quarta-feira, 30 de julho de 2014

A SEXTA-FEIRA SANTA

Por Madalena S.


Aproximava-se o fim da Quaresma.
Frederico Bexiga – o Fred das Fitas – sabia que, com a sexta-feira santa à porta, tinha de se aproximar o mais possível de Alvazim do Rio, terreola esquecida dos vivos, enterrada na margem direita e seca do Guadiana, de frente para coisa nenhuma porque, na margem esquerda, apenas duas oliveiras vergadas sob o peso da canícula testemunhavam a existência das sessenta e sete almas que a habitavam.
Natural de Ferreira do Alentejo, casado, pai de dois filhos, com morada certa em Pias e incerta onde calhasse a sua carrinha levá-lo, mais o seu projector e a tela enrolada para o caso de não haver parede branca capaz, começara a palmilhar o sul do país, levando a ilusão da sétima arte aos abandonados alentejanos, ignorados pela sorte, pela vida e pelos restantes mortais, em meados dos anos sessenta, ainda jovem e solteiro. O gosto pelo cinema vinha-lhe diretamente do tio Faustino, irmão do pai, que fugira de Ferreira para a capital para escapar ao destino de miséria que lhe estava reservado. Em Lisboa, um promotor atraíra-o para o boxe, no Parque Mayer, onde ainda ganhara alguns combates e algum dinheiro. No final de um desses combates, um produtor inglês de passagem pelo Estoril descobriu-o e levou-o para Espanha para ser figurante no Lawrence da Arábia. De vez em quando, vinha a casa passar uns tempos e mostrar as notas de cem escudos que ninguém por ali conhecia. E falar de cinema. Se lhe perguntavam o que fazia, respondia: sou figurante! E com isso calava a boca aos curiosos.
Fred foi parar com os costados a Angola no final de sessenta e dois, tinha acabado de fazer vinte anos. Voltou no ano seguinte, ferido por uma arma defeituosa que lhe levou dois dedos da mão direita. Costumava dizer que, se fosse uma mina, lhe tinha levado tudo, por isso estava grato.
Mas se a sobrevivência no Alentejo, naquela época, era difícil para quem tinha as extremidades completas, era quase impossível para quem tinha falhas. Valeu ao jovem Fred o tio Faustino que lhe emprestou dinheiro para tirar a carta, comprar um carro em segunda mão e um projector usado. Uns meses depois, Fred percorria as planuras de além Tejo ao volante da sua Renault 4L a que retirou os bancos traseiros para melhor acondicionar o projector.
E foi isso que Fred – Fred das Fitas como rapidamente passou a ser conhecido – fez durante a sua vida inteira. Só usou a carrinha para outros fins, três vezes: quando casou e decidiu levar a patroa a passar a noite numa residencial com vista para o mar, em Olhão, e quando teve de a levar a Beja, para ter os filhos, cada um em sua vez.
Ao longo dos tempos, Fred foi construindo o público fiel que não lhe falhava nunca, fosse Verão ou Inverno, foi percebendo os gostos de cada um, conhecendo as suas preferências. A revolução, em setenta e quatro, trouxe-lhe outras responsabilidades e Fred deu por si a participar na alfabetização popular, projectando filmes até aí proibidos pela censura por diversas razões: ou porque tinham povo a mais, ou porque tinham corpos a mais, ou porque tinham ideias a mais.
Mas, por outro lado, a democracia também trouxe uma tão rápida evolução da sociedade que, em breve, Fred se viu a braços com as dificuldades resultantes do aparecimento do vídeo, das cassetes em VHS, depois do DVD e da Internet, golpe fatal para a carreira do projeccionista ambulante.
Em meados dos anos noventa, Fred não tinha grandes incentivos para continuar, mas tinha dois filhos para acabar de criar. Valeram-lhe os filmes eróticos, então em voga.
Não era pornografia que isso da pornografia era para quem não tinha imaginação, não era para os amantes do cinema, como ele gostava de frisar. Mas, por fim, até esse filão deu o que tinha a dar.
Restava-lhe Alvazim do Rio, fiel à tradição do cinema só para homens, à sexta-feira santa.
E, nesse ano, Fred tinha uma surpresa para a rapaziada. Saíra há uns tempos um filme que prometia ser um sucesso dos antigos. Ele tinha-o visto no recato da sua casa, a altas horas da noite, já a mulher dormia ferrada e, tinha de confessar, há muito que um filme não o perturbava tanto e lhe provocava aquele formigueiro muito especial. Não levou muito tempo a decidir que aquele era o filme apropriado para a sexta-feira santa em Alvazim do Rio.
Nessa tarde, a chegada de Fred à localidade foi saudada com carinho e até alguma ansiedade.
À noite, a população masculina, vinte e nove almas na totalidade – a maioria dos Alvazinenses eram mulheres solteiras, casadas ou viúvas – reuniu-se, como era hábito, no armazém do António da Licas. A tela estava colocada, o projector no lugar. À entrada, cada um deixava o dinheiro do bilhete na caixinha de madeira que Fred colocara sobre uma pipa velha. Não havia trocos nem desconfianças.
Alguns traziam bancos consigo, que no armazém não havia assentos para todos.
No início do filme, o silêncio era quase palpável. Mas, com o desenrolar da história, a animação foi crescendo. Por mais do que uma vez o público se entusiasmou e aplaudiu generosamente, acompanhando a excitação com assobios e expressões brejeiras. Nessas alturas, Fred parava a fita, rebobinava e repetia.
E foi assim que Sharon Stone cruzou as pernas quarenta e oito vezes numa noite.


domingo, 13 de julho de 2014

A JANELA

Por Madalena S.

Quando Jimmy e Grace alugaram o estúdio, agradou-lhes o pátio interior rodeado pelas janelas dos vizinhos, criando uma proximidade apelativa. A cerejeira, no centro do pátio, florescia denunciando a primavera e carregava-se de frutos com os quais a velhota do rés-do-chão do canto fazia compota, oferecendo depois frasquinhos com tampas coloridas à vizinhança.
Jimmy e Grace gostavam de se sentar em frente da janela rasgada sobre o pátio e ficar a observar os vizinhos, sobretudo os da frente que tinham uma relação que parecia conturbada. Discutiam frequentemente e, embora não os ouvissem, conseguiam perceber que alguma coisa não estava bem com aquele casal.
O assunto tornou-se uma obsessão. Compraram uns binóculos e, desde que chegavam a casa ao final do dia, entretinham-se a mirar os vizinhos da frente e a conjecturar as histórias que, na sua imaginação fértil, arquitectavam a vida daquele par tão bizarro.
Até que a vizinha desapareceu. 
O desaparecimento forneceu viçosos pastos aos devaneios exuberantes de Jimmy e Grace. De binóculos em punho seguiam todos os movimentos do vizinho, profundamente convencidos de que um crime passional tivera lugar na janela da frente.
Um dia, Grace chegou a casa corada e ofegante. O mistério resolvera-se. Encontrara a vizinha a passear no parque de braço dado com outro homem. Para crime passional, depois de tanto tempo a construírem cenários incríveis, tudo lhes parecia agora bastante decepcionante.
De binóculos em punho, viram o vizinho a aquecer uma embalagem de comida pronta no micro-ondas e a sentar-se na sala, jantando em frente da televisão.
A noite chegou e a luz partiu. Já não se via. Grace e Jimmy pousaram os binóculos e enrolaram-se no divã. Na janela em frente, o vizinho sorria.
Ele tinha binóculos com infra-vermelhos.


O ARISTOCRATA

Por Madalena S.

No palacete decrépito, a luz e o gás há muito tinham sido cortados. As noites tremeluziam entre a sombra das velas e as magras chamas alaranjadas da lareira do quarto, a única que ainda se atrevia a acender para poupar os cavacos secos que conseguira juntar antes da chegada da neve.
Agora, já lhe custava menos perceber porque é que a mulher partira levando o título que tanto ambicionara. Uma duquesa, ainda que falida, teria sempre alguma hipótese em Paris, Monte Carlo ou Porto Fino.
Quanto a ele, restava-lhe resistir. Resistir sempre, em nome da história, dos antepassados, da família.
Abril trouxe a Primavera e amenizou as noites. Agosto chegou quente, mas sempre solitário.
A resistência começava a esboroar-se.
Em Outubro foi empenhar o faqueiro da bisavó. Ao sair da casa de penhores, havia uma revolução na rua. Voltou atrás e salvou o faqueiro.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O ESCRITOR

Por Madalena S.


