lado da sala, de pé, encostado a uma das colunas mais recuadas, meio escondido na sombra e viu-a logo, assim que ela entrou.
Seguiu-a com o olhar moreno de porteño diletante e percebeu o movimento discreto do pé.
Atravessou a sala na sua direcção e viu-a estremecer ligeiramente, como se o frio da rua tivesse entrado no seu encalço.
Fez-lhe um aceno suave com a cabeça e ela levantou-se e caminhou ao seu encontro. No centro da pista, enlaçou-a pela cintura e dobrou-lhe o corpo esbelto como se fora um vime jovem.
O som dos bandoneons cruzava o ar e deixava nas almas o lamento triste da canção.
Então, sobre todos os outros sons, o grito claro no megafone:
- CORTA!!!
De todos os lados surgiu a luz e o ar encheu-se dos ruídos próprios do estúdio em efervescência.
- Muito bem, meninos! – Elogiou o realizador por trás dos óculos grossos com aros de tartaruga. – À quinta foi de vez. Estou satisfeito, não vamos repetir.
- Graças a Deus! – Suspirou ela. – Os meus pés matam-me.
E, tirando os sapatos próprios para dançar, caminhou descalça, num passinho miúdo, para a mesa do fundo onde estavam pratos com bolinhos e pãezinhos quentes e garrafas termo com café e chá, pedindo em voz alta:
- Lolita, filha, dá-me um cafézinho bem quente, com uma pinguinha de leite.

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

PICASSO

Por Madalena S.


O zunido estridente do despertador soou-lhe aos ouvidos durante alguns instantes antes de perceber que eram horas de acordar. Levantou a mão e deu uma sapatada no botão de desligar.
Agradecendo intimamente o súbito silêncio, abriu os olhos com esforço e estranhou a luminosidade cinzenta do quarto. Pensou que o inverno já devia ter partido mas, com as mudanças de clima, nada mais natural que um dia chuvoso na Primavera adiantada para condizer com o seu estado de espírito.
Contudo, quando abriu a janela sentiu que alguma coisa não estava bem. O cinzento era demasiado evidente. O cinzento em vários tons e o preto e branco a dominar todo o cenário exterior.
O céu estava limpo, nem uma nuvem à vista, mas não era azul, era cinzento claro e o sol não brilhava antes se apresentando como um disco negro empoleirado naquela tela gigante a uma cor.
Agarrou-se com força ao parapeito e espreitou as pessoas que passavam apressadas: ninguém tinha um laivo colorido que fosse, nem na roupa, nem na face, nem nos cabelos – nada!
Sentiu-se a folhear o álbum de fotografias da avó, velhos daguerreótipos a preto e branco do início do mundo.
Voltou para dentro e mirou o quarto à sua volta. Tudo era ausência de cor. Ele próprio, reflectido no espelho alto da parede, mostrava a palidez do preto e branco. Passou as mãos no pijama onde os quadrados azuis e verdes que vestira na noite anterior se tinham transformado em vários tons de cinza.
Quis gritar mas o som não saía. Entrou na casa de banho e lavou a cara com água fria, tentando afugentar o pesadelo que lhe atormentava o sono do qual, tinha agora a certeza, ainda não escapara. O sabonete era preto, a pasta de dentes cinzenta, as toalhas brancas.
Um terror indizível invadiu-o.
Vestiu à pressa a roupa que encontrou à mão e saiu a correr em direcção à sua Harley Davidson, estacionada na garagem.
Quando a montou e ligou o motor, viu um flash de luz colorida diante dos olhos. Piscou-os muito rapidamente e acelerou em direcção à rua.
E então, à medida que a potência da mota o levava para o outro lado da cidade, começou a distinguir pontos vermelhos nos locais por onde passava. Primeiro eram apenas pequenas manchas. Depois aumentaram, tornaram-se apontamentos de maior vulto – um casaco, uma mala, a porta aberta de um automóvel. A seguir ao vermelho começou a aparecer o amarelo, também pontualmente. E, de repente, percebeu que ambas se misturavam porque detectou vários cenários laranja.
Continuou a andar por toda a cidade até que, no final da manhã, a cor voltara a todos os locais e coisas e pessoas.
Nesse dia percebeu qual era o seu papel no mundo.
Agora, levanta-se diariamente e, seja qual for o estado do tempo, monta na sua Harley e percorre a cidade até a conseguir pintar com todas as cores da vida. Está esperançado em que um dia será capaz de fixar a cor para então se aposentar.

