terça-feira, 3 de junho de 2008

ÁGUA DE MAR

Por Madalena S.

Era Outubro e chovia sem parar há três dias quando ela nasceu.
Foi certamente por causa dessa condição líquida em redor da sua vinda ao mundo que, uma semana depois de cá estar, a mãe lhe encontrou, à hora do banho, umas pequenas membranas entre os dedos dos pés. Era palmípede!
Cresceu com pés de pato e um andar a condizer, rebolando os quadris estreitos e arrapazados, e com uma natural apetência por tudo quanto era água, doce ou salgada, mansa ou agitada, fria ou quente, mineral, com gás, sem gás, em estado líquido ou sólido.
Um dia, o pai foi nomeado Cônsul Geral das Províncias na Ilha de Zanzibar.
O Índico passou a exercer sobre ela uma atracção descontrolada.
Tiveram de contratar uma negra que só tinha uma perna mas falava um inglês perfeito com voz de cortesã do antigo Egipto, para a vigiar e impedir de entrar no mar e desaparecer no horizonte fluido.
No dia em que fez dezasseis anos, conheceu o príncipe de Dar-es-Salam que viera à ilha, viajando incógnito num barco de pescadores.
Encontraram-se debaixo de um embondeiro gigante à beira da estrada e, nessa noite, fugiram embrulhados na falta de luz e enganando a negra que, por só ter uma perna, não conseguiu correr o suficiente para os interceptar.
Não voltaram a ser vistos mas há quem garanta que na costa oriental de África, de Moçambique à Etiópia, nas noites de lua cheia é possível ver uns vultos nadando incansavelmente junto às praias. Um deles é o príncipe de Dar-es-Salam. O outro, ninguém tem a certeza mas muitos pescadores afiançam que se trata de uma sereia com pés de pato.

2 comentários:

Anónimo disse...

Esta tua personagem é que podia vir tirar o nosso mestrado: é que só mesmo com membranas intersticiais é que se consegue manter à tona ;)

Beijinhos,
Filipa

Ana disse...

A sereia em questão... Será alguma parente dos gansos patolas?
Fiquei com pena foi da velha... Tinha um ar de ser porreira, egípcia e tal...
bjs