Sentou-se por trás da mesa coberta com um pano azul-cobalto e, enquanto agarrava na esferográfica, com um sorriso meio tonto nos lábios, olhava para a linha de pessoas que se perfilavam na sua frente, com um livro – o seu livro – na mão, à espera da oportunidade para obter um autógrafo, de preferência com dedicatória.
- Para?... – Gaguejou para a primeira pessoa.
- Para a Tininha. – E a jovem loura, de formas generosas, com um sorriso tão rasgado que permitia lobrigar a pastilha elástica que mastigava furiosamente, debruçou-se na sua frente deixando ver um bocadinho de seios a mais do que seria desejável tendo em conta que não convinha distrair-se durante a tarefa que o esperava na hora seguinte.
Escreveu na sua letra mal desenhada, de tipo cursivo mas com inclinação de algumas letras para a direita e de outras para a esquerda, “Para a Tininha, com um beijinho do Cazé". A culpa daquela situação era, sem sombra para dúvidas e em última análise, da sua professora da primária, a D. Noémia. Ela é que teimava em dizer que ele redigia muito bem, baseando-se na observação directa das suas composições escritas e tentando incentivá-lo a continuar. Anos mais tarde, chegou a pensar que fora o facto de, invariavelmente, terminar cada texto com um untuoso “eu gosto muito da minha professora”, que em muito teria contribuído para formar tal opinião no espírito da D. Noémia.
É claro que, assim que saíra da escola, deixara para trás todo e qualquer conselho da mestra a respeito de escritas, leituras e outros estudos afins e dedicara-se de corpo e alma à nobre arte do futebol. Com uma bola nos pés chegaria longe. Pelo menos, essa era a crença do Augusto, técnico de televisões e técnico de futebóis nas horas vagas, treinador aplicado e esforçado cuja estratégia mais brilhante era a de chegar junto à linha lateral e gritar para o meio do campo: “Tresmalhem-se, tresmalhem-se!!”
Muito mais por falta de motivação do que por falta de jeito, abandonou a equipa e entregou-se a tempo inteiro à condição de desempregado. A chegada da crise ajudou a fundamentar a necessidade do apoio social recebido e a vida passou a correr-lhe menos mal. Levantava-se tarde – convém dizer que também se deitava tarde pelo que uma coisa equilibrava a outra – e empregava à volta de uma hora, hora e meia, na toilette matinal prestando especial atenção ao arranjo do cabelo.
Um dia, à saída do cinema, armou-se uma discussão em torno do filme Angel, o rebelde vingador - um "trailer" de acção e muita porrada como o definira o Domingos - e da eventual qualidade, ou falta dela, do argumento.
Palavra puxa palavra, o Domingos quis bater no Nelo, o Nelo, para se defender, começou aos pontapés, à maluca, e, no auge da confusão, mandou uma biqueirada em cheio nas partes do Aniceto que caiu redondo, literalmente, todo enrolado sobre si mesmo, a gemer e com falta de ar, tal a intensidade da dor que lhe subia em linha recta dos genitais à cabeça, deixando-o zonzo, agoniado, "à beira da morte mesmo, por um triz", como mais tarde relatou o acontecimento a quem se prestou a dar-lhe ouvidos.
O facto é que o Aniceto foi parar ao hospital e ficou lá uma noite, nas urgências, a ganir baixinho e a mandar analgésicos para a veia.
Por solidariedade, calhou-lhe a ele a nobre missão de acompanhar o amigo na sua jornada de dor e sofrimento.
Na sala de tratamentos, sentou-se num cadeirão vago e, enquanto no cadeirão à sua direita o Aniceto dormitava e gemia intermitentemente, à sua esquerda sentou-se um tipo alto e magro, com a camisa rasgada e ensanguentada, olheiras profundas e um braço ao peito, cabelo desgrenhado e oleoso, e que, vítima de insónia crónica e violenta, aproveitou o relativo silêncio que se foi instalando noite fora para lhe contar a história da sua vida, começando por se apresentar:
- Licínio Santos, às suas ordens!
- Carlos José. Cazé p'rós amigos!
- Prazer!
Uma tragédia. Órfão de pais, fora criado por uma tia que morrera quando ele era pouco mais do que adolescente. Sozinho, fizera pela vida na noite, a vender copos ao balcão de bares mal frequentados, trabalhara nas obras, gamara carros, estivera preso, drogara-se, fora travesti, recuperara, arranjara emprego numa drogaria, conhecera a sua Custódia, apaixonara-se perdidamente, juntara-se, vivera feliz até ao dia em que a Custódia o trocara por um tipo que era segurança nas Amoreiras, entregara-se à bebida, recuperara mais uma vez, encontrara Jesus, encontrara a Juliana, voltara a ser feliz e a ser trocado, tentara o suicídio, abandonara Jesus e retomara a bebida. Nessa noite, com o passo incerto pelos eflúvios do álcool, fora atropelado na Rua da Misericórdia.
A história aguentou a madrugada até ao nascer do sol quando o Aniceto teve alta e saiu amparado por Cazé, caminhando de perna aberta para aliviar o incómodo que se mantinha no entre-pernas.
Foi então que Cazé teve uma epifania: ia escrever um livro. Contar a história trágica de Licínio.
O facto é que desapareceu de circulação durante três meses mas, quando voltou, trazia meia resma de folhas debaixo do braço. Era o seu livro.
Sentado no computador do café do Camilo, pesquisou na Internet formas de publicar livros. O Camilo deu-lhe uma ajuda. Seis meses passados e depois de muita discussão com o tipo que o editor lhe dissera que ia rever o livro, a coisa saíra para a luz do dia, com direito a sessão de lançamento, autógrafos e tudo!
É certo que, à cabeça, tivera de comprar metade da edição, mas... que diabo! Escrevera e publicara um livro. Que estava a ser um sucesso de vendas. E como estava proibido de manifestar publicamente a sua opinião sobre os críticos literários, para não ser acusado de atentado ao decoro, nada o incomodavam as acusações de facilitismo, de não se estar perante literatura, de ser infantil e estar mal escrito, de ser pouco mais do que um romance de cordel, folhetim de faca e alguidar.
Estava-se nas tintas! A verdade é que, à medida que a fila de leitores e admiradores diminuía, dispersando-se pelos corredores do centro comercial, aumentava, na proporção inversa, a sua satisfação pessoal pelo próprio feito.
O segundo romance já germinava na sua cabeça. Ia contar a história do Aniceto que, entretanto, nunca mais perdera aquele andar com as pernas ligeiramente abertas, depois do fatídico pontapé do Nelo.

Finalmente tinha uma profissão. Era escritor.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A CABELEIRA

Por Madalena S.
 
