quinta-feira, 1 de maio de 2008

ADEUS, CASABLANCA!

Por Madalena S.


A chuva batia na janela com um barulho insistente de patinhas de gato sobre soalho envernizado.
Há três dias que a manhã surgira cinzenta e de céu pesado e se transformara em tardes e em noites igualmente plúmbeas. Na véspera, o universo abrira-se em água que ainda não parara de cair e transfigurava as ruas em rios.
Rick encostou a testa ao vidro frio e ficou a ver a rua vazia de movimento e os riscos oblíquos da chuva sob a luz amarela do candeeiro no passeio em frente.
O fumo do cigarro pousado no cinzeiro sobre a secretária atrás de si desenhava no ar arabescos complicados.
Continuava a acordar todas as noites alagado em suor, atormentado pelo pesadelo persistente do avião de Ilsa voando em direcção à noite e ao desconhecido.
Bateram à porta. Voltou-se, foi abrir e deixou entrar o visitante nocturno.
- Senhor Pereira… I presume?
- Mister Blaine… é uma honra. Dizem-me que fala português.
- Entre outras coisas.
- E dizem-me que está disposto a … cooperar connosco. Abandonou Casablanca, definitivamente?
- Digamos antes que Casablanca me expulsou definitivamente. A mim e ao meu amigo Louis Renault.
- Ele está aqui consigo, em Lisboa?
- Hoje em dia somos inseparáveis.
- Victor Lazlo deu-nos o seu nome, na sua passagem por Lisboa. Foi uma fatalidade a sua morte em tão trágicas circunstâncias. E uma perda irreparável para os movimentos de resistência. Por isso é tão importante para nós a sua colaboração.
- A minha colaboração está garantida mas os senhores ficaram de me dar informações úteis sobre certa senhora.
- Com efeito.
O Senhor Pereira tirou um papel dobrado do bolso do casaco e entregou-lho enquanto voltava a pôr o chapéu e se dirigia para a porta.
- Nesse papel encontra as instruções iniciais para a sua missão.
Abriu a porta e saiu. Rick olhou para o papel dobrado na sua mão direita e depois levantou de novo os olhos para a porta que o outro deixara aberta e viu-a, recortada na ombreira fracamente iluminada pelas luzes do corredor:
- Hello, Rick.
Ilsa entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, deixando Casablanca no passado de uma vez por todas.

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