terça-feira, 5 de agosto de 2008

O ENGENHEIRO

Por Madalena S.

O engenheiro chegou ao gabinete e atirou com a pasta para cima do sofá de couro, polido pelo tempo e pelos milhares de fundilhos de vários tipos e texturas que por ali tinham já passado.
Sentou-se à secretária, um móvel imenso, três metros quadrados de superfície encerada sobre a qual assentavam algumas pastas de cartão contendo os documentos a despacho.
Com dois dedos enfiados no colarinho, alargou o nó da gravata, desapertou o botão de cima e bufou, expulsando o ar dos pulmões com o vigor que a raiva costuma dar a esse acto.
O engenheiro não estava satisfeito. Não estava mesmo nada satisfeito.
A reunião do conselho deixara-o nervoso e frustrado perante a sua notória impotência para fazer passar a proposta, a única proposta que tinha cabimento no contexto com o qual se debatiam. Aquela cambada de incompetentes não conseguira perceber o alcance das medidas que lhes expusera como uma tábua de salvação para a situação periclitante em que se encontravam.
O pacote era aquele. Não havia outras opções. Não havia alternativas.
- Não me parece bem que as medidas sejam aplicadas em pacote! – Contrapusera o anormal dos transportes. Por causa dele é que algumas das coisas tinham chegado àquele ponto, ele que não conseguira controlar as transportadoras, com as mercadorias a acumularem-se nos armazéns. E agora saía-se com aquela de não concordar com o pacote.
E o imbecil do doutorzinho responsável pela segurança também não ajudara em nada, antes pelo contrário. Nem a estúpida da gaja da formação, o estafermo.
Nem um, nem um se aproveitava. Estava rodeado por imbecis que não viam dois centímetros para além daquilo que lhes era posto diante do nariz. Não tinham capacidade de antecipar, de prever os resultados.
Claro, ele, que era engenheiro, sabia fazer cálculos, projectar no espaço. Se algum daqueles totós tivesse desenhado uma moradia que fosse, como ele fizera, tantas, quando começara, agora não viriam com aqueles argumentos de pacotilha.
O engenheiro bufou outra vez e, levantando o auscultador do telefone, marcou o número da extensão interna.
- Isabel, chegue aqui.
A assistente, loura, esguia, enfeitada de colares e pulseiras brilhantes, unhas de gel de vários centímetros, entrou no gabinete e, sem dizer nada, aguardou pelas ordens.
O engenheiro, então, voltou-se para ela e disse-lhe:
- Isabel, vamos fazer um memorando interno: a partir de hoje, é expressamente proibido discordar de medidas em pacote, com uma única excepção para os casos em que o pacote obrigue a procedimentos de desalfandegamento, com pagamento de portes extras e extraordinários, bem como de trabalhos suplementares que impliquem taxas e tarifas com acréscimo de penalizações e de cobrança de juros por moras e relaxes tributáveis percentualmente, ressalvando-se as situações decorrentes de penhoras e outros débitos, por ordem judicial ou que haja transitado em julgado sem que tivesse dado lugar a ressarcimento das partes, acordando-se ainda que os valores a creditar possam ser iguais ou superiores ao previsto para situações similares e devidamente acauteladas pelo quadro legal em vigor e em que, cumulativamente, se verifiquem as seguintes condições: a) que o despacho seja proferido pela tutela; b) que anualmente não se verifiquem mais do que uma e menos do que duas situações de excepção e c) que para cada situação de excepção seja produzido relatório interno circunstanciado e acompanhado de documentação justificativa da indispensável fundamentação. Tomou nota de tudo?
- Sim, senhor.
- Ah, e para não dizerem que somos complicados, simplifique e elimine o papel: mande por e-mail para toda a gente. Eu sou engenheiro, gosto de coisas simples.

7 comentários:

Ana disse...

Realmente... Há pacotes e pacotes...!! Esta fez-me lembrar "um" que eu bem cá conheço... (E tu tb!!) "Acima de tudo a simplicidade"! Sem margem de dúvidas...
um beijinho

Mar Arável disse...

O engenheiro apenas se esqueceu de uma coisa fundamental

é que na arquitetura dos sonhos

é o sonho que comanda a vida

Dinis Lapa disse...

Eu gostava de ser ditador.

beijinhos

N disse...

Cada um zela pelo seu pacote...

O Puma disse...

O engenheiro já tem um pacto

com os seus aparentados

Dinis Lapa disse...

já chega de silêncio

O Puma disse...

Então o eng ainda aqui está?