Lembrava-se bem de quando tinha uma vasta cabeleira, forte, caindo-lhe sobre os ombros num ondulado natural que se movimentava ao ritmo do seu andar gingão e lhe emoldurava o rosto de anjo que sempre o caracterizara.
Costumava minorar esse ar seráfico com os Rayban de lentes verde-escuro, à aviador, como ele dizia, ou à piloto de automóveis, dependia de como se sentia quando se levantava da cama, por volta da uma da tarde.
Nessa época, as raparigas vinham comer-lhe à mão, traziam-no nas palminhas, viam nele coisas que nem ele conseguia ver, mesmo quando se mirava no espelho pendurado por cima do lavatório minúsculo na casa de banho que a avó mandara encavalitar no vão da escada, quando ele começara a querer tomar banho todos os dias.
Essa avó materna que o criara fora a grande responsável pelo seu estilo de vida. Nada era demais para o seu menino e o facto de o marmanjo ter deitado corpo suficiente para trabalhar não parecera surtir qualquer efeito porque a mulher esfalfava-se a passar a ferro a roupa alheia para prover às necessidades do neto.
Do pai ninguém tinha notícia desde o dia em que a mãe, na inocência dos seus quinze anos acabados de fazer, lhe comunicara com um sorriso de orelha a orelha: “Estou grávida!”
O sorriso depressa se desvaneceu e, com o sorriso, todas as esperanças de um futuro. No dia em que ele fez três meses, foi entregá-lo à avó e desapareceu no mundo, lavada em lágrimas mas decidida – não ia acabar a lavar escadas ou a passar a roupa de outros a ferro. Acabou à beira da auto-estrada do norte, ao quilómetro cento e dezassete, onde o corpo foi descoberto, espancado e roubado, vestido apenas com as meias de renda preta com que atraía os clientes de beira da estrada.
No seu décimo terceiro aniversário, a avó deu-lhe cinquenta escudos para ir ao cinema com os amigos. Era uma maquia e tanto. Em vez de ir ao cinema, comprou a motorizada do Aniceto que estava a cair de podre mas tinha os pneus razoáveis, os travões menos mal e o assento como novo, que o Aniceto tinha-o substituído há pouco tempo. Foi o início do seu negócio de peças usadas. A motorizada, vendida à posta, rendeu-lhe cento e trinta e cinco escudos: lucro bruto de oitenta e cinco escudos.
Aos dezoito anos, para além da cabeleira estilosa e dos óculos à maneira, tinha um barracão alugado a servir-lhe de oficina e armazém, lá para os lados da Matinha, num dos pátios labirínticos que desembocavam na Rua do Vale Formoso de Baixo, e mantinha a trabalhar para si, mesmo nas barbas da GNR com quem coabitava pacificamente à distância de um ou dois quarteirões, uma brigada de gandulos que gamava carros e motas e os desmontava com uma rapidez e uma perícia que nem mecânicos de equipas de fórmula 1.
Para disfarçar, continuava a fazer alguns negócios mais ou menos lícitos, comprando um ou outro exemplar pronto a ir para a sucata, que desfazia em peças e distribuía a preços imbatíveis por uma clientela fiel e dedicada.
Alimentava uma escrita rudimentar que nunca passaria numa fiscalização das finanças mas que servia, sobretudo, para manter uma fachada de respeitabilidade que lhe dava jeito. A vida corria sem sobressaltos.
Até ao dia em que conheceu a Dalila.
A Dalila fazia as noites ao balcão do Cuba Libre, bar de frequência mais do que duvidosa, forrado a espelhos e pesados veludos carmesim, a lembrar as boîtes dos anos setenta, e animado por um quinteto que, como o resto, parecia ter saído directamente dessa época.
A Dalila era uma rapariga séria, como fez questão de sublinhar logo na noite em que se conheceram.
A seriedade era tal que precisou de uma semana inteira para conseguir que ela o acomodasse no seu quarto decorado com uma profusão de rendas e folhos cor-de-rosa, em casa da D. Perpétua.
Só mesmo a paixão desmedida que o consumia evitou que ele se sentisse agoniado com tanto folho e tanto cor-de-rosa. Nunca fora homem de rocócós! Com ele era pão, pão, queijo, queijo.
Mas a Dalila sabia levá-lo à loucura. Descobriu-lhe os pontos fracos. Diga-se em abono da verdade que, em simultâneo, lhe descobriu igualmente os pontos fortes.
A coisa era de tal ordem que a D. Perpétua teve de intervir - não queria poucas vergonhas lá em casa.
Mudaram-se para a casa dele. Da avó, aliás. Livrou-se dos folhos e do cor-de-rosa excessivo mas, em contrapartida, ganhou outras preocupações. A Dalila era exigente. Gostava de coisas boas. E caras. O negócio de peças usadas começou a não chegar para pagar as despesas. Teve de aumentar o fluxo de entradas e saídas de material subtraído aos legítimos proprietários.
A Dalila e a avó pegavam-se diariamente. Ele enervava-se. Um dia, enervou-se mais do que a conta e, para acabar com a gritaria, pregou dois bananos na Dalila. Ela ficou ressabiada. Os olhos faiscaram-lhe de raiva e ele pôde ver o ódio a subir-lhe à garganta, como uma azia ácida a corroer-lhe a alma.
Nessa noite, a Dalila apanhou-o a dormir e, pegando na tesoura da cozinha com que a avó esventrava o peixe, cortou-lhe a cabeleira o mais rente que pode.
A Dalila não mediu bem a dimensão da vingança. A tareia que levou no dia seguinte ultrapassou largamente as medidas. Tão largamente que foi preciso vir a GNR, chamada à pressa pelos vizinhos, para lha tirarem das mãos. A coisa azedou. Atrás da queixa da Dalila, apresentada com dificuldade por causa do ar a esvair-se por entre a falha nos dentes da frente, veio a investigação às suas ocupações profissionais.
Dez anos de prisão efectiva foi a sentença lida por uma juíza franzina e fanhosa que, não contente com a pena aplicada, levou quase duas horas a ler o acórdão e a pregar um sermão com apreciações pouco edificantes sobre o carácter do arguido.
Infelizmente, na prisão não lhe permitiram voltar a deixar crescer o cabelo. Por uma questão de higiene, disseram.
A Dalila nunca o foi visitar. Nem uma vez. Valeu-lhe a avó que, ao domingo, religiosamente, lá estava para o animar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A VIAGEM

Por Madalena S.

Quando chegaram ao estábulo, seriam já umas dez da noite.
Deitados na palha, já lá estavam o burro, a vaca e três ovelhas. À entrada, dois pastores enrolavam cigarros - que os de filtro andavam pela hora da morte - e deitavam um olho pelo resto da carneirada espalhada nas imediações.
No estábulo em frente, enquanto bebericava copinhos de hidromel, um grupo de mulheres cuscava a propósito dos rumores sobre o casal, o papel do marido na história, para umas boa pessoa, para outras um parvo, uma joia de homem, um paspalho. E ela, então! Hum... história mal contada... soava mesmo a conto da carochinha...
Quano José chegou com Maria, um dos pastores levantou-se e reclamou:
- Até que enfim. Estamos à espera há mais de um mês!
Mas Maria, derreada, agarrada às cruzes, mostrou-lhe uma cara de poucos amigos e respondeu, desabrida:
- E daí?! Eu estou há espera há nove e não me queixo! Muda mas é a palha da manjedoura que mais dia menos dia aparecem aí os outros três finórios e não quero o estábulo todo encardido.
E, com um andar balanceado, foi sentar-se num fardo de palha, junto ao burro e à vaca, resmungando entre dentes, como se falasse para si mesma:
-... Obrigarem uma mulher neste estado a fazer uma viagem destas por causa de uma porcaria de um recenseamento...Cambada de burocratas!... Governos da treta!...
Meio enfiado, José baixou a cabeça, revirou os olhos e sussurrou para o pastor:
- Esteve assim o caminho  todo. São as hormonas!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O CHEFE

Por Madalena S.

Saiu sub-repticiamente do seu posto por trás da secretária  e caminhou em bicos de pés em direção à porta da rua. Ainda olhou por cima do ombro para o lugar onde o chefe, cabeça baixa enfiada num processo de oitocentas folhas, parecia aspirar o conteúdo amarelecido por dois anos e meio de papel acumulado nos percursos entre despachos. O homem nem deu por ela.
Aconchegou o casaco ao pescoço enquanto acendia o cigarro debaixo da pala minúscula que não protegia da chuva nem do vento, e pensou nos subsídios que tinham voado. Cambada de ladrões! Como é que poderia ir apanhar sol nos 15 dias de férias que se avizinhavam e a ajudariam a suportar melhor a tristeza da sua rotina, o seu fraco entusiasmo pelo quotidiano, o cinzento de uma primavera que teimava em prolongar o inverno?
Não podia.
Cambada de ladrões!
Voltou para dentro. Sentou-se e vagueou pela internet até que chegasse a hora de sair. Já tinha trabalhado o suficiente para a miséria que lhe pagavam.
Tornou a olhar para o chefe, já de casaco vestido e com a mala ao ombro, e verificou que o homem continuava praticamente na mesma posição, com a cabeça enfiada no mesmo processo, atento para além do expectável.
- Até amanhã, chefe. Olhe que não vale a pena matar-se a trabalhar. Já nem temos subsídios e as horas extraordinárias foram-se.
O homem não lhe respondeu.
Saiu enquanto pensava para si: "Isso, isso. Vale bem a pena essas cenas, ó palhaço! Engraxadores da treta, têm a mania que fazem mais do que os outros."
Felizmente que era sexta-feira. Tinha dois dias para escapar à maldita repartição, ao chefe, aos processos... não ia esquecer a falta dos subsídios mas isso era o que era e não valia a pena insistir.
Sábado e domingo aproveitou para desencardir as janelas, vidros e estores, lavou roupa, passou a ferro, fez compras, foi ao cinema, discutiu com a ex-cunhada a respeito do ex-marido, foi jantar com o Gabriel, passou pelo Ikea para ver o sofá que trazia debaixo de olho e, quase sem dar por isso, era segunda feira de novo e estava de volta ao trabalho.
Quando entrou, de manhã, sentiu um cheiro desagradável. Não percebeu logo o que era mas franziu o nariz, agoniada.
Depois ficou surpreendida por já lá encontrar o chefe, de novo com o nariz enfiado no mesmo processo.
"O homem está doente! Que raio de processo é aquele que o faz madrugar e ficar até depois da hora?"
De longe, disse bom dia e perguntou:
- Ó chefe, já cá está há muito tempo? Não me diga que passou cá o fim-de-semana! Já deu pelo cheiro? Que pivete é este que anda no ar? Quer ajuda para deslindar esse calhamaço?
Não obteve resposta e, nessa altura, sentiu um baque no coração. Aproximou-se da secretária do chefe e tocou-lhe no ombro.
A gritaria atraiu todos os funcionários das outras repartições e das secções contíguas.
O médico legista disse, mais tarde, que o homem devia estar morto há quatro ou cinco dias, pelo menos.
Meteu baixa psiquiátrica e fechou-se em casa à espera da junta médica.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O NÚMERO TREZE

Por Madalena S.

