domingo, 18 de maio de 2008

DONA DINDINHA

Por Madalena S.

Para a Bé.
Vida longa e de sucesso para o seu Paleta de Sabores.

Dona Dindinha nascera em Itacaré, na confluência do Rio das Contas com o Atlântico, sul do estado da Bahía, filha mais velha de família modesta.
Em menina, antes da chegada dos turistas, liderava o bando da criançada que, na praia da Coroinha, bem no centro da vila, jogava futebol no areal escuro e mergulhava nas águas frescas sem medo da poluição que mais tarde passara a afastar os visitantes para as outras praias, pequenos paraísos incrustados nas imediações.
Os moleques habituaram-se às suas ordens enérgicas e ao seu jeito de bola, e havia lutas renhidas, no momento de seleccionar as equipas, com o objectivo de escolher Dindinha, invariavelmente a estrela da partida, artilheira hábil com goleadas memoráveis na sua história de vida.
A família de Dindinha vivia do cacau, à excepção dos irmãos de sua mãe, seus tios Vicente e Joaquim da Cruz Ferreira, que eram pescadores e tinham cada um o seu barco.
Nos anos setenta, com a chegada da Vassoura-de-Bruxa e a morte de muitos pés de cacau vítimas da praga, os pais de Dindinha fugiram à miséria que assolou a região e rumaram ao Rio de Janeiro, levando consigo os nove filhos dos quais o caçula ainda nem caminhava, ajustado ao colo da mãe e dependendo da mama materna para sobreviver.
No Rio de Janeiro, Dindinha acabou de crescer na favela, por entre os malandros do Rio, enquanto tomava conta dos irmãos e do pai permanentemente toldado pela bebida, depois da mãe se ter fartado e ter fugido com um cantor de tangos argentino que passou pelo Teatro Carlos Gomes numa revista musical no início dos anos oitenta. Dindinha fez-se uma mulher bonita, vistosa mesmo, nos seus vestidos simples de algodão, colados ao corpo moreno, exigindo ao espírito que adivinhasse o que mal cobriam. Quando passava na rua, Dindinha fazia os homens voltarem a cabeça e seguirem-na com o olhar guloso.
João Sebastião era bicheiro na favela de Dindinha. Tinha um andar gingão de marinheiro aposentado, um bigodinho fino por cima do lábio, à galã de cinema dos anos quarenta, e o olho pousado em Dindinha desde que ela lhe passara à porta, certa tarde chuvosa e quente, carregando uma trouxa de roupa usada que lhe tinham dado para os irmãos.
Depois dessa tarde, João Sebastião não descansou enquanto não falou com ela. Conversa mole, dengosa mas gostosa de ouvir. Dindinha foi na conversa.
Dois anos depois estava a viver com o bicheiro, trazia um filho no colo e outro a caminho na barriga rotunda.
Todos os dias, quando acordava, João agradecia aos céus a presença de Dindinha. Para além das noites de lutas esgotantes na cama – Eta, mulher brava! – o homem retirava da convivência com a companheira o prazer adicional da mesa que descobrira quase por acaso. Dindinha tinha mão para a panela e cedo se tornaram famosos os seus petiscos baianos. Não havia um dia em que Dindinha não tivesse de cozinhar para alimentar as dezenas de bocas que lhe passavam em casa, amigos e compadres de João, os capagangas, os irmãos, os filhos.
- Dona Dindinha, quando é que tem vatapá?
- Dona Dindinha, faz um acarajé p’ra amanhã!
- Dona Dindinha, eu quero moqueca de camarão, pode?
Dindinha não dizia nada e cozinhava apenas. João Sebastião teve de aumentar a cozinha, estender para trás mais uns metros e arranjar outro fogão, mais panelas e duas ajudantes.
A fama de Dona Dindinha e sua cozinha baiana começou a descer da favela e estendeu-se pela cidade. Organizou-se um circuito de visitantes. A palavra passou e até gente fina começou a ir à favela provar o xinxim de galinha ou o jabá com jerimum de Dona Dindinha.
Um dia, depois de muita banana frita e muito arroz com feijão, depois de muitos anos na frente do fogão, carregando penas e filhos, Dona Dindinha chamou João de lado e falou assim:
- João Sebastião, ‘tou farta de cozinhar para essa turba faminta que não dá valor e ‘tou farta de sustentar vadio desocupado. Vou embora.
- O quê?
- Vou embora. Comprei um espaço – agora se diz assim – no Leblon, vou abrir um restaurante, tocar minha vida p’ra frente!
- O que é que tu ‘tá dizendo, mulher?
- O que tu ouviu.
E, pegando num saco de viagem pequeno, agarrou no guarda-chuva e, da porta, virou-se para trás e esclareceu:
- Se tu quiser, pode ir me visitar. Procura o Chez Dindinha. Vai ter cozinha de autor, bem criativa mas a partir da tradição baiana. Aparece.
Só dez minutos depois João Sebastião conseguiu fechar a boca – o espanto fizera seu queixo cair – e abrir a porta que ela fechara atrás de si. Olhou para a rua, a tempo de a ver desaparecer lá bem no fundo, na esquina do beco com a avenida grande.

2 comentários:

Dinis Lapa disse...

Muito giro. Há que lutar pelos sonhos e fazer pela vida, mesmo que se venha, aliás, especialmente se se vier da favela.


Já agora, para quando enveredar pela escrita de haikus? :P

Lígia Luís disse...

Gostei da Dindinha e gostei de vê-la a lutar pelos seus sonhos ... os sabores cativam-nos e por isso espero, como tu, que a Bé cative agora pelos sabores ... tu cativas-nos pelas palavras ...bem, não só ... continua...
jinhos
Ligia