quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ASCENÇÃO

Por Madalena S.


Primeiro, nasceram-lhe umas pintinhas nos pés, a acompanhar o calcanhar, como se fossem mordidas de pulga.
Depois, ferrou-se-lhe uma dor no fundo das costas, que lhe apanhava a ponta do cóccix e deslizava sem rumo certo pelo osso maior da perna esquerda.
No final da semana, tinha contraído icterícia, espirrava violentamente de dois em dois minutos e, quando saiu da cama para ir encher a botija da água quente, fez um entorse ao tropeçar na passadeira da entrada.
Convenceu-se de que ia morrer. Chamou o médico que lhe repetiu a ladainha do costume:

" - Sr. Cosme, o senhor não tem nada. O senhor é hipocondríaco."
Olhou desamparado para o médido, levou a mão ao peito enclavinhando-a sobre o coração e caiu redondo no chão.
Enquanto se sentia a subir em direcção não sabia muito bem do quê, olhou para baixo e viu o médico a tentar reanimá-lo, com respiração boca-a-boca e massagens cardíacas, e a chamá-lo desesperadamente:

" - Sr. Cosme, Sr. Cosme, então que é isso? Ó homem... ó homem..."
Por fim, viu-o parar e deixar cair os braços ao longo do corpo, desanimado. Imprimiu mais um bocadinho de velocidade à sua subida e pensou:
" - Porra, finalmente!! Estava a ver que não conseguia provar-lhes que estava mesmo doente!"

3 comentários:

Fernando Reis disse...

Afinal o homem tinha mesmo razão...
Será por isso que, por vezes, a razão não é o melhor remédio?
Escelente história!
:)

Bé disse...

Já não tenho que esperar pelo almoço de Natal para me "deliciar" com estas "receitas"

Fernando Reis disse...

Queria dizer "Excelente história!"
Maldita tecla...