Olhou para a filha mais nova que fungava um choro manso e pouco sentido com a neta bebé ao colo e pensou para consigo que, por muito que tentasse estar actualizada e ser moderna, nunca compreenderia a celeridade com que as relações começam e acabam nestes novos tempos.
Ela própria estivera casada quarenta e três anos e só deixara de estar porque o seu Jacinto se finara sem um pio naquela fatídica quarta-feira de cinzas. É certo que o seu Jacinto pintava a manta. Aliás, na manhã da sua partida vira-o chegar depois de o ter visto sair no sábado de Carnaval sem lhe ter voltado pôr a vista em cima nos quatro dias de folia. Mas fosse como fosse, casamento era casamento, marido era marido e não percebia como é que ao fim de onze meses se punha fim a uma relação só porque – afirmava a filha entre soluços – “ ele não presta!” Não conseguia ver onde estava o busílis. Homem nenhum presta. Sempre fora a sua opinião.
- Bom, tu é que sabes. Mas pensa bem. Tens uma filha.
- Já pensei mãe. Já pensei. Só preciso de vir cá para casa uns tempos. Até arranjar um canto só para mim e para a menina.
Bebiana Raminhos suspirou, um suspiro fundo, arrancado às entranhas.
Com a mesma conversa regressara a sua Joaquina, a do meio, que trouxera as duas gémeas, ainda de colo, e o Marquinho.
Dois anos depois, o Abel, o seu rapaz mais velho, zangara-se com a mulher, partira-lhe o serviço da Vista Alegre que fora prenda da avó dela e saíra porta fora, caminhando sobre os cacos com raiva e determinação. As diferenças foram tão irreconciliáveis como impossível foi a colagem do serviço. Os cinco netos ficaram com a mãe e o Abel voltou à casa paterna. Até ao dia em que a ex-nora arranjou um namorado novo e foi viver para Moçambique. As crianças vieram viver com o pai.
E agora era a sua Geninha que mal saíra da lua-de-mel e já estava de volta, uma bebé nos braços e um casamento curto, de menos de um ano. É verdade que esta nem chegara a casar, mas era como se tivesse casado, estas coisas já não são o que eram e, verdade, verdadinha, até lhe dera mais jeito assim, que não tivera despesas nem na altura, com festanças de casório, nem agora com papeladas de divórcio.
O que lhe matava as entranhas era aquela agonia de deitar contas à vida, mais duas bocas para o total dos lugares à mesa. Somou-as mentalmente e, contando com a bebé, chegou ao número redondo de treze. Não gostava de treze pessoas à mesa. A sorte era que, para contrabalançar azares vindouros, a mais pequena ainda levaria algum tempo até se sentar à mesa.
Pediu emprestado um colchão extra à vizinha Gracinda e acomodou mãe e filha no seu quarto, atravessadas aos pés da cama.
De manhã era a primeira a sair para o trabalho que a limpeza de escritórios era feita em turnos, um até às 3 da manhã, o outro a começar às 4 e meia. A encarregada, que gostava dela, tentava sempre dar-lhe o turno da manhã e, assim, ela conseguia estar despachada ao meio dia e ir buscar os miúdos à escola, dar-lhes o almoço e, ainda, fazer umas horas a passar a ferro em casa da doutora da farmácia.
Costumava rezar para que, quando caía à cama, por volta das dez da noite, a pequenita já estivesse ferrada no sono e a deixasse descansar o corpo moído durante as magras cinco horas de repouso que lhe sobravam até à hora de retomar a faina.
O facto é que o canto que a sua Geninha ia arranjar só para ela e para a menina tardava em aparecer e não demorou muito até a mais novinha ganhar direito a um lugar à mesa. Aí estavam os treze que Bebiana temia.
Por essa altura, acrescia ao fatídico número de comensais, a sensação de a sua ser uma casa de doidos. Bebiana Raminhos não dava conta do recado e preocupava-a cada dia mais um incómodo que lhe batia no peito, se avolumava e ganhava tonalidades de raiva e de um certo rancor mal contido contra toda aquela gente, uma turba barulhenta e mal cheirosa, encostada às facilidades que o seu feitio meigo e manso lhe garantia.
A ideia germinou no seu cérebro cansado como erva de cheiro que rompe para a vida. Cresceu, tomou formas e deu frutos. Tratou de tudo o que tinha a tratar e passou o Natal em família, sem deixar perceber o que quer que fosse.
No dia de Ano Novo, assou um lombo de porco para o almoço e ficou de pé, encostada à bancada da cozinha, a vê-los sentados à mesa, em alegre gritaria, a sua dúzia privada, filhos e netos.
Calma, anunciou:
- Amanhã vou-me embora.
O Abel ainda perguntou para onde, distraído, mas as raparigas ficaram alerta, de imediato.
E então Bebiana explicou que treze à mesa era um número que a afligia. Não conseguia engolir nada se estivessem treze à mesa. Por isso, tinha tratado de tudo e arranjara trabalho na Suiça, em casa de uns amigos da doutora da farmácia. Ia ganhar bem, podia mandar-lhes algum dinheiro. Eles teriam de partilhar a casa, as despesas, as ralações, os barulhos. Podiam usar a cama dela e devolver o colchão à vizinha Gracinda. Mas tinham de fazer pela vida.
No dia seguinte, olhando pela janela do avião para os cumes nevados dos Alpes, Bebiana Raminhos antecipou com um certo formigueiro de prazer, a paz e o silêncio que o futuro imediato lhe anunciava.

sábado, 23 de abril de 2011

A ROTINA

Por Madalena S.

Costumava deitar-se tarde deixando-se ficar pela noite dentro em frente da televisão, a beber filmes e séries como se dali lhe viesse algum sopro de vida extra.
Algumas vezes, continuava para lá da última série a apreciar os milagres das televendas, produtos extraordinários que lhe mudariam a vida num instante, a fazer fé nas palavras mágicas dos respectivos promotores.
Amiúde dormitava no sofá e acordava estremunhado, lá pelas cinco e tal da manhã. Só nessa altura apagava a televisão e cambaleava a depressão em direcção à cama onde se deixava cair para um sono que não chegava a ser reparador, de curto e tardio que era.
Às sete estava a pé. Vestia-se sem dar grande atenção à roupa o que frequentemente fazia com que saísse de casa com uns conjuntos perfeitamente anacrónicos e berrantes, a parte de cima colidindo aparatosamente com a de baixo.
Passava o dia sem história, uma hora a seguir à outra, um minuto depois do anterior. Fazia uma pausa ao meio dia, para sair do cubículo minúsculo e ir comer uma sopa, uma bifana e uma bica no café em frente e voltava uma hora depois para retomar a conferência dos documentos, uma guia sobre outra guia, e depois outra e outra, até ficar completamente anestesiado.
Na volta à casa, ao começo da noite, parava no quiosque da comida rápida, à saída do terminal dos autocarros, e comprava uma sopa. Às vezes juntava-lhe um salgado. E, aproximadamente uma vez por semana, uma embalagem pequena de gelatina de morango.
Entrava em casa, despia-se, pendurava a roupa no cabide de quarto aos pés da cama e vestia o pijama.
Só se dava ao trabalho de aquecer a sopa se a dita estivesse completamente fria. Caso contrário, comi-a assim, tépida, engolida directamente da embalagem para não ter de lavar louça. À noite nem bebia café tentando não espantar o sono, mas o efeito do chá de cidreira que levava para a sala para ir bebericando enquanto fazia os primeiros zappings da noite era absolutamente nulo e o sono tardava, por sistema.
Vivia naquela pasmaceira há mais de vinte anos. Cumprimentava os vizinhos com um aceno de cabeça ou com um bom dia surdo e murmurado para dentro, mas nem lhes conhecia o nome.
Não esperava mais da vida.
Até ao dia em que parou no quiosque da comida rápida para comprar a sopa da ordem e foi servido por uma empregada diferente da habitual.
- Aconteceu alguma coisa à D. Fernanda? – Atreveu-se a perguntar.
- Não, reformou-se. – Respondeu-lhe a outra, mal-humorada.
Agradeceu, pagou a sopa e a empadinha de frango e encaminhou-se para casa. A meio do caminho, porém, estacou. Alguma coisa dentro de si lhe doía, uma dor fininha, uma espécie de picada que lhe atravessava o peito. Rodou sobre os calcanhares e voltou ao quiosque. Pediu mais uma sopa, mais um salgado e duas embalagens de gelatina de morango.
Quinze minutos depois batia à porta da D. Fernanda, a empregada do quiosque de comida rápida que o atendera durante vinte anos.
Primeiro, a mulher entreabriu a porta e espreitou, sem dizer nada. Depois, franqueou-lhe a entrada como se estivesse à espera daquela visita há muito tempo.
- Trouxe jantar. – Explicou.
Sentaram-se na mesa da cozinha da D. Fernanda que decidiu que a sopa precisava de um calorzinho. De seguida, cortou um tomate para uma saladinha de acompanhamento dos salgados. Foi buscar um pão e um queijinho.
Partilharam uma cerveja e enfeitaram a gelatina com um resto de chantilly que andava há tempos no frigorífico.
Ela fez café e foi buscar a garrafa da ginjinha. Ainda pensou recusar o café, por causa da insónia, mas depois achou que era falta de educação, de modo que bebeu uma grande xícara de café e acompanhou com um generoso cálice de ginja.
Sentaram-se no sofá, lado a lado. Ia começar mais uma reposição de E tudo o Vento Levou. Pensou que a coisa iria atirá-lo lá para as quatro e meia da madrugada e considerou a hipótese de se ir embora. Mas começara a chover e ela disse-lhe:
- Deixe-se estar. Eu nunca me deito cedo.
Deixou-se estar. Adormeceu recostado no sofá, pouco passava das onze e meia.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A RETOMA

Por Madalena S.

