domingo, 3 de agosto de 2008

CHOCOLATE

Por Madalena S.

Quando o Barata ficou viúvo, ao fim de 40 anos de casamento desinteressado e desinteressante, o Costa – amigo de sempre – aconselhou-o a arranjar um cão.
- “Sempre é uma companhia!” dizia, procurando consolar o parceiro de dominó sem perceber que, na sua recente condição de celibatário forçado, o que o Barata mais vinha apreciando era precisamente a ausência de companhia. Temeroso da crítica se se percebesse que o seu desgosto era de lágrima difícil, o Barata resmungava um “não sei, não sei”, mas acabou por ceder. O Costa arranjou-lhe um rafeiro de pata rasteira e pêlo crespo e acastanhado que, em baptismo colectivo numa tarde de dominó acérrimo, recebeu o nome de Chocolate por causa da cor e de uma certa doçura que lhe transparecia no olhar canino e inevitavelmente fiel.
Seis meses depois, o Barata e o Chocolate estavam em plena lua-de-mel e o viúvo, não sem algum constrangimento à mistura, dava consigo a pensar que a sua relação actual era substancialmente mais feliz que a anterior.
Até à noite em que acordou em sobressalto e, ao seu lado na cama, sentiu um rosnar ameaçador.
Acendeu a luz e estranhou o olhar do cão, amarelo de rancor, o beiço levantado a mostrar os caninos ferozes, e aquele ronco interior que não prenunciava nada de bom. E então sentiu a alma a empapar-se em suores frios quando o bicho abriu a boca e lhe disse, numa voz que ele reconheceria em qualquer lado como a da sua falecida Zulmira:
- “Com que então, achaste que te livravas de mim? Pois estás muito enganado! Agora é que vais ver como elas te mordem!”

2 comentários:

Ana disse...

Coitado do Barata.......

Anónimo disse...

Eu gostei muito do conto. Sempre tiveste um jeito especial para contos. E este, para além de divertido e do desfecho inesperado, flui com uma escrita apetitosa (ou não se chamasse chocolate).
Beijos, com saudades.
RL