quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O CASTING

Por Madalena S.


Desceu do eléctrico atirando as pernas esguias em voo para a calçada de basalto. Deu uma ligeira corrida equilibrando-se misteriosamente nos saltos agulha de dez centímetros e fugindo à chuva que, persistente como testemunha de Jeová, caía sem parar há dois dias.
Entrou na pastelaria a sacudir a volumosa cabeleira ruiva que fazia os homens virarem a cabeça quando ela passava, provocadora, atiçando aquele fogo abrasador sobre os ombros leitosos, qual Rita Hayworth da Pontinha.
Olhou em volta procurando com os olhos semicerrados em cada uma das mesas e descobriu-o ao fundo, sentado em frente de uma meia-de-leite e mastigando uma bola de Berlim de onde o creme amarelo-gema caía em pingo farto sobre o jornal que folheava ao mesmo tempo.
Atravessou o espaço comprimindo-se entre as mesas, ligeira, fresca, com aquele ar dengoso de vamp de filme negro e sentou-se na cadeira em frente dele que só nessa altura levantou os olhos do jornal e pareceu dar pela sua presença.
- Então? – Perguntou ele com ar inquisidor, contudo mais curioso que preocupado.
- Ficaram de me avisar mas correu muito bem.
- ‘tão mas não sabes nada ainda?
- Ó filho, o casting ainda está a andar. Só amanhã é que acaba.
- Ah… – e ele pareceu desmotivar-se, como se o adiamento da resposta esperada lhe tivesse aniquilado qualquer resto do interesse que havia manifestado.
- Mas eu tenho a certeza que eles me vão escolher. O realizador estava lá e olhou muito para mim. Já pensaste? Eu, numa novela! Só de antever a inveja daquelas lambisgóias lá do Centro, quando souberem… uiii, espero que as mulas não me agourem!!
Então, ele voltou a folha do jornal, com vagar, e sentenciou, sem levantar os olhos da crónica que desancava o seleccionador nacional:
- Bom, mas enquanto não és uma estrela da TV, vai é andando para casa e põe o almoço ao lume que são mais que horas!

3 comentários:

Fernando disse...

Entre a vida das telenovelas e a vida real vai uma grande diferença.
Assim como os projectos pessoais esbarram muitas vezes nas coisas mais simples.
Poderá dizer-se até que a cena de "O Casting" poderia integrar uma telenovela, mas duvido muito que a técnica audiovisual conseguisse descrever de forma tão brilhante a cena do café e do creme da bola de berlim, por exemplo. Isto já para não falar do glamour da protagonista...

Fernando disse...

Então a gaveta continua fechada?

Ana disse...

Faço ideia... A cara do seleccionador nacional cheia de creme de bola de berlim!!! eh eh
bjs