No dia em que comprou o andar na Brandoa, Graciliano Baptista não teve dúvidas que atingira os mais altos píncaros da sua vida, a vários níveis.
Profissionalmente estava no auge. Em meados dos anos oitenta, vender automóveis topo de gama era como vender pãezinhos quentes. Não havia yuppie que se prezasse que não estivesse disposto a gastar uma pequena fortuna num modelo desportivo que lhe garantisse o sucesso dos engates de fim-de-semana.
O ordenado base era razoável e as comissões por cada carro vendido pagaram-lhe as mobílias e os electrodomésticos em duas penadas.
Na primavera de 85 casou com a Xana, namorada de longa data, e, quando deu por si, era pai de cinco raparigas nascidas em anos consecutivos. Quando a mais nova acabou de abrir os olhos ao mundo por via de uma cesariana – último recurso de um parto complicado a coroar uma gravidez de risco – o médico aproveitou para dar um nó nas trompas da Xana fechando assim a fonte de onde escorria aquele mar de mulheres que lhe invadira a vida.
- Não pode ter mais filhos! – Fora a sentença.
Graciliano também não queria mais filhos. Mesmo com a venda de carros topo de gama a manter-se em alta, cinco bocas para alimentar, não contando com a sua e a da Xana, eram um peso pesado.
Quando as miúdas eram pequenas, apesar de tudo, as coisas mostravam-se relativamente fáceis: a roupa das mais velhas passava para as mais novas, toda a gente comia sopa, as diversões de fim-de-semana eram familiares e baratas, as férias no parque de campismo de Vila Nova de Mil Fontes não traziam reclamações de maior.
Os problemas estrearam-se com a chegada das adolescências, ao ritmo de uma por ano num intervalo de cinco anos. Homem nenhum está algum dia preparado para tamanha provação.
A sopa foi banida da ementa quotidiana e substituída por batidos energéticos e barritas dietéticas que custavam uma fortuna e só podiam fazer mal à saúde. A roupa da mais velha começou a ser doada no Centro Paroquial porque a mana seguinte se recusava a vestir os trapos usados e esta atitude foi tendo os óbvios reflexos nas restantes. Passaram a usar ténis de marca, jeans de marca, t-shirts de marca, acessórios de marca. A ele, a única coisa que lhe interessava era verificar qual o preço marcado.
A juntar a tudo isto, a viragem do milénio inaugurou uma fase de algum decréscimo no ritmo das vendas. As comissões ressentiram-se.
A Xana ainda pensou em arranjar trabalho mas a dactilografia, que em tempos fora ganha-pão certo, passara de moda. Com a chegada da Microsoft e quejandos, qualquer um dactilografava com quaisquer dois dedos, e apagava as gralhas com mais rapidez do que levava a detectar o erro.
Graciliano Baptista deu consigo a fazer contas à vida. As duas mais velhas estavam na faculdade mas as outras ainda marchavam no compasso do secundário. E embora toda a gente estivesse no ensino público, não deixava de ser uma despesa considerável. Para não falar nos aparelhos dos dentes para as duas mais novas, nem nas lentes especiais para a do meio que, sem óculos, não via um palmo à frente do nariz. E nem queria pensar que alguma delas lhe pudesse aparecer a dizer que ia casar. Seria a calamidade final.
Sentia-se encurralado. Deu por si a matutar em alternativas para arranjar dinheiro.
Foi por esse tempo que conheceu Ramón Garcia.
Amanhecera deprimido, a condizer com o dia frio, cinzento e chuvoso. Fora o primeiro a chegar ao stand, como sempre acontecia desde que o patrão reduzira o pessoal a si, único vendedor efectivo, ao Mané que trabalhava a recibos verdes, à Rosinda do escritório e a ele próprio que, por ser patrão, não se sentia na obrigação de cumprir horário. Como a Rosinda dormia amiúde com o patrão, considerava que também não tinha de cumprir horário e como o Mané dormia, de vez em quando, com a Rosinda, devia considerar-se no mesmo direito do patrão, por interposta pessoa. De modo que até às dez, dez e meia, o stand estava habitualmente por sua conta.
Graciliano Baptista abriu as portas, ligou as luzes e a aparelhagem sonora de onde escoava aquela música de embalar clientes e sentou-se na sua secretária a ler o jornal.
Faltariam uns quinze minutos para as dez, quando Ramón Garcia entrou e lhe deu os bons dias com aquele sorriso de orelha a orelha que o caracterizava. Graciliano Baptista olhou para o homem e, pelo resto da sua vida havia de se lembrar de ter pensado que num dia como aquele, o que lhe faltava para o deprimir ainda mais era um galego qualquer com o espírito inteiro no alto.
Ramón Garcia queria comprar um carro. De luxo. Espampanante quanto bastasse para condizer com o lenço de seda estampado em cores garridas que trazia enrolado ao pescoço. Não queria carros pretos que lhe lembravam funerais. Nem carrinhas de família. Tinha pensado num BMW cor-de-rosa. Queria dar nas vistas. Ao meio dia, depois de muita conversa, Graciliano conseguira convencê-lo de que a BMW em nenhuma circunstância pintaria os seus modelos de cor-de-rosa mas que o Alfa Romeo amarelo gema de ovo, que tinha no stand há mais de um ano, era o último grito da moda. Saíram para um test drive. Almoçaram juntos. No final do dia, Graciliano Baptista fizera uma venda e um amigo.
Por alturas da revisão dos vinte mil quilómetros, Graciliano e Rámon eram quase inseparáveis. Quando não se juntavam ao almoço, faziam-no ao jantar. Graciliano ainda se sentia um bocado estranho nas saídas com o espanhol, porque as pessoas olhavam para eles de esguelha, admiradas com aquele par tão heterogéneo, um de fato e gravata, discreto, cinzento, uma ligeira calvície a despontar a medo, o outro de botas de verniz e calças justas, cheio de pulseiras e de lenços coloridos ao pescoço, sentado ao volante de um Alfa Romeo amarelo gema de ovo que só a quem fosse completamente cego poderia passar despercebido.
Um dia, Graciliano contou-lhe as suas dificuldades. Rámon ouviu-o, em silêncio religioso. No final, disse-lhe que tinha a solução para ele. E explicou-lha. Graciliano começou por se rir a bandeiras despregadas. Parou de rir quando o outro lhe disse quanto podia ganhar por noite. Nem queria acreditar. Andou duas semanas a reflectir e a remoer em cima do assunto, até ao dia em que as duas mais velhas lhe pediram dinheiro para as propinas. Resolveu-se. Foi ter com o amigo e disse-lhe, audaz:
- Aceito!
O dinheiro voltou a entrar no lar da Brandoa como nos tempos áureos do início. Deixou de haver restrições. O que as meninas queriam, as meninas tinham. A Xana quis mudar de cortinados e não encontrou qualquer tipo de oposição. O mesmo para os tapetes do quarto. Foi só quando obteve autorização, sem resistência, para fazer obras e mudar os móveis da cozinha que uma luz de desconfiança se acendeu no seu espírito inocente.
Fez uma cena. Exigiu saber o que se passava. Associou a boa vida recente às novas amizades do marido, incluindo o tal Rámon, o espanhol que ela conhecera umas semanas antes, num jantar, e que se lembrava de ter achado muito esquisito. Amaricado, para não dizer pior. O que andavam eles a fazer todas as noites até às quatro que nunca ele chegava antes dessa hora?
- Graciliano, tu explica-te! Tu andas a traficar?
- Ó mulher! Estás doida? A traficar?! Eu sou lá homem para me meter nessas coisas! Ganhei umas comissões com que não estava a contar! Só isso.
- Ná!... – E a Xana abanava a cabeça recusando-se a acreditar em mentira tão óbvia. Tanto insistiu e tantas acusações lhe fez que Graciliano não teve outro remédio senão abrir o jogo.
Nessa noite, a Xana, sentada numa mesa de canto, no Tropicália Club, ali para os lados de Santos, não conseguia fechar a boca, a surpresa a descair-lhe o queixo.
No palco, o seu Graciliano, travestido de pin-up dos anos 40, loura platinada dentro de um corpete justo de lamé prata, segurando na cabeça, com maestria de profissional, um imenso toucado de plumas de avestruz de tom verde brilhante, assumia a sua vida dupla e soltava a voz em estridências antes desconhecidas e que agora lhe rendiam, para além de um prazer óbvio, um muito confortável reforço do orçamento familiar. Em off, o apresentador anunciara:
- Minhas senhoras e meus senhores, convosco… Margot, a Rainha da Noite!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O PRIMEIRO PARÁGRAFO

Por Madalena S.

Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão. Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.
O dia amanhecera num tom entre o cinzento e o amarelado, como se as nuvens cerradas não fossem suficientemente espessas para impedir a passagem da luz do sol que, por trás delas, procurava afincadamente romper para cumprir a sua função de causticar aquele tempo de Agosto abrasante.
Chegara-se à janela no instante em que os pingos grossos como bagos de uva começaram uma sinfonia de sons ao baterem no tejadilho dos carros, nas pedras da calçada, nos canteiros e nos caminhos de saibro do pequeno jardim fronteiriço, nos vidros das janelas, no telhado de chapa de zinco da oficina do Ramos. Deixara-se ficar encostado ao parapeito, espreitando o cenário à sua volta, observando a ucraniana que vivia nas águas furtadas do outro lado da rua a apanhar a roupa estendida com a maior rapidez que conseguia; sorrindo perante o desespero do papagaio da D. Carolina, no seu poleiro do lado de fora da janela da dona, retorcendo-se e sacudindo as penas molhadas, calado e demasiado ocupado para repetir até à exaustão o seu “Ó Lina!” com que exasperava os vizinhos; admirando a ligeireza do velho Garcia, sempre coxo e a queixar-se das artroses, das artrites, dos reumáticos, mas que agora atravessava a rua num passo corrido, ligeiro e sem mancar, entrando na leitaria do Vacas com um rompante próprio de adolescente.
Lembrava-se do instante preciso em que as palavras se acenderam dentro do seu espírito, sonoras, volumosas, desproporcionadas, como se uma voz tonitruante lhas ditasse, uma a uma, qual mandamento, o mais importante dos dez, num eco repetitivo para que as memorizasse sem esforço. A ucraniana recolhia a última camisa da corda, a D. Carolina acoitava a sua ave falante e ensopada e a chuva parava, ficando no ar apenas o som dos pingos finais, o último andamento daquele concerto estival de frescura abençoada e a frase inteira, escrita a néon vermelho, intermitente, a brilhar-lhe diante dos olhos: “Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Há quanto tempo procurava em si uma frase assim, capaz de um grande começo, de introduzir um primeiro parágrafo perfeito, sem mácula, limpo de metáforas e de pontuações duvidosas.
Voltou-se com rapidez e mesmo de pé, dobrado sobre a mesa que era de cozinha, de jantar e de trabalho, escrevinhou a sentença numa folha branca e pontuou-a exclamativamente. Endireitou-se e ficou a olhar para a linha única. Voltou a dobrar-se e riscou o ponto de exclamação. Naquela frase, bastava um ponto final. Tão simples quanto isso.
Sentou-se à mesa e ligou o computador. Há dois dias que não lhe mexia nem para ver se tinha correio.
Abriu um documento novo e repetiu a escrita da sua frase, ao cimo da folha, sem se preocupar com formatações. Deixava isso para depois.
“Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Sorriu e continuou a escrever, ligeiro, as letras a aparecerem uma a seguir à outra diante dos seus olhos: “Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.”
Ali estava o seu primeiro parágrafo.
Admirou-o, lambeu-o como os cães lambem as feridas, aspirou-lhe os odores, tomou-lhe o gosto e teve, nessa febre de inspiração, a sua epifania – fosse o que fosse que ele escrevesse em continuação, aquele primeiro parágrafo garantia-lhe a genialidade do romance que há cinco anos lhe fugia. Agora só precisava de definir o narrador, o tempo, o espaço, as personagens, a acção… coisas de nada, comparadas com a falta de um primeiro parágrafo.

domingo, 27 de junho de 2010

O MACHO

Por Madalena S.

Silvestre Amorzinho, apesar do nome, era um macho. E latino.
Mas a latinidade fora um acaso, porque podia ter nascido na Escandinávia, na Terra do Fogo, ou em Vladivóstok que nada mudaria para si. Seria sempre um macho e orgulhava-se disso.
Tinha pelo na venta. E não só. Tinha pelo no peito, nas costas, no pescoço grosso como um tronco de árvore, nas pernas grossas como dois troncos de árvore.
Ainda andava descalço pelo meio dos trigais a perder de vista na sua Amareleja natal quando sentiu pela primeira vez que era um macho. Verdade se diga que essa primeira vez o deixou um bocado acagaçado nos seus frugais doze anos, face à poderosa sensação até aí desconhecida. Mas rapidamente lhe passou o cagaço e, mais rapidamente ainda, lhe nasceu esse espírito de varão, de galo de capoeira bicando em tudo o que era galinha e arrasando a crista dos rivais, simples pintos efeminados e mortiços.
Zarpou da Amareleja directamente para a Pontinha, aquartelado no Regimento de Engenharia nº 1 para cumprir três anos de serviço militar obrigatório, dois dos quais nas águas tépidas da Baía de Luanda quando o mandaram para a guerra mas a sua boa estrela lhe atirou o processo para o fundo de uma qualquer gaveta do sistema e por ali ficou esquecido, na cidade, a arrastar os fundilhos da areia da praia para o Rialto, para emborcar Cucas e galar as miúdas que passavam no largo fronteiro.
Foi a melhor época da sua vida: saía do quartel montado na Solex 3800 que comprara em quinta mão ao Vieira de Avintes – desmobilizado e de volta para a terra – e fazia o pobre motor espremer-se até ao limite, marginal fora em direcção à ponta da cidade para atravessar para o Mussulo na barca do Zé Muxima e ir estender-se na sombra dos coqueiros, colado ao corpo mulato da Sandra, o chocolate da sua pele jovem a contrastar com a areia branca e fina até quase o enlouquecer.
Tanto gostou daquela terra que, depois da tropa, ficou por lá. Levou a Sandra para uma casa que arranjou no Bairro das Ingombotas e começou a trabalhar como empregado de mesa, no Clube Naval. Ganhava bem e prosperava. Era feliz. Depois a Sandra ficou grávida e arredondou as formas. Sobretudo à terceira vez. E ele começou a demorar-se mais para voltar para casa. Até que, à quarta vez, desapareceu por mais de seis meses e só regressou quando o Baleizão, colega no serviço de Bar, o informou do nascimento da Maria Flor, a sua filha mais bonita. Pelo menos das que tinha conhecimento.
Em setenta e cinco, quando toda a gente fugiu de Luanda como da peste, Silvestre Amorzinho decidiu não retornar. Ficou sem o emprego mas os anos que levara a servir à mesa no Clube Naval tinham-lhe dado contactos. Conseguiu passagens para mandar a Sandra e os miúdos para a metrópole e, livre de preocupações, dedicou-se às negociatas próprias dos tempos de guerra. Fez amigos na FNLA, na Unita e no MPLA e levava e trazia informações para os militares portugueses que tratavam da última ponte aérea.
Viveu no arame até setenta e nove quando morreu Agostinho Neto.
A chegada do novo presidente ao poder coincidiu com a sua partida, primeiro para a África do Sul, de lá para o Quénia, depois para a Holanda, Inglaterra e, finalmente, Lisboa. Na bagagem trazia mais quatro mulatas que fora coleccionando durante esses anos de loucura e a quem chamava assistentes. Vinha rico e, na passagem por Amesterdão, ainda ficou mais rico quando trocou o que trazia escondido no forro do casaco por uns bons milhares de dólares.
Instalou-se como um nababo num andar à Avenida dos Estados Unidos da América, dez assoalhadas gigantescas no topo de um prédio luxuoso, com direito a terraço panorâmico. A vizinhança olhava para ele de lado, desconfiada daquele entra e sai de mulatas a que rapidamente se juntou um pequeno exército de empregadas louras, umas para cozinhar, outras para limpar, outras para o que fosse preciso.
Em menos de nada chegou a Sandra com as quatro crianças que, entretanto, se transformaram em quatro adolescentes bravios, dois machos e duas fêmeas comandados pela mais nova, a bela Maria Flor, rainha na beleza e na rebeldia, líder incontestada daquela tropa de guerrilha urbana, nome de culto na noite Lisboeta.
Silvestre Amorzinho bancava a extravagância dos filhos e das mulheres que proliferavam em sua casa. O dinheiro jorrava dos seus bolsos como petróleo.
Era o rei da mansão. O Hugh Hefner português.
Até ao dia em que lhe cheirou a esturro. Andava desconfiado. A Sandra dera em sair muito de táxi. Ora ele pagara-lhe a carta de condução e, para além disso, tinha motorista. Começou a empreender naquilo. Para todos os efeitos, a Sandra era a eterna dona do seu coração. Muito à macho, considerava-a como sua mulher mesmo sem nunca ter assinado qualquer compromisso, nem civil nem religioso, e apesar de tanto afastamento e abandono e de tantos anos sem dar notícias. Quando ela se queixara, ele esticara o indicador em frente do nariz e deixara sair um “shiuuuu” sibilante e ameaçador. A Sandra não voltou a abrir a boca. Mas começou a sair muito. De táxi.
Uma tarde, Silvestre Amorzinho foi atrás dela. Na esquina da Almirante Reis conseguiu reconhecer o motorista de táxi – já o vira mais do que uma vez à sua porta.
Quando os viu entrar na Pensão Cairo, no começo da subida para a Graça, a vista turvou-se-lhe e sentiu um baque como se lhe tivessem dado um murro em cheio no estômago.
Respirou fundo. Aquilo não era coisa que macho que se preza aturasse sem retaliar. Estacionou na rua da Palma e, olhando para os lados para ter a certeza de que não era visto, meteu a mão por baixo do assento do carro e tirou de lá uma arma, um revólver pequeno e robusto, que enfiou no cós das calças, por baixo do casaco.
A vista do revólver desatou a língua ao empregado mal-encarado que se encontrava por trás de um balcão encardido, em frente da porta: em que quarto estavam, quantas vezes por semana, três horas de cada vez, ela é que pagava, às vezes levavam uma garrafa de gin, pediam gelo, saíam juntos tal como entravam, identificavam-se como José e Maria.
- Jesus! – Assobiou Silvestre.
- Não, não. Só José e Maria. Nunca veio nenhum Jesus… - esclareceu o homem, apressado em desfazer qualquer mal entendido de carácter evangélico.
Olhou para o infeliz na sua frente, borrado de medo, e pensou que ia subir a escada e dar dois tiros nos desgraçados. Lavava a honra com sangue. À macho. À moda antiga.
Mas, por uma qualquer razão inexplicável, as pernas não se mexeram. Ficou parado, estático. Desengatilhou o revólver e voltou a enfiá-lo no cós das calças. Deu meia volta e saiu daquele antro agoniante com a maior rapidez que conseguiu.
Até à morte da Sandra, comida por um cancro vinte anos depois, Silvestre Amorzinho, macho do baixo Alentejo curtido pelo sol dos trópicos e por uma vida de aventuras, nunca falou no assunto, nunca deixou que alguém tocasse no assunto à sua frente e nunca mais a seguiu. Quando ela saía de táxi, à tarde, ele sentava-se na sala, em frente do televisor e ficava a ver filmes de pancadaria, luta livre, boxe, artes marciais, o que de mais violento conseguisse encontrar. E esquecia tudo. Até à vez seguinte.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

