terça-feira, 7 de outubro de 2008

HOMEM COM CÃO

Por Madalena S.


Pôs a trela no cão e saiu para a volta higiénica das seis da tarde.
O final do dia, soturno e triste, chegava sob um céu cinza escuro que anunciava uma chuvada das fortes.
A dita começou daí a dez minutos. Estava ele com o cão a subir a Alameda.
Refugiou-se numa paragem de autocarro, o cão a seu lado sentado no quadril traseiro, a língua de fora e a arfar de cansaço.
Olhou para o lado e viu-a. Não era muito alta mas tinha boas proporções. A cabeleira postiça, que era evidente, dava-lhe um certo ar agaiatado e rejuvenescedor e as pernas, longas e esguias, estavam enfiadas numas botas até ao joelho, num vermelho vivo a contrastar gritantemente com o casaco preto e cintado que lhe dava pelo meio das coxas. As meias de rede completavam o conjunto preenchendo o espaço de perna deixado livre pela mini-saia assustadoramente curta.
Ela retribuiu-lhe o olhar e sorriu.
Sentiu-se um bocadinho constrangido. Virou a cabeça, como se procurasse alguém mais a quem o sorriso pudesse ter sido dirigido mas, na verdade, o que lhe interessava era perceber se havia testemunhas daquela súbita cumplicidade em resultado de um dilúvio anunciado. Não havia.
O abrigo aberto à intempérie mal protegia os ocasionais inquilinos da água que vertia do céu em cascata e pela inclinação da rua desciam agora vários hectolitros de líquido barrento que os sumidouros entupidos não conseguiam escoar.
O cão levantou-se do seu canto e ladrou em direcção à rua, enervado com o súbito temporal.
Ela chamou o animal, batendo com a mão ao de leve na coxa e fazendo um ruído seco com a garganta.
O cão baixou o focinho e dirigiu-se-lhe, procurando um mimo que lhe acalmasse a ansiedade.
- Lindo cão, lindo… - tinha uma voz baixa, cheia e de contornos suaves e, enquanto afagava as orelhas do animal, inclinada sobre ele, balbuciava palavras que o barulho da chuva o impedia de perceber mas que o cão parecia beber, encantado, a avaliar pelo modo como a cauda abanava sem parar.
Sentiu-se ludibriado. A ideia de arranjar um cão tinha partido da irmã que lhe afiançara que um canito simpático produzia um fluxo de atracção insuperável sobre o mulherio.
- Ficas a saber – dissera-lhe – que não há gaja que resista a um tipo simpático com um cão porreiro, a passear no parque com o bicho, a dar-lhe mimos… enfim… é quase tão bom como um sobrinho pequeno. E pensa bem… estás nos quarenta! Estás à espera de quê?
Nas férias, tinha ido ao canil adoptar um rafeiro que era de facto uma simpatia. Mas, passados que estavam seis meses, não notara nenhum efeito sobre o sexo oposto.
Até esse momento.
A primeira vez que o cão cumpria a função para a qual fora diligentemente adoptado e logo a parte contrária constituía recurso que poderia ter atraído de formas mais radicais, mais dispendiosas é certo, mas também menos passíveis de insucesso.
Ora, abóbora!
Enquanto mirava a conversa terna com o cão, pensava onde seria que ela iria pousar na sua vidinha andarilha, numa noite tão invernosa como a que se avizinhava.
Parecendo adivinhar-lhe o pensamento ela levantou a cabeça e disse-lhe:
- Bom, esta noite já não se consegue trabalhar. Tenho a minha gente aqui mais abaixo mas com este temporal o assunto está encerrado.
Ele sorriu mas não lhe respondeu. Não queria confusões. Não ia dar conversa. Era o que faltava.
E então, de supetão, apareceram várias pessoas, rapazes jovens, mulheres menos jovens e homens feitos, com câmaras de filmar, microfones, tripés, caixas e bobines de cabos, tentando resguardar os materiais com plásticos e procurando abrigo no mesmo apeadeiro que, de repente, ficou sobrelotado.
- Estavas aqui? – Perguntou o homem mais velho. Já estávamos preocupados. Deixámos de te ver.
- Ora, começou a chover tão de repente que só tive tempo de me abrigar aqui. Como é? Faz-se mais alguma coisa hoje?
- Nem pensar. Já mandei subir as carrinhas para guardar o material. Fica-nos a faltar a cena da esquina mas faz-se amanhã. Vai para casa e toma um banho quente que não podes adoecer.
- Ok.
- Onde tens o carro?
- Aqui mesmo em frente. Vou andando. Até amanhã.
- Até…
Tirou a cabeleira e enfiou-a no bolso do casaco. Fez uma última festa no cão e atravessou a rua a correr, entrando num Alfa Spider vermelho estacionado quase em frente.
Tão rapidamente como enchera, a paragem desertificou-se quando duas carrinhas brancas pararam e, num ápice, recolheram toda a gente e todos os materiais.
Ficou sozinho com o cão.

5 comentários:

Mar Arável disse...

Vida de cães

com o benefício para o animal

o das patas

isto é - o cão propriamente dito

Lavrador disse...

Você, quanto a mim escreve direito e bem. Parabéns!

Dinis Lapa disse...

A mulher contemporânea não quer homens com cães ou sobrinhos! A mulher contemporânea é o homem do passado.

(cada caso é um caso)

L.C. & H. F. disse...

Passei por aqui. Gostei de ler. Deixo-lhe um poema de
Tomas Tranströmer, um dos grandes poetas contemporâneos,
traduzido por mim. Do alemão porque não
sei sueco.


MARÇO DE 79



Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras
[mas onde não há uma linguagem,
Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu encontrei vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nem uma palavra

L.C.

L.C. & H. F. disse...

Ainda de novo para lhe aconselhar a leitura de um poema de Tranströmer que se encontra no meu blogue com o título: Funchal.