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

ADEUS, CASABLANCA!

Por Madalena S.


A chuva batia na janela com um barulho insistente de patinhas de gato sobre soalho envernizado.
Há três dias que a manhã surgira cinzenta e de céu pesado e se transformara em tardes e em noites igualmente plúmbeas. Na véspera, o universo abrira-se em água que ainda não parara de cair e transfigurava as ruas em rios.
Rick encostou a testa ao vidro frio e ficou a ver a rua vazia de movimento e os riscos oblíquos da chuva sob a luz amarela do candeeiro no passeio em frente.
O fumo do cigarro pousado no cinzeiro sobre a secretária atrás de si desenhava no ar arabescos complicados.
Continuava a acordar todas as noites alagado em suor, atormentado pelo pesadelo persistente do avião de Ilsa voando em direcção à noite e ao desconhecido.
Bateram à porta. Voltou-se, foi abrir e deixou entrar o visitante nocturno.
- Senhor Pereira… I presume?
- Mister Blaine… é uma honra. Dizem-me que fala português.
- Entre outras coisas.
- E dizem-me que está disposto a … cooperar connosco. Abandonou Casablanca, definitivamente?
- Digamos antes que Casablanca me expulsou definitivamente. A mim e ao meu amigo Louis Renault.
- Ele está aqui consigo, em Lisboa?
- Hoje em dia somos inseparáveis.
- Victor Lazlo deu-nos o seu nome, na sua passagem por Lisboa. Foi uma fatalidade a sua morte em tão trágicas circunstâncias. E uma perda irreparável para os movimentos de resistência. Por isso é tão importante para nós a sua colaboração.
- A minha colaboração está garantida mas os senhores ficaram de me dar informações úteis sobre certa senhora.
- Com efeito.
O Senhor Pereira tirou um papel dobrado do bolso do casaco e entregou-lho enquanto voltava a pôr o chapéu e se dirigia para a porta.
- Nesse papel encontra as instruções iniciais para a sua missão.
Abriu a porta e saiu. Rick olhou para o papel dobrado na sua mão direita e depois levantou de novo os olhos para a porta que o outro deixara aberta e viu-a, recortada na ombreira fracamente iluminada pelas luzes do corredor:
- Hello, Rick.
Ilsa entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, deixando Casablanca no passado de uma vez por todas.

segunda-feira, 28 de Abril de 2008

A MANIF

Por Madalena S.


