quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O DOUTOR

Por Madalena S.


Saiu do seu Audi último modelo depois de dar algumas ordens ao motorista e dirigiu-se apressado para as escadas do edifício sede.
Estranhou o olhar enviesado que o porteiro lhe atirou mas pensou para si que a concertação social não estava a correr como seria de esperar, pelo que era natural que os olhares não fossem muito francos.
Não estava preocupado.
Subiu ao piso da Administração e não gostou dos cochichos das Secretárias, cujo ligeiro matraquear sentiu nas suas costas.
Mas continuava sem estar preocupado.
Quando o Assistente lhe trouxe um café frio, sem o habitual copo de água e com maus modos, começou a sentir um incómodo. Coisa ligeira, nada que o preocupasse.
À hora do almoço, no restaurante habitual, esteve vinte minutos à espera de mesa! Nessa altura o incómodo transformou-se num formigueiro de ansiedade, sobretudo quando, ao fim de duas insistências, o chefe de sala lhe comunicou com cara de poucos amigos e voz de enfado que não podia fazer nada, que tinha a sala ocupada com as mesas do Doutor e da respectiva comitiva.
Nessa altura o Engenheiro começou a preocupar-se.
Porém, somente às quatro da tarde, quando recebeu a nota de demissão assinada pelo Presidente, dando-lhe conta da sua substituição pelo Doutor, é que a sua testa alta de homem inteligente se amarfanhou de verdadeira preocupação.

4 comentários:

Rogério Roque disse...

Olá Madalena!

Não sabia da existência deste teu blog. Será a primeira de muitas visitas.

Li alguns dos teus post's a gostei muito, parabéns e beijos para todos.

O Puma disse...

Neste país de engenheiros e doutores

Nesta europa do faz de conta

Sócrates ri-se

e não é de si mesmo

JOSÉ FANHA disse...

Cara Madalena~,

Muito gostei do seu post nos "7leitores" e fiquei todo satisfeito por ter mais uma parceira no prazer da leitura do Padura.

Depois, vim po aí fora e cheguei aqui. E acho que ganhou um visitante. Parabéns.

Um beijo,

José Fanha

Lavrador disse...

A sua escrita é de agradável leitura.