segunda-feira, 28 de abril de 2008

A MANIF

Por Madalena S.


Penteou as melenas ralas, pintadas de negro asa de corvo, de baixo para cima marcando um risco ao lado, logo acima da orelha esquerda, tentando com isso esconder a calva extensa e luzidia. Ajeitou a t-shirt com as cores da Selecção sobre a barriga protuberante, passou a mão pelo bigode e admirou-se ao espelho com gosto – sentia-se bem apesar de já ter entrado nos sessenta.
A viuvez chegada há cinco anos deixara-o mais livre e, apesar de sentir saudades da patroa, não podia deixar de pensar que nunca tirara tanto proveito da vida. Tinha o colesterol um bocado alto, é verdade, mas a máquina estava a funcionar bem e ainda se sentia vigoroso.
Gostava de apreciar as pitas novinhas que passavam em frente do café do Hermenegildo a mostrar os umbigos entre as calças descaídas e os tops subidos, os dedos ágeis a dançar sobre os telemóveis, alheias aos efeitos provocadores dos seus andares sinuosos.
Ria-se com a rapaziada das piadas um bocado alarves sobre uma ou outra, mas também não dava ao assunto mais importância do que isso. Com alguma regularidade visitava a Elvira que também já conhecera melhores dias mas a quem sobrava em experiência e conhecimento do que um homem gostava, o que já ia faltando em beleza e elegância física.
Calçou os ténis brancos novos que comprara na véspera na Feira da Ladra e vestiu o blusão de cabedal, já coçado, trazido de Ceuta na última excursão organizada pelo Vítor Ginjinhas – Deus tenha a sua alma! – já lá iam bem uns quinze anos.
Deitou alpista no comedouro do canário, fechou a janela e, pegando na bandeira vermelha enfiada num tubo de pvc branco e enrolada atrás da porta da rua, saiu de casa em direcção à paragem de autocarro.
Ao virar da esquina encontrou o Zé Manel que vinha a descer do outro lado, também de bandeira ao ombro.
- É pá, também lá vais?
- É pá, tem de ser! Os gajos andam a abusar!
- É mesmo, pá! Se a malta não se põe a pau, ‘tamos aqui ‘tamos a levar c’o a PIDE em cima outra vez!
- É pá, podes crer!
- No 1º de Maio, não falho, pá!
- É pá, eu também. A Manif do 1º de Maio é sagrada!
- Olha lá, vamos aqui ao Hermenegildo beber uma mini antes de apanhar o autocarro!
- Pode ser. Achas que o gajo já tem caracóis?
- É pá, é gajo para isso.
- Ando cá com uma vontade de abichar uns caracóis…
Entraram no café do Hermenegildo e sentaram-se na mesa do Cana Brava, do Raul Estivador e do Domingos, todos eles apetrechados com as respectivas bandeiras vermelhas enfiadas em tubos de pvc branco.
Às onze da noite, quando regressou a casa, ia satisfeito como um gato a lamber os bigodes molhados de leite, o papo cheio de caracóis e minis, mas com a alma ligeiramente carcomida pelo remorso. Afinal, o 1º de Maio era sagrado e ele acabara por faltar à Manif, mais uma vez.
- É pá, p’ró ano não entro na tasca do Hermenegildo dê lá por onde der. Porra, é todos os anos a mesma coisa!

2 comentários:

Ana disse...

Parece que o tempo anda contagioso... Agora só se fala em revoluções e manifs! Ainda mal saímos de Abril e já está ela a preparar o 1º de Maio!! Só espero que um dia destes o blog não mude de nome para a "Gaveta do Comuna"!!
Agora, um aspecto curioso desta história que me chamou a atenção... Mas afinal que história é essa de "abichar" os caracóis?
Como é que isso se faz?
Os caracóis não são hermafroditas?
E o que é que os caracóis têm a ver com o 1º de Maio?
E onde estavam os caracóis no 25 de Abril?
hein?

Dalva M. Ferreira disse...

Como diríamos de cá do outro lado do oceano: rachei o bico de tanto rir.