DEAN, FRANK E SAMMY

Por Madalena S.
Entrou no teatro pela porta pequena dos artistas.
Subiu a escada esconsa que conduzia aos camarins e, na passagem, atirou um “boa tarde!” para dentro do cubículo onde o Emílio dormitava intermitentemente, equilibrando os seus oitenta anos para trás e para a frente na cadeira de baloiço tão velha quanto ele.
Era cedo. O sítio estava deserto mas era àquela hora que mais gostava de ali estar, quando a ausência de movimento emprestava às sombras e às curvas labirínticas do espaço entre o palco e os camarins uma patina mágica, dourada e aromatizada com o cheiro envelhecido das almas dos que por ali haviam passado antes.
Entrou no seu camarim minúsculo, acendeu as luzes que iluminavam profusamente o espelho grande e brilhante e sentou-se no cadeirão que tomara já as suas formas com o uso continuado de uma vida.
Escolheu entre a pilha de CD amontoada numa extremidade da mesa uma gravação do Dean Martin e colocou-a no leitor, carregando no Play.
- Vamos a isso, Dino, old friend!
A voz arrastada do velho crooner soou melodiosa: “How lucky can one got be, I kissed her and she kissed me, like the fellow once said, ain’t that a kick in the head”. Trauteou a letra com mestria, garantindo que a sua voz coincidia com a do cantor que idolatrava desde a juventude.
Da prateleira lateral ao espelho, por cima da sua cabeça, retirou uma garrafa de Jack Daniels e um copo e serviu-se de uma dose generosa.
Depois, enquanto as melodias se sucediam e o bourbon lhe aquecia a garganta, foi preparando a sua transformação. Colocou uma base de cor específica na cara e, de seguida, com um pincel que ia molhando num frasquinho, foi colocando as rugas no sítio certo, disfarçando as próprias e criando outras. Com um pó mais escuro sombreou os olhos de modo a salientar as olheiras sobre os papos que lhe vincavam a expressão do olhar.
Penteou o cabelo de forma peculiar, puxando-o para trás, nos lados, para lhe dar aquele toque de anos cinquenta que agora até parecia que estava outra vez na moda.
As duas horas seguintes passaram sem dar por isso. Parou a sua tarefa apenas para mudar para outro CD.
Vestiu as calças do smoking, colocou os botões de punho na camisa branca com folhos no peitilho e a faixa de cetim sobre a cintura. Vestiu o casaco, ajeitou as mangas e sentou-se no cadeirão recostando-se e fechando os olhos.
Bateram à porta e abriram antes que ele dissesse algo:
- Estás pronto? – Perguntou o Carlos, enquanto enfiava a cabeça dentro do camarim.
- Há muito tempo. E vocês?
- O Firmino está a vestir-se mas eu só cheguei agora. É rápido.
- Não sei como consegues transformar-te em Frank Sinatra em cinco minutos.
- É a prática. Até já.
Esperou alguns instantes e, antes que o contra-regra tivesse de o vir chamar, saiu e dirigiu-se para o palco. Ficou ali, a olhar para as bailarinas que constituíam o número de abertura daquele musical que, ia para dois anos, se mantinha em cartaz com um sucesso inexplicável.
Quase no fim do número, Firmino com o seu gingar à Sammy Davis Jr. e Carlos, ainda a compor as calças do smoking, juntaram-se-lhe.
As bailarinas saíram de cena e na aparelhagem sonora, uma voz em off anunciou como se estivessem em Las Vegas:
- And now… ladies and gentlemen… The Rat Pack!
Entraram no palco e, nas duas horas seguintes, a sua perfeita imitação de Dean Martin garantiu-lhe o ordenado de mais um dia, assim como ao Frank e ao Sammy, seus colegas de lides artísticas e seus vizinhos na Praceta de Bafatá, em Sacavém, há mais de trinta anos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A CASCA DE BANANA

Por Madalena S.

