sábado, 6 de dezembro de 2008

A DETENÇÃO

Por Madalena S.

O agente Lopes acabou de preencher o formulário inscrevendo a sua assinatura no final da descrição da ocorrência e confirmou com o sujeito sentado na sua frente, enfiado num fato vermelho, um barrete da mesma cor a tapar-lhe a cabeleira farta e branca e as mãos de dedos cruzados pousadas sobre a rotundidade de um ventre enorme:
- Mais alguma coisa a declarar?
O sujeito arrancou um suspiro do fundo da alma e abanou negativamente a cabeça.
- Não, que eu me lembre. – Reforçou.
- Muito bem. Nesse caso, vou ler a participação para ver se está tudo correcto e depois o meu amigo assina-a. Certo?
- Certo. – Resmungou o outro, entre dentes.
- Ora vamos lá a ver. – E começou a ler em voz alta: pelas 23 e 45h foi recebida na central uma chamada dando conta de desacatos no nº 14 da Rua Nova. Dirigiu-se a brigada de piquete ao local onde testemunhas ali presentes testemunharam que os desacatos tinham lugar no último andar, onde os agentes Lopes, nº 356, e Barroso, nº 423, subiram para tomarem conta da ocorrência que estava a ocorrer. Chegados ao último andar, verificaram a presença de um indivíduo vestido de fato vermelho, em acesa disputa com o proprietário da fracção esquerda que o acusava de destruição da propriedade e comportamento desordeiro. Detido o indivíduo, foi o mesmo transportado para a esquadra e feita a verificação de identidade e de seguida ouvido sobre o que se lhe oferecia dizer, e disse que conduzia um trenó puxado a renas e que todos os anos fazia a volta para entrega de presentes e que de ano para ano as coisas estavam mais difíceis e já não bastava a crise que o obrigava a matar a cabeça para fazer as compras como cada vez estava mais impossível de andar nos centros comerciais e que ainda no último fim-de-semana quase o tinham comido vivo no Colombo por causa de uma promoção de telemóveis com toques polifónios e que acabara por conseguir encontrar as seiscentas barbis que tinha encomendadas num armazém de revenda chinês à saída de Odivelas mas por causa disso chegara atrasado para levantar os quatrocentos equipamentos do Benfica. E mais confessou que andava farto de aturar as madurezas do pessoal que tinha a trabalhar para ele, e que se queria a árvore enfeitada tivera de ser ele a enfeitá-la e que a mulher lhe moía o juízo e reclamava por ele nunca passar o Natal em casa e que o ameaçara com o divórcio que agora até nem precisava de consentimento. E disse que esta noite saiu como é habitual para fazer a volta mas o GPS não funcionou o que fez com que se perdesse a meio do caminho e tivesse ido parar com o carregamento de truces e peúgos de desporto em turco à Quinta da Marinha e deixado ficar as garrafas de malte escocês na Bobadela. E depois de ter recarregado o transporte, se dirigiu ao nº 14 da Rua Nova para depositar um espremedor de frutas, um DVD do filme Punhos do Inferno do Chuck Norris, o último CD do Justin Timbarleique e um aftershave da Adidas para homem, e não tinha conseguido entrar pela chaminé e quando percebeu que não havia chaminé estava entalado no exaustor e nem para cima nem para baixo e apareceu o proprietário da fracção e começou a questioná-lo e o indivíduo começou a soltar impropérios e outros palavrões e quando finalmente conseguiu desentalar-se do exaustor caiu em cima da fruteira e esborrachou duas bananas, três clementinas e uma pêra rocha e começou a lamentar-se e o proprietário quis expulsá-lo mas quando tentou usar a força o indivíduo deu-lhe um piparote que o virou e disse bardamerda para isto tudo, para mim acabou-se, para o ano quem quiser que faça a volta, estou farto de ingratos, vou apanhar sol para as Maldivas e dirigiu-se para a saída escaqueirando na passagem alguma loiça que estava no escorredouro e o jarrão da entrada, e dando pontapés nas paredes e na porta da rua onde estava quando foi detido, ainda a soltar impropérios e outros palavrões e feito o teste do álcool acusou 1,2 e o indivíduo disse que gostava de nos ver a fazer a volta sem emborcar umas vodkas para aquecer.
O agente Lopes parou a leitura e olhando para o outro por cima dos óculos perguntou:
- É isto?
- É! – Respondeu o detido.
- Muito bem, então assine aqui. – E apontou-lhe uma linha no final do impresso, entregando-lhe uma caneta.
O homem pegou na caneta, chegou-se à secretária, voltou a suspirar e assinou: Nicolau, PN.

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