quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O JANTAR

Por Madalena S.

Enfiou o vestido preto sem costas pelo pescoço e ajeitou-o na cintura. Calçou os sapatos de salto agulha e mirou-se ao espelho de um lado e do outro, tentando ver como ficava por trás, voltando o pescoço até onde a flexibilidade da sua coluna permitia.
Estava gira.
Conferiu o conteúdo da pochette de lantejoulas – BI, carta, cartão multibanco, batom, telemóvel. Tirou a carta e colocou-a sobre a mesa-de-cabeceira. Não ia conduzir, para quê a carta?
Aspergiu uma quantidade generosa de perfume sobre o pescoço e para dentro do decote e, vestindo o casaquinho de veludo que comprara para o casamento da prima, sorriu e dirigiu-se para a saída batendo com a porta da rua com força atrás de si.
Andou até à entrada do Metro, equilibrando-se o melhor possível sobre as agulhas dos saltos, enquanto amaldiçoava os inventores da calçada à portuguesa que não tinham tido nenhuma consideração pela elegância das senhoras.
Saiu no Cais do Sodré. Apanhou um táxi e, depois de dar ao taxista as indicações necessárias, recostou-se no assento confortável e deixou a imaginação antever a noite fabulosa que a esperava, no barco do Carlos, que conhecera há três dias e que lhe garantira já estar de cabeça perdida por ela. O homem tinha charme e tinha um barco. O homem estava, aliás, carregado de charme. Convidara-a para jantar no Tejo. Que romântico.
Tinha jurado a si mesma que não ia exagerar no champanhe. Fazia sempre tolices quando bebia uma flute a mais e ela não queria estragar a noite com tolices. Definitivamente.
Quando o táxi parou e olhou para o homem lá fora à sua espera, ficou um bocadinho desconcertada ao ver a sua indumentária mas não teve tempo de reagir porque ele a agarrou com força e a levantou como se fosse uma pena. Sentiu-se arrebatada. Teve a certeza que ia fazer tolices mesmo sem champanhe.
Já a manhã do dia seguinte ia a meio quando a Mizé teve uma aberta no cabeleireiro e lhe entrou na loja para saber novidades, percebendo logo, pela sua cara, que a noite não tinha corrido exactamente como se esperava.
- E então? – Perguntou numa ansiedade – Como foi?
- Tu nem me digas nada! Estou que nem posso. Eu nem acredito.
- Credo, mulher! Desembucha.
- Eu devia ter adivinhado quando o vi à minha espera em fato de treino!
- Hem??
- Isso que estás a ouvir. Fato de treino vermelho e ténis brancos. Agarrou em mim e levou-me para a beira do rio. Calcula o meu espanto quando vi o barco: era uma lancha, daquelas de andar à pesca, tipo traineira. Para entrar tive de me equilibrar em cima duma prancha que abanava por todo o lado. Estás-me a ver com os meus saltos de dez centímetros em cima daquilo? Jantar romântico? Claro. Eu, ele e mais quatro mânfios amigos dele. Parece que são amigos de infância e ele fez questão de me apresentar oficialmente. O jantar foi feito por um deles, o Ferrobico ou Ferrodente ou lá como se chama. Caldeirada. Em pratos de plástico. Para beber, minis. Também tinham gasosