domingo, 4 de maio de 2008

TANGO!

Por Madalena S.


O único candeeiro no beco estreito – um dos muitos que levavam às docas – espalhava pelo empedrado da rua uma luz amarela e mortiça que mal dava para iluminar a esquina do prédio degradado e sujo que outrora ostentara uma alegre cor azul-cobalto.
Por cima da porta baixa e pintada de escuro, apenas um tubo de néon vermelho e retorcido anunciava El Café de Paris e, por baixo, em letras mais pequenas, Ballroom.
Aconchegou a gola de pele ao pescoço para se proteger da humidade densa que subia das águas negras do Rio de La Plata, ali mesmo ao lado, e entrou.
Procurou uma mesa vaga, tirou o casaco que pousou a seu lado, sentou-se na beira da cadeira e, num murmúrio, pediu um mate ao empregado velho que arrastava os pés.
No fundo da sala de tectos baixos forrados de espelhos em molduras arte nova sustentados por meia dúzia de colunas a condizer com o restante estilo, sobre um estrado de dois por dois e diante de um reposteiro pesado de veludo carmim, sete músicos tão antigos como o resto do ambiente apertavam-se entre si para tocarem dois bandoneons, três violinos, uma viola e um piano alto enquanto no centro da sala os pares de dançarinos revolteavam nas dobras do tango em contorções acrobáticas.
Sentou-se mais à ponta da cadeira, se tal ainda fosse possível, e muito devagar, de modo quase imperceptível, esticou a perna esquerda, o bico do sapato bem assente no chão, fazendo um arco elegante com o peito do pé magro.
Ele estava do outro lado da sala, de pé, encostado a uma das colunas mais recuadas, meio escondido na sombra e viu-a logo, assim que ela entrou.
Seguiu-a com o olhar moreno de porteño diletante e percebeu o movimento discreto do pé.
Atravessou a sala na sua direcção e viu-a estremecer ligeiramente, como se o frio da rua tivesse entrado no seu encalço.
Fez-lhe um aceno suave com a cabeça e ela levantou-se e caminhou ao seu encontro. No centro da pista, enlaçou-a pela cintura e dobrou-lhe o corpo esbelto como se fora um vime jovem.
O som dos bandoneons cruzava o ar e deixava nas almas o lamento triste da canção.
Então, sobre todos os outros sons, o grito claro no megafone:
- CORTA!!!
De todos os lados surgiu a luz e o ar encheu-se dos ruídos próprios do estúdio em efervescência.
- Muito bem, meninos! – Elogiou o realizador por trás dos óculos grossos com aros de tartaruga. – À quinta foi de vez. Estou satisfeito, não vamos repetir.
- Graças a Deus! – Suspirou ela. – Os meus pés matam-me.
E, tirando os sapatos próprios para dançar, caminhou descalça, num passinho miúdo, para a mesa do fundo onde estavam pratos com bolinhos e pãezinhos quentes e garrafas termo com café e chá, pedindo em voz alta:
- Lolita, filha, dá-me um cafézinho bem quente, com uma pinguinha de leite.

4 comentários:

Nuno disse...

Até agora, o meu favorito. Adorei os momentos de descrição.

Se o mundo editorial não te descobrir antes vais fazer capa da minha revista. Ah se vais!

Madalena S. disse...

Nuno,
mesmo que o mundo editorial me descubra antes, será uma honra para mim fazer a capa da tua revista!
Um abraço.

Dinis Lapa disse...

És bastante descritiva, e isso nem é bom nem mau. É o que é, e eu gosto.

hei-de viver em Buenos Aires

Fernando R. disse...

Nem sei o que dizer. Arrebatado pelo ambiente tão bem descrito, sou confrontado com o fim da magia e o regresso à realidade, a uma outra realidade bem diferente.
Magistral a forma como descreves o ambiente do salão e do convite para a dança.
Quanto ao chá...o que dizer do chá e bolinhos?