quarta-feira, 16 de abril de 2008

O PIANO

Por Madalena S.


Sentou-se no banco baixo em frente do piano, colocou os pés a jeito de chegar aos pedais e passou as mãos pelas teclas, carregando ao de leve, apenas para produzir um som ligeiro, sem grandes variações de tom.
Depois fez umas escalas: subir e descer, subir e descer, subir e descer. Esteve assim durante quinze minutos, mais coisa menos coisa. Calculou que seria o tempo suficiente para exasperar o vizinho de cima.
Parou e ficou à escuta. Estranhou não ouvir a costumada pancada com o cabo da vassoura no soalho. Pensou que ele não estaria em casa e sentiu-se frustrada por ter estado a perder tempo. Vasculhou sobre a tampa do piano à procura da pauta que lhe interessava. Quando ficava nesse estado, enraivecida com alguma coisa, impotente perante um problema, gostava de atacar a Polonaise de Chopin, carregando no heroísmo, batendo nas teclas com a fúria com que desejaria abalroar a cabeça do vizinho, completamente surdo perante a beleza dos sons.
Com a última nota exalou um suspiro como se a alma lhe tivesse saído do corpo com a música e ficou de olhos fechados no silêncio, à espera, como os gatos esperam pelo ratos no escuro das casas velhas.
De cima não chegava nenhum ruído. Definitivamente o homem tinha saído.
Respirou fundo, abriu a janela e sentou-se novamente ao piano mas, sem conseguir concentrar-se, a música não acontecia.
Faltava-lhe aquele som surdo das pancadas do andar superior que funcionavam quase como um metrónomo pelo qual media o ritmo dos sons que produzia.
Deixou-se ficar assim o resto da tarde, a esforçar-se num dedilhar do marfim das teclas, sem pressa, agora um nocturno, depois uma valsa, um prelúdio… Chopin, sempre. Era uma apaixonada, quase obcecada, por Chopin.
Ao crepúsculo, quando já mal via na penumbra da sala, levantou-se de novo para ir fechar a janela e ouviu passos na escada.
O coração saltou-lhe no peito, inexplicavelmente. Correu para a porta e abriu-a no preciso momento em que o vizinho de cima se preparava para tocar à campainha.
- Sim? – Perguntou fazendo-se desentendida.
O vizinho estendeu-lhe um embrulho e pediu-lhe com voz morna de quem está disposto a qualquer coisa para chegar ao seu destino:
- Comprei-o para si. Eu gosto muito do piano. Só não aprecio o reportório.
Ela aceitou o objecto e desembrulhou-o com pressa, rasgando o papel barato de fantasia.
A capa do CD mostrava Oscar Peterson ao piano numa jam session de um club de jazz de Chicago.
Sorriu maliciosa e deu meia volta sobre si mesma. Caminhou em direcção ao piano, consciente de que o vizinho, estático sob a ombreira da porta, apreciava os movimentos ondulantes do seu andar.
Sentou-se mais uma vez na banqueta baixa e começou a improvisar sobre a melodia de You look good to me.
E então voltou-se para a porta, viu o sorriso apalermado do vizinho e gritou-lhe sobre a música:
- Já podia ter dito!
Ele entrou e fechou a porta com um toque certeiro do calcanhar.

3 comentários:

N disse...

Excelente blog Madalena! Só tens que arranjar tempo para o manteres activo. Fica agora com o meu texto favorito, atribuído a Charlie Chaplin:

"A coisa mais injusta na vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para a frente. Nós deveríamos morrer primeiro, para ficarmos logo livres disso. Daí viver num asilo, até sermos chutados de lá para fora por estarmos muito novos. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então trabalharíamos 40 anos até ficarmos novos o suficiente para poder aproveitar nossa reforma. Aí curtimos tudo, bebemos bastante álcool, fazemos festas e preparamo-nos para a faculdade. Depois vamos para o colégio, temos várias namoradas, viramos crianças, não temos nenhuma responsabilidade… tornamo-nos um bebezinho de colo, voltamos para o útero da mãe, passamos os últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um óptimo orgasmo!!! Não seria perfeito?"

Se tiveres tempo e disposição passa no meu blog www.xaropeconstipado.blogspot.com

Beijinhos

Ana disse...

e depois? e depois?!

Paula Magalhães disse...

Minha querida,
Esta foi seguramente a melhor surpresa liter�ria dos meus �ltimos e futuros tempos. Li os seus contos e quando cheguei ao �ltimo invadiu-me uma sensa�o de saudade por t�o rapidamente ter terminado. Percebo agora quando no outro dia me dizia que para si escrever n�o � um acto de sacrif�cio, mas antes de prazer. Foi um prazer comovente o que senti quando entrei nestas pequenas grandes hist�rias, cujos tra�os de vida esbo�am a pluralidade de caminhos de cada um de n�s. H� algo na sua escrita que me faz sentir acompanhada.
Um forte abra�o.
Paula M.