sexta-feira, 25 de julho de 2008

WWW.

Por Madalena S.

Tinham marcado encontro à porta do D. Maria II, às sete e meia. Ela iria de saia roxa e camisola preta e ele de calças cinzentas e camisa verde água.
A Internet tinha destas coisas, esta possibilidade de marcar encontros com gente desconhecida, a aventura do viver no limite, o perigo de ignorar as consequências, o desatino da juventude irrequieta.
Ela decidiu chegar primeiro. Queria escolher uma posição estratégica de onde pudesse mirar-lhe a aproximação, eventualmente fugir dali a sete pés se o que visse não lhe agradasse.
Ele decidiu mais ou menos a mesma coisa de modo que às sete já lá estavam ambos, um de cada lado da fachada do teatro, olhando a grande praça em frente e tentando lobrigar os desconhecidos que se aproximavam.
Ao fim do primeiro quarto de hora começaram a alargar a área de pesquisa visual para as laterais e os respectivos olhares acabaram por se cruzar, inevitavelmente.
Dirigiram-se então um para o outro, um pouco a medo, em passos incertos, franzindo o sobrolho e tentando perceber se a saia era mesmo roxa e a camisa mesmo verde água.
Quando se encontraram frente a frente, tentaram sorrir embora se sentisse algum constrangimento a envolvê-los.
Ele acabou por falar primeiro:
- Bom, não devo corresponder exactamente ao que esperavas, mas…
- Pois, de facto… não és bem como eu te tinha idealizado mas… por outro lado, eu… também…
- Sim. É verdade. Também estava à espera de alguém… diferente, digamos assim.
- Pois é. E agora?
- Ora… agora nada impede que continuemos como tínhamos planeado. Não queres ir jantar?
- Sim, quero. Vamos.
Ele deu-lhe o braço e voltaram-se, começando a caminhar em direcção à Rua das Portas de Santo Antão. A bengala na sua mão direita ajudava-o a equilibrar o peso do corpo e a marcar a cadência dos passos miúdos de ambos.
- Afinal, em que ano é que nasceste? – Perguntou ela curiosa.
- Um ano antes de começar a Guerra. E tu?
- Um ano depois de acabar a Guerra.
- E como é que descobriste esta coisa da Internet?
- Com a minha neta. E tu?
- Na Universidade Sénior.
E continuaram em direcção ao Solar dos Presuntos.

3 comentários:

Ana disse...

Um verdadeiro mimo!! Uma revelação de criar sorrisos até às orelhas!! A vida não seria tão melhor se tudo fosse assim tão simples?! Adorei!
beijinhos

janete disse...

Um final surpreendente que só revela a nossa inflexibilidade em colocar esterótipos... gostei, pronto!

mãe do Leonardo disse...

muito bom!!!