terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

INSÓNIA

Por Madalena S.


"De Tarde

N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarella.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!"


Cesário Verde



A depressão impedia Malvasia Madrugada de dormir havia mais de três anos.
Desde que o Conde partira, levando consigo dois quilos de caviar beluga que ela comprara para a abertura da exposição e que lhe tinham custado uma pequena fortuna, nunca mais soubera o que era fechar os olhos e descansar das penas diárias.
O médico receitava-lhe todos os meses um novo anti-depressivo, e mais um ansiolítico diferente, e um soporífero cada dia mais forte, que ela tomava às mãos-cheias, como se fossem m&m’s.
Ao princípio, quando a insónia se instalou, doíam-lhe os olhos permanentemente abertos e alerta, macerados pelo escuro da noite. Depois, começou a fazer pensos com algodões embebidos em água de rosas e rodelas de pepino. Melhorou.
O Conde nunca mais dera notícias. Malvasia continuou a abrir a galeria e a vender os quadros. O negócio corria bem, os mais caros eram os que melhor se vendiam.
Perguntava muitas vezes a si mesma, em silêncio, porque raio levara ele o caviar. Não conseguia uma resposta razoável.
Um dia um homem entrou na galeria. Trazia uma caixa com uma dúzia de garrafas de champanhe. Abriu uma e convidou-a a beber com ele.
Malvasia aceitou e foi buscar um pão-de-ló que tinha no escritório. O homem olhou para ela e apontou para o quadro que mostrava um grande ramalhete rubro de papoulas:
- Verde? – Perguntou.
Malvasia estranhou mas pensou que o homem fosse daltónico. Não associou a cor ao apelido do poeta.
- Não, vermelho. – Respondeu.
O homem não disse mais nada e bebeu o seu champanhe devagar.
Malvasia quis justificar-se enquanto oferecia ao homem uma fatia de pão-de-ló:
- Já não tenho caviar.
O homem não respondeu. Tirou o livro de cheques do bolso e passou-lhe um cheque na quantia que constava na pequena etiqueta, ao lado do quadro.
- Quer que o embrulhe?
- Não. – Respondeu o homem. – É para consumir aqui mesmo.
Então, Malvasia tirou o quadro da parede e deitou-o no chão sobre a grande carpete persa que cobria boa parte do soalho. O homem sentou-se ao lado do quadro e colocou perto de si a caixa com as garrafas de champanhe e o prato do pão-de-ló. Estendeu a mão e apresentou-se:
- Barão de Merlot-Blanc.
Malvasia apertou-lhe os dedos longos e finos como se fossem de mulher e sentou-se a seu lado.
- Malvasia Madrugada.
Quando a noite caiu, Malvasia esquecera o Conde e os dois quilos de caviar beluga que lhe tinham custado uma pequena fortuna. Escorregou pelas costas do Barão, anichou-se sobre a carpete persa e adormeceu suavemente.

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