Penteou as melenas ralas, pintadas de negro asa de corvo, de baixo para cima marcando um risco ao lado, logo acima da orelha esquerda, tentando com isso esconder a calva extensa e luzidia. Ajeitou a t-shirt com as cores da Selecção sobre a barriga protuberante, passou a mão pelo bigode e admirou-se ao espelho com gosto – sentia-se bem apesar de já ter entrado nos sessenta.
A viuvez chegada há cinco anos deixara-o mais livre e, apesar de sentir saudades da patroa, não podia deixar de pensar que nunca tirara tanto proveito da vida. Tinha o colesterol um bocado alto, é verdade, mas a máquina estava a funcionar bem e ainda se sentia vigoroso.
Gostava de apreciar as pitas novinhas que passavam em frente do café do Hermenegildo a mostrar os umbigos entre as calças descaídas e os tops subidos, os dedos ágeis a dançar sobre os telemóveis, alheias aos efeitos provocadores dos seus andares sinuosos.
Ria-se com a rapaziada das piadas um bocado alarves sobre uma ou outra, mas também não dava ao assunto mais importância do que isso. Com alguma regularidade visitava a Elvira que também já conhecera melhores dias mas a quem sobrava em experiência e conhecimento do que um homem gostava, o que já ia faltando em beleza e elegância física.
Calçou os ténis brancos novos que comprara na véspera na Feira da Ladra e vestiu o blusão de cabedal, já coçado, trazido de Ceuta na última excursão organizada pelo Vítor Ginjinhas – Deus tenha a sua alma! – já lá iam bem uns quinze anos.
Deitou alpista no comedouro do canário, fechou a janela e, pegando na bandeira vermelha enfiada num tubo de pvc branco e enrolada atrás da porta da rua, saiu de casa em direcção à paragem de autocarro.
Ao virar da esquina encontrou o Zé Manel que vinha a descer do outro lado, também de bandeira ao ombro.
- É pá, também lá vais?
- É pá, tem de ser! Os gajos andam a abusar!
- É mesmo, pá! Se a malta não se põe a pau, ‘tamos aqui ‘tamos a levar c’o a PIDE em cima outra vez!
- É pá, podes crer!
- No 1º de Maio, não falho, pá!
- É pá, eu também. A Manif do 1º de Maio é sagrada!
- Olha lá, vamos aqui ao Hermenegildo beber uma mini antes de apanhar o autocarro!
- Pode ser. Achas que o gajo já tem caracóis?
- É pá, é gajo para isso.
- Ando cá com uma vontade de abichar uns caracóis…
Entraram no café do Hermenegildo e sentaram-se na mesa do Cana Brava, do Raul Estivador e do Domingos, todos eles apetrechados com as respectivas bandeiras vermelhas enfiadas em tubos de pvc branco.
Às onze da noite, quando regressou a casa, ia satisfeito como um gato a lamber os bigodes molhados de leite, o papo cheio de caracóis e minis, mas com a alma ligeiramente carcomida pelo remorso. Afinal, o 1º de Maio era sagrado e ele acabara por faltar à Manif, mais uma vez.
- É pá, p’ró ano não entro na tasca do Hermenegildo dê lá por onde der. Porra, é todos os anos a mesma coisa!

sexta-feira, 25 de Abril de 2008

ABRIL IV

Por Madalena S.





ABRIL III

Por Madalena S.



Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

(Manuel Alegre)



ABRIL II

Por Madalena S.


Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

ABRIL!

Por Madalena S.



Para o Miguel, o meu jovem amigo que há 13 anos nasceu à sombra dos cravos de Abril,

livre para pensar, livre para falar, livre para escolher!

Que as suas escolhas prestem homenagem à memória dos que lutaram para ele poder escolher.




Hoje é 25 de Abril!

Em 1974, eu tinha 18 anos, sonhos, esperanças, vontades, desafios a vencer e o fogo da juventude a brilhar nos olhos.

Trinta e quatro anos depois, olho para trás e muitos dos sonhos, das esperanças, das vontades e dos desafios foram ficando pelo caminho, é certo, mas outros foram brotando, outras formas de luta, de crença.

A certeza que hoje tenho, trinta e quatro anos depois de Abril, é que Abril é hoje e todos os dias, e continuará a ser enquanto nós quisermos, enquanto não desistirmos.

Trinta e quatro anos depois, e apesar dos pesares, ainda tenho o fogo a brilhar, não tanto nos olhos onde a chama da revolução se foi transformando num braseiro morno a apagar-se lentamente, mas sobretudo na alma, onde a revolta - e já não a revolução - se alimenta todos os dias com as injustiças que se escancaram diante do nosso pequeno mundo mais ou menos aconchegado e protegido.

É esse fogo da alma que me alimenta o quotidiano e me faz erguer em cada dia e todos os dias, na esperança de que esse será o dia, aquele que irá marcar a diferença, aquele que esperamos sempre!


O dia que ninguém soube descrever como Sophia:


Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Navegar é preciso!

25 DE ABRIL SEMPRE!


Com um abraço forte para todos os amigos com que fui alimentando a minha vida, antes, durante e depois de Abril.

quarta-feira, 16 de Abril de 2008

O PIANO

Por Madalena S.


