sexta-feira, 2 de maio de 2008

PICASSO

Por Madalena S.


O zunido estridente do despertador soou-lhe aos ouvidos durante alguns instantes antes de perceber que eram horas de acordar. Levantou a mão e deu uma sapatada no botão de desligar.
Agradecendo intimamente o súbito silêncio, abriu os olhos com esforço e estranhou a luminosidade cinzenta do quarto. Pensou que o inverno já devia ter partido mas, com as mudanças de clima, nada mais natural que um dia chuvoso na Primavera adiantada para condizer com o seu estado de espírito.
Contudo, quando abriu a janela sentiu que alguma coisa não estava bem. O cinzento era demasiado evidente. O cinzento em vários tons e o preto e branco a dominar todo o cenário exterior.
O céu estava limpo, nem uma nuvem à vista, mas não era azul, era cinzento claro e o sol não brilhava antes se apresentando como um disco negro empoleirado naquela tela gigante a uma cor.
Agarrou-se com força ao parapeito e espreitou as pessoas que passavam apressadas: ninguém tinha um laivo colorido que fosse, nem na roupa, nem na face, nem nos cabelos – nada!
Sentiu-se a folhear o álbum de fotografias da avó, velhos daguerreótipos a preto e branco do início do mundo.
Voltou para dentro e mirou o quarto à sua volta. Tudo era ausência de cor. Ele próprio, reflectido no espelho alto da parede, mostrava a palidez do preto e branco. Passou as mãos no pijama onde os quadrados azuis e verdes que vestira na noite anterior se tinham transformado em vários tons de cinza.
Quis gritar mas o som não saía. Entrou na casa de banho e lavou a cara com água fria, tentando afugentar o pesadelo que lhe atormentava o sono do qual, tinha agora a certeza, ainda não escapara. O sabonete era preto, a pasta de dentes cinzenta, as toalhas brancas.
Um terror indizível invadiu-o.
Vestiu à pressa a roupa que encontrou à mão e saiu a correr em direcção à sua Harley Davidson, estacionada na garagem.
Quando a montou e ligou o motor, viu um flash de luz colorida diante dos olhos. Piscou-os muito rapidamente e acelerou em direcção à rua.
E então, à medida que a potência da mota o levava para o outro lado da cidade, começou a distinguir pontos vermelhos nos locais por onde passava. Primeiro eram apenas pequenas manchas. Depois aumentaram, tornaram-se apontamentos de maior vulto – um casaco, uma mala, a porta aberta de um automóvel. A seguir ao vermelho começou a aparecer o amarelo, também pontualmente. E, de repente, percebeu que ambas se misturavam porque detectou vários cenários laranja.
Continuou a andar por toda a cidade até que, no final da manhã, a cor voltara a todos os locais e coisas e pessoas.
Nesse dia percebeu qual era o seu papel no mundo.
Agora, levanta-se diariamente e, seja qual for o estado do tempo, monta na sua Harley e percorre a cidade até a conseguir pintar com todas as cores da vida. Está esperançado em que um dia será capaz de fixar a cor para então se aposentar.

2 comentários:

Fernando R. disse...

Colorir o mundo...um trabalho sem fim. Assim como a vida, e tudo...

Anónimo disse...

Cá para mim, o gajo, além de daltónico também devia ser surdo ;-)