quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O PROJECTO

Por Madalena S.

Rabiscou duas ou três linhas sobre a folha branca, acrescentou-lhe mais uns quantos traços que vincou com a ponta da caneta, dando-lhes maior densidade e espessura, cruzou as várias rectas com algumas curvas e, afastando de si o papel, olhou-o de largo, apreciando o trabalho e abrindo um sorriso aprovador.
Voltou a folha ao contrário e apresentou o projecto com uma frase tão linear como o esquiço:
- Em traços largos é isto.
- O projecto para a nossa casa? - Perguntou ela num fio de voz.
- Sim… Porquê? Não consegues ver? Aqui tens o fundo do terreno, aqui começa o talude, esta é a parede mestra em torno da qual crescem os volumes… Está tudo aqui.
Ela olhou de novo, fazendo um esforço para imaginar, naquele emaranhado de fios a tinta-da-china, a mestria da parede ou o medrar dos volumes.
- Não sei… É difícil.
Ele suspirou e voltou a explicar-lhe, enfadado, uma coisa que para ele era tão simples, estava tudo ali, era só visualizar no espaço, geometria descritiva pura.
- Não sei onde está a dificuldade. Já te disse que os volumes crescem a partir desta parede que divide as áreas e, simultaneamente as une. Partem daqui os eixos sobre os quais vai assentar a estrutura que dará alma à casa!
- Pois… está bem.
Ele irritou-se, apresentou razões, levantou a voz a ponto de os ocupantes das mesas mais próximas olharem para eles, curiosos. Era impensável que a dois meses do casamento ela viesse torcer o nariz ao projecto, agora que tinham finalmente encontrado o terreno ideal. Ele é que tinha dificuldade em perceber como é que ela não via uma coisa tão visível, tão bela. Até lhe parecia impossível e questionava-se acerca das capacidades que ela eventualmente teria, ou não, para o acompanhar na subida meteórica que a sua carreira estava a conhecer, integrado num gabinete de projecto de superior prestígio. Explicou as suas ideias, gesticulou e brandiu a colher sobre o traçado fazendo cair dois pingos de leite-creme exactamente sobre a parede mestra em torno da qual cresciam os volumes.
Calou-se e, com a ponta do guardanapo, tentou limpar o desenho. Erro fatal: o açúcar queimado do leite-creme esborratou a tinta e fez alastrar os pingos.
Quieta, ela observava a cena e o frenesim dele a tentar limpar a mancha que alastrava assustadoramente.
Então começou finalmente a ver crescer os volumes, enegrecidos e gordurosos, sentiu a parede mestra a esboroar-se sob o peso do leite-creme, olhou para os eixos a chocarem de frente e a fazerem desabar toda a estrutura e sentiu que a sua alma, ainda antes da da casa, estava a ser reduzida a escombros.
Levantou-se lentamente, pegou no copo de água em frente do prato e despejou-o sobre o que restava dos rabiscos e do papel empapado em leite-creme.
- Esqueceste-te da piscina! – E saiu, dizendo de si para si que era mesmo uma mulher inteligente.

3 comentários:

Ana disse...

LOL!
Geometria descritiva não é para qualquer um... E uma piscina faz sempre falta!! ;)
beijinhos

Mar Arável disse...

Já vi dos escombros

renascerem

pedras vivas

que se tornaram inteligentes

Maresia disse...

Gostei!