Ao fim de 30 anos de abusos e desconsiderações, Adelina atingiu finalmente o limite da paciência e da subserviência.
O ponto de ruptura deu-se na noite de passagem de ano quando, faltava um quarto para a meia-noite, a cunhada lhe telefonou a perguntar por onde andavam e ela teve de lhe responder que não andavam por lado nenhum: ela estava em casa, à espera do Júlio que ficara de a ir buscar às nove mas, até àquela hora, ainda não aparecera.
A cunhada ainda tentou convencê-la a ir ter com eles – sem grande convicção, é certo – mas ela recusara. Não ia chegar antes da meia-noite e não lhe estava a apetecer passar o ano na rua, no meio de coisa nenhuma a caminho de uma festa de família onde, ainda por cima, a sua presença sem o Júlio ia causar constrangimentos.
À meia-noite, levantou-se do sofá, meteu doze passas na boca e bebeu um golinho de vinho do porto para empurrar. E decidiu para si mesma, em silêncio: acabou-se!
O Júlio apareceu no final do dia de Ano Novo, seriam já umas onze e meia da noite, com uma bebedeira que devia ser a mesma que apanhara na noite de Natal, sujo e mal cheiroso e a arrastar a voz enquanto lhe ia contando pormenores da sua noite de passagem de ano, com o Zé e o Bexiga e com umas amigas deles, umas gajas todas boazonas que tinham feito isto e aquilo e frito e cozido.
Adelina nem respondeu.
A Graciete dera-lhe o nome do advogado que lhe tratara do divórcio. No dia seguinte ia falar com ele e acabava com aquilo de uma vez por todas.
Mas, depois, o Júlio começou a descrever com minúcia o que tinha feito especificamente com uma das boazonas. Sentado à mesa da cozinha, a descascar uma banana, ia falando como se estivesse a gabar-se para uma roda de amigos e não na presença da sua mulher. Uma mulher que tinha dezasseis anos quando casara com ele; que lhe dera três filhos maravilhosos; que trabalhava que nem uma moira, de manhã à noite, para sustentar a casa, os vícios do marido e os estudos dos filhos.
Já nenhum vivia com eles e, com a saída dos rapazes lá de casa, tudo se tornara ainda mais difícil. Nos trinta anos de casamento amargurado, Adelina não podia queixar-se de grandes tareias mas levara, por junto, talvez uma meia dúzia de tabefes e um único soco de mão fechada que lhe partira um dente e lhe deixara uma cicatriz fininha por cima do lábio.
Mais do que a violência física, o que a fartara de vez fora a violência psicológica, os vexames e humilhações, o abandono, a falta de respeito e consideração.
E agora que estavam sozinhos, até parecia que a coisa piorara. O vício do álcool acentuara-se e o abandono crescera desmesuradamente. A tal ponto que ela nem conseguia identificar as emoções que lhe povoavam o espírito. A única certeza é que não era amor, nem paixão, mas tão pouco ódio ou rancor. Tudo se desvanecera com o passar dos dias e, durante muito tempo, Adelina apenas sentira medo, um pânico quase absurdo, uma vontade urgente de se tornar invisível de cada vez que Júlio entrava em casa.
Nessa noite, porém, até esse sentimento de pavor doentio desaparecera. Olhou para ele que se ria alarvemente e pensou: “Mas até quando é que vais aturar isto, Adelina? Divórcio? Ele nunca vai aceitar. Não vai assinar papel nenhum, não vai falar com advogados, nem juízes, nem porra nenhuma. Ainda vai ficar ressabiado e vai moer-te a dobrar. Às tantas, voltas a apanhar que é coisa que nos últimos anos nem tem acontecido.”
As ideias fervilhavam-lhe na cabeça. Podia ir-se embora mas não tinha para onde. Não queria ir sobrecarregar os filhos. Os rapazes tinham a vida deles. O mais velho vivia com a namorada, a casa era minúscula, não dava para mais quem quer que fosse. O do meio partilhava um apartamento com três colegas e o mais novo alugara um estúdio encavalitado numas águas furtadas na zona do Castelo onde ele mal cabia, quanto mais a mãe e as suas tralhas.
E o Júlio que não se calava com a boazona assim e a boazona assado. E ria, o animal!
De repente, Adelina sentiu descer sobre si uma calma inexplicável. E, nesse mesmo instante, soube exactamente qual era a solução para o seu problema.
Abriu a porta do armário onde guardava as panelas e procurou a frigideira grande de ferro. Agarrou-a pela asa comprida, com as duas mãos, e mirou o formato, pesando-a a olho, avaliando a capacidade de movimentação e a velocidade que lhe conseguia imprimir.
Aproximou-se do Júlio, por trás, levantou a frigideira e lançou-a com toda a força sobre a nuca do marido. A pancada da frigideira a bater em cheio no crânio do homem soou grave e pesada e o Júlio caiu de borco sobre a mesa, inanimado, o sangue a jorrar-lhe de uma brecha larga, aberta ligeiramente acima do pescoço.
Adelina posou a frigideira no lava louça e voltou para junto do homem. Colocou-lhe dois dedos no pescoço, à procura de pulsação, mas não encontrou nada. Encostou o ouvido o mais possível à cara dele, tentando ouvir algum silvo, mesmo que frouxo, de respiração. Nada.
Foi à mala buscar o espelhinho pequeno que usava para arranjar as sobrancelhas e colocou-o em frente da boca do Júlio. Nem pingo de vapor. Voltou a tentar encontrar-lhe um vestígio de batidas do coração, no pescoço e no pulso, e mais uma vez não sentiu coisa alguma. Estava visto. Fora instantâneo. Júlio quinara sem sequer perceber o que lhe acontecera.
Então, Adelina agarrou-o por debaixo dos braços e levantou-o da cadeira. Sorte que a má vida que o homem sempre levara o deixara assim enfezado e mais leve do que seria normal num homem feito.
Puxou-o para junto da bancada de mármore do lado do fogão e mediu a distância com uma olhadela entendida. Aproximou-lhe a zona da ferida do bordo da bancada e, quando achou que a distância era a correcta, largou-o. A cabeça do homem bateu em cheio na esquina de pedra e o corpo morto escorregou em direcção ao chão de mosaico, deixando um rasto de sangue a escorrer pela porta do armário.
De seguida, Adelina pegou num esfregão, encheu um alguidar de água com lixívia e limpou a mesa até não restar um único vestígio de sangue. Lavou a frigideira, limpou-a e guardou-a no lugar devido. Colocou a fruteira sobre a mesa, olhou em volta certificando-se de que tudo estava no lugar e, então, agarrou na casca da banana que Júlio estivera a comer e, pegando num pé do cadáver, obrigou-o a pontapear a casca, como se esta estivesse no chão e ele tivesse escorregado. A casca voou até à outra ponta da cozinha, deixando um rasto pegajoso no sítio onde supostamente teria sido pisada e Adelina largou o pé do morto que caiu e ficou ali, inerte, a biqueira do sapato a apontar para coisa nenhuma.
Apagou a luz, saiu da cozinha e foi-se deitar. Armou o despertador para as quatro da manhã e adormeceu pacificamente. Quando o despertador tocou, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e caminhou até junto do corpo que continuava na posição em que o deixara. Voltou a certificar-se de que se tratava de um cadáver, procurando o pulso que não encontrou, obviamente, tanto mais que, por essa altura, o corpo já se encontrava asquerosamente frio.
Foi buscar o telefone e ligou para o 112. Deu todas as indicações que lhe pediram e, quando desligou, sentou-se e ficou a aguardar enquanto revia mentalmente a história que engendrara: deitara-se cedo, pelas dez horas. Não dera por o marido entrar em casa. Às quatro da manhã levantara-se, viera à cozinha beber água e deparara-se com aquele espectáculo.
Ainda considerou deitar umas lágrimas mas depois pensou melhor e achou que era preferível não fazer cenas dessas. Toda a vizinhança conhecia a sua relação infeliz e ninguém estava à espera de grandes manifestações de desgosto. Mais valia ser sincera.
Recostou-se na cadeira, em espera silenciosa, e deu graças a Deus por todas as noites em que, sozinha, vira e revira duas e três vezes, todos os episódios do CSI.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O MILAGRE

Por Madalena S.

Acordou com esforço, os olhos teimando em não se abrirem, as pálpebras ramelosamente coladas. Nestes dias em que o despertar era assim difícil, a vontade era de se deixar ficar, não lutar contra este peso que o pregava ao colchão, fingir-se de morto, respirar devagarinho para ninguém dar por ele.
Apurou o ouvido e sentiu a chuva a cair na rua atapetada pelo amarelo-torrado das folhas dos plátanos outonais.
Sentiu uma certa alegria ao pensar que a chuva ia impedir a estucha de trabalho que o esperava nesse domingo.
Um nó no estômago indicou-lhe que era errado pensar assim.
Aquele fogo a comer-lhe as entranhas era uma sensação que o assaltava sempre que o seu interior lutava desta maneira, o grilo falante da sua consciência a azucrinar-lhe os ouvidos e a aguçar-lhe o bicho do remorso.
Mas, por outro lado, a chuva não era responsabilidade sua. E se chovia daquela maneira, só tinha de humildemente aceitar a diluviana vontade divina que assim afogava a cidade.
Afastou os lençóis, cambaleou em direcção à casa de banho e tratou da sua higiene matinal. Era frugal nestas coisas: um duche rápido, a barba feita com uma lâmina das mais baratas, descartável, dentes escovados com genica e pouco mais. O cabelo tinha pouco que pentear e a fraca variedade de roupa também não obrigava a escolhas problemáticas. Ainda assim, teve dificuldade em encontrar um par de meias sem que, pelo menos uma delas, tivesse um buraco.
Enquanto mastigava uma torrada que ia molhando na chávena de café com leite para amolecer a côdea, rezava afincadamente para que a chuva continuasse a cair.
Saiu de casa e caminhou apressado, lutando com o chapéu-de-chuva mas não evitando que as calças se ensopassem e os pés se alagassem dentro dos sapatos de sola grossa.
Chegado ao destino, tinha as manas Antoninhas à sua espera e teve de ouvir as suas lamúrias a respeito da chuva e de como o dia estava mau e de como tudo podia estragar-se…
Foi assentindo, entre resmungos mal-humorados, mas, no seu íntimo, uma luz ia-se acendendo aos poucos na esperança de que a chuva não parasse.
Quando chegou o Hilário, mandou-o preparar tudo na mesma porque a chuva podia muito bem parar.
- Mantemos a hora de saída? – Perguntou o Hilário.
- Claro. Não está previsto para as três?
- Sim, mas com esta chuva…
- Bom, a essa hora logo se vê.
Ao meio-dia, a chuva parecia ter redobrado de intensidade. O seu coração iluminou-se mais um bocado enquanto mastigava a bifana rija que o Hilário lhe fora buscar ao café do cunhado, empurrada com uma cerveja preta sem álcool.
À uma da tarde, até trovejava e ele começou a ter dificuldade em disfarçar o bom humor que, aos poucos, parecia querer tomar conta de si. Afinal, não podia dar a entender que estava satisfeito com aquele contratempo. Para não levantar suspeitas, fardou-se a rigor.
Seriam umas duas e meia quando a chuva parou subitamente. Nem queria acreditar. Olhou para as manas Antoninhas nas suas farpelas domingueiras e só lhe apeteceu despejar-lhes um balde de água em cima, para aprenderem.
O Hilário entrou de rompante:
- Está a chegar gente aos molhos!
- É um milagre! – Anunciou a Maria Antoninha.
- Louvado seja Deus! – Completou a Antoninha Maria.
Eram três e vinte e um sol tímido espreitava por entre as nuvens que desapareciam rapidamente deixando entrever largos pedaços de céu azul, quando saiu para a rua e se colocou debaixo do pálio, depois de o último andor, com a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, ser carregado pela escadaria da igreja com a dificuldade que o seu peso exigia. Atrás de si, a filarmónica da terra entoava uma marcha de procissão num som roufenho e desafinado, seguida por uma multidão de fiéis que encerrava o cortejo.
Voltara-lhe o mau humor. A sorte é que a populaça entendia o cenho carregado como sacrifício e não como sinal de frete. Olhou para o andor que seguia na sua frente e pareceu-lhe que a imagem de madeira se voltava lentamente para o mirar por cima do ombro e para lhe dizer, com um sorriso trocista:
- Mas passou-te pela cabeça que iria chover à hora da procissão? Não estás bom do juízo, rapaz. Então eu sou Nossa Senhora dos Milagres, para quê? Que vergonha. Um padre sem fé!
Abanou a cabeça desalentado, pensou “Estou feito!” e, pelo sim, pelo não, iniciou um rosário completo e fervoroso de Ave-marias. Para se penitenciar.