quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O BOLERO

Por Madalena S.


Gostava de velhos boleros, sempre gostara.
De preferência cantados por cantoras decadentes, com vozes nutridas pelos eflúvios do rum e pelo fumo azulado dos puros.
Costumava flanar pelas ruas magras da cidade, vasculhando nas lojas de velharias em vãos de escada esconsos, procurando discos antigos de vinil em que as estrias cansadas e gastas se enrolavam em espirais intermináveis e onde a agulha do seu consumido gira-discos se engasgava em soluços agonizantes.
À terça-feira e ao sábado rumava ao Campo de Santa Clara e perdia-se nas bancas da Feira da Ladra, demandando alguma novidade com mais de sessenta anos.
Um dia, vinha a descer o Bairro da Bica em direcção ao Largo de S. Paulo e, numa esquina onde se cruzavam um beco escuro e estreito com outro beco ainda mais escuro e mais estreito, viu uma porta baixa entreaberta, dando passagem para um curto corredor com as paredes cobertas de capas de discos, aguarelas e gravuras antigas, espelhos com molduras art nouveau e mais uma quantidade de pequenas bugigangas que não deixavam qualquer espaço por preencher.
Entrou de mansinho, bebendo a atmosfera como se se tratasse de oxigénio perfumado e, atravessando o corredor, desembocou num pátio interior com reminiscências de jardim de inverno ou vestíbulo andaluz.
Por todo o lado, móveis velhos misturavam-se com objectos repletos de história e de estórias, plantas naturais e artificiais, candeeiros e lampadários diversos e caixotes e caixotes de discos, LP’s mais antigos do que o próprio som.
Então, do fundo escuro da sala, como se saísse do vazio do tempo, surgiu uma extraordinária figura que primeiro lhe custou reconhecer mas que, depois de semicerrar os olhos e esticar o pescoço na sua direcção, lhe apareceu em todo o seu esplendor romântico – Serena del Rio, a Rainha da Noite!
A pérola mais rara da sua colecção de boleros era um disco de 78 rotações, editado em 1957 e que reproduzia a voz rouca e sensual da Rainha da Noite, cantando a obra-prima do grande Carlos Almaran, Historia de un amor: “Ya no estás más a mi lado, corazón… En el alma solo tengo soledad… Y si ya no puedo verte… porque Dios me hizo quererte… para hacerme sufrir más…”
Nessa época, o seu coração perdia-se na espessura das palavras e na liquidez fluida da música e todas as noites a insónia se instalava no som desse bolero fatal, macerando-lhe os olhos cansados de tanto fixarem a capa do disco onde a cabeleira de fogo vermelho de Serena del Rio se espalhava sobre os seus dedos.
E agora ali estava ela. Tanto tempo passado, tempo sem fim, incontável, tempo que lhe marcara os dias e as horas mas que parecia não ter sequer beliscado a mulher. Não tinha rugas e o encarnado da sua juba exuberante estava ainda mais vivo, se tal fosse possível.
Caminhou na sua direcção e sentiu o coração subir-lhe à boca quando a voz única lhe cantou “Siempre fuiste la razón de mi existir… adorarte para mi fue religión… en tus besos yo encontraba… el calor que me brindaba… el amor y la pasión” e, estendendo-lhe as mãos, o guiou mais para o interior daquela gruta de memórias inexplicáveis.
Nunca mais ninguém o viu. Quando a polícia o procurou pelas escadinhas da Bica, orientada pelas indicações da Adelina, criada velha que lhe conhecia os hábitos e as manias como nenhuma outra pessoa, subiu e desceu e passou várias vezes naquela esquina onde se cruzavam um beco escuro e estreito com outro beco ainda mais escuro e mais estreito. Mas a porta baixa e arruinada que dava para um pátio abandonado e despido de vida, escuro e mal cheiroso que os vizinhos garantiam estar desabitado há mais de 50 anos, guardava em si o segredo de uma história, a História de un amor, a história de um velho bolero como aqueles de que ele tanto gostava.