Sentou-se no banco baixo em frente do piano, colocou os pés a jeito de chegar aos pedais e passou as mãos pelas teclas, carregando ao de leve, apenas para produzir um som ligeiro, sem grandes variações de tom.
Depois fez umas escalas: subir e descer, subir e descer, subir e descer. Esteve assim durante quinze minutos, mais coisa menos coisa. Calculou que seria o tempo suficiente para exasperar o vizinho de cima.
Parou e ficou à escuta. Estranhou não ouvir a costumada pancada com o cabo da vassoura no soalho. Pensou que ele não estaria em casa e sentiu-se frustrada por ter estado a perder tempo. Vasculhou sobre a tampa do piano à procura da pauta que lhe interessava. Quando ficava nesse estado, enraivecida com alguma coisa, impotente perante um problema, gostava de atacar a Polonaise de Chopin, carregando no heroísmo, batendo nas teclas com a fúria com que desejaria abalroar a cabeça do vizinho, completamente surdo perante a beleza dos sons.
Com a última nota exalou um suspiro como se a alma lhe tivesse saído do corpo com a música e ficou de olhos fechados no silêncio, à espera, como os gatos esperam pelo ratos no escuro das casas velhas.
De cima não chegava nenhum ruído. Definitivamente o homem tinha saído.
Respirou fundo, abriu a janela e sentou-se novamente ao piano mas, sem conseguir concentrar-se, a música não acontecia.
Faltava-lhe aquele som surdo das pancadas do andar superior que funcionavam quase como um metrónomo pelo qual media o ritmo dos sons que produzia.
Deixou-se ficar assim o resto da tarde, a esforçar-se num dedilhar do marfim das teclas, sem pressa, agora um nocturno, depois uma valsa, um prelúdio… Chopin, sempre. Era uma apaixonada, quase obcecada, por Chopin.
Ao crepúsculo, quando já mal via na penumbra da sala, levantou-se de novo para ir fechar a janela e ouviu passos na escada.
O coração saltou-lhe no peito, inexplicavelmente. Correu para a porta e abriu-a no preciso momento em que o vizinho de cima se preparava para tocar à campainha.
- Sim? – Perguntou fazendo-se desentendida.
O vizinho estendeu-lhe um embrulho e pediu-lhe com voz morna de quem está disposto a qualquer coisa para chegar ao seu destino:
- Comprei-o para si. Eu gosto muito do piano. Só não aprecio o reportório.
Ela aceitou o objecto e desembrulhou-o com pressa, rasgando o papel barato de fantasia.
A capa do CD mostrava Oscar Peterson ao piano numa jam session de um club de jazz de Chicago.
Sorriu maliciosa e deu meia volta sobre si mesma. Caminhou em direcção ao piano, consciente de que o vizinho, estático sob a ombreira da porta, apreciava os movimentos ondulantes do seu andar.
Sentou-se mais uma vez na banqueta baixa e começou a improvisar sobre a melodia de You look good to me.
E então voltou-se para a porta, viu o sorriso apalermado do vizinho e gritou-lhe sobre a música:
- Já podia ter dito!
Ele entrou e fechou a porta com um toque certeiro do calcanhar.

quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

O CASTING

Por Madalena S.


Desceu do eléctrico atirando as pernas esguias em voo para a calçada de basalto. Deu uma ligeira corrida equilibrando-se misteriosamente nos saltos agulha de dez centímetros e fugindo à chuva que, persistente como testemunha de Jeová, caía sem parar há dois dias.
Entrou na pastelaria a sacudir a volumosa cabeleira ruiva que fazia os homens virarem a cabeça quando ela passava, provocadora, atiçando aquele fogo abrasador sobre os ombros leitosos, qual Rita Hayworth da Pontinha.
Olhou em volta procurando com os olhos semicerrados em cada uma das mesas e descobriu-o ao fundo, sentado em frente de uma meia-de-leite e mastigando uma bola de Berlim de onde o creme amarelo-gema caía em pingo farto sobre o jornal que folheava ao mesmo tempo.
Atravessou o espaço comprimindo-se entre as mesas, ligeira, fresca, com aquele ar dengoso de vamp de filme negro e sentou-se na cadeira em frente dele que só nessa altura levantou os olhos do jornal e pareceu dar pela sua presença.
- Então? – Perguntou ele com ar inquisidor, contudo mais curioso que preocupado.
- Ficaram de me avisar mas correu muito bem.
- ‘tão mas não sabes nada ainda?
- Ó filho, o casting ainda está a andar. Só amanhã é que acaba.
- Ah… – e ele pareceu desmotivar-se, como se o adiamento da resposta esperada lhe tivesse aniquilado qualquer resto do interesse que havia manifestado.
- Mas eu tenho a certeza que eles me vão escolher. O realizador estava lá e olhou muito para mim. Já pensaste? Eu, numa novela! Só de antever a inveja daquelas lambisgóias lá do Centro, quando souberem… uiii, espero que as mulas não me agourem!!
Então, ele voltou a folha do jornal, com vagar, e sentenciou, sem levantar os olhos da crónica que desancava o seleccionador nacional:
- Bom, mas enquanto não és uma estrela da TV, vai é andando para casa e põe o almoço ao lume que são mais que horas!

quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

ASCENÇÃO

Por Madalena S.


Primeiro, nasceram-lhe umas pintinhas nos pés, a acompanhar o calcanhar, como se fossem mordidas de pulga.
Depois, ferrou-se-lhe uma dor no fundo das costas, que lhe apanhava a ponta do cóccix e deslizava sem rumo certo pelo osso maior da perna esquerda.
No final da semana, tinha contraído icterícia, espirrava violentamente de dois em dois minutos e, quando saiu da cama para ir encher a botija da água quente, fez um entorse ao tropeçar na passadeira da entrada.
Convenceu-se de que ia morrer. Chamou o médico que lhe repetiu a ladainha do costume:

" - Sr. Cosme, o senhor não tem nada. O senhor é hipocondríaco."
Olhou desamparado para o médido, levou a mão ao peito enclavinhando-a sobre o coração e caiu redondo no chão.
Enquanto se sentia a subir em direcção não sabia muito bem do quê, olhou para baixo e viu o médico a tentar reanimá-lo, com respiração boca-a-boca e massagens cardíacas, e a chamá-lo desesperadamente:

" - Sr. Cosme, Sr. Cosme, então que é isso? Ó homem... ó homem..."
Por fim, viu-o parar e deixar cair os braços ao longo do corpo, desanimado. Imprimiu mais um bocadinho de velocidade à sua subida e pensou:
" - Porra, finalmente!! Estava a ver que não conseguia provar-lhes que estava mesmo doente!"

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

INSÓNIA

Por Madalena S.


"De Tarde

N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarella.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!"


Cesário Verde



A depressão impedia Malvasia Madrugada de dormir havia mais de três anos.
Desde que o Conde partira, levando consigo dois quilos de caviar beluga que ela comprara para a abertura da exposição e que lhe tinham custado uma pequena fortuna, nunca mais soubera o que era fechar os olhos e descansar das penas diárias.
O médico receitava-lhe todos os meses um novo anti-depressivo, e mais um ansiolítico diferente, e um soporífero cada dia mais forte, que ela tomava às mãos-cheias, como se fossem m&m’s.
Ao princípio, quando a insónia se instalou, doíam-lhe os olhos permanentemente abertos e alerta, macerados pelo escuro da noite. Depois, começou a fazer pensos com algodões embebidos em água de rosas e rodelas de pepino. Melhorou.
O Conde nunca mais dera notícias. Malvasia continuou a abrir a galeria e a vender os quadros. O negócio corria bem, os mais caros eram os que melhor se vendiam.
Perguntava muitas vezes a si mesma, em silêncio, porque raio levara ele o caviar. Não conseguia uma resposta razoável.
Um dia um homem entrou na galeria. Trazia uma caixa com uma dúzia de garrafas de champanhe. Abriu uma e convidou-a a beber com ele.
Malvasia aceitou e foi buscar um pão-de-ló que tinha no escritório. O homem olhou para ela e apontou para o quadro que mostrava um grande ramalhete rubro de papoulas:
- Verde? – Perguntou.
Malvasia estranhou mas pensou que o homem fosse daltónico. Não associou a cor ao apelido do poeta.
- Não, vermelho. – Respondeu.
O homem não disse mais nada e bebeu o seu champanhe devagar.
Malvasia quis justificar-se enquanto oferecia ao homem uma fatia de pão-de-ló:
- Já não tenho caviar.
O homem não respondeu. Tirou o livro de cheques do bolso e passou-lhe um cheque na quantia que constava na pequena etiqueta, ao lado do quadro.
- Quer que o embrulhe?
- Não. – Respondeu o homem. – É para consumir aqui mesmo.
Então, Malvasia tirou o quadro da parede e deitou-o no chão sobre a grande carpete persa que cobria boa parte do soalho. O homem sentou-se ao lado do quadro e colocou perto de si a caixa com as garrafas de champanhe e o prato do pão-de-ló. Estendeu a mão e apresentou-se:
- Barão de Merlot-Blanc.
Malvasia apertou-lhe os dedos longos e finos como se fossem de mulher e sentou-se a seu lado.
- Malvasia Madrugada.
Quando a noite caiu, Malvasia esquecera o Conde e os dois quilos de caviar beluga que lhe tinham custado uma pequena fortuna. Escorregou pelas costas do Barão, anichou-se sobre a carpete persa e adormeceu suavemente.

quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

EDITORIAL


Um novo Blogue ou um Blog novo?


Cá estou eu! Um dia tinha de ser.

O Luís já me tinha dito que eu devia criar um blog. Ou um blogue, como agora parece que se escreve. O que pode ser curioso se pensarmos que, por um lado, estamos a retirar da nossa língua escrita os pês e os cês e outras coisas interessantes, e ao que parece supérfluas, aproximando o nosso português do português do Brasil; e por outro estamos a aproximar o inglês do português de Portugal acrescentando us e és no final das palavras inglesas acabadas em g, entre outras novidades de igual delírio imaginativo.
É deixá-los!
Mas ainda a respeito do blog (desculpem lá mas, para mim e por enquanto, stande é stand, ateliê é atelier e blogue é blog!) devo dizer que ainda resisti durante uns tempos. Mais por falta de disponibilidade para me dedicar à "blogomania" do que por resistência efectiva.
Por fim, comecei timidamente a mexer nas ferramentas. E a pensar no que queria fazer.
Para que deve servir um blog?
O que quero fazer com este blog?
Pois bem: a linha editorial é a da escrita. Criativa. O que pode incluir listas de compras, por exemplo, porque, para mim e em certo sentido, toda a escrita pode ser criativa, até as listas de compras ou os menus dos restaurantes. A fundamentar esta minha ideia, vejam-se alguns e-mails que correm aí em liberdade pela net, com imagens genericamente classificadas como "Portugal no seu melhor": mais criativo não se pode ser!


Aqui está o que eu considero um fabuloso exemplo de escrita criativa!
De qualquer modo, gostaria que este blog pudesse ser, em simultâneo, aquele local onde vou passar a colocar os meus escritos em substituição da gaveta, mas também o local onde podem aparecer outros escritos, de amigos e conhecidos, e até de gente que nunca vi mais gorda mas que goste de escrever, escreva bem e queira participar.
Será, por isso, a minha obra editada e, ao mesmo tempo, a minha editora para obra de outrem.
E gostaria que fosse, também, um ponto de encontro para discussão e reflexão. Sobre tudo e todos. Para reflectir por escrito. Para criar caminhos alternativos, marginais e plurais. Para abrir portas e janelas, escancarar os horizontes e, se possível, criar um grande estardalhaço à volta do statu quo.
É que eu não gosto do statu quo. E por isso, lanço já, agora e aqui, um primeiro desafio: como se muda o statu quo da cultura em Portugal?
Nota: não vale responder "com a demissão da Ministra da Cultura!" Isso já está, desde ontem à tarde, mas não significa o extermínio da raça: o senhor que se segue é advogado, ligado à banca e administrador do Berardo - muito próprio, sem dúvida.
Fico à espera dos contributos. E das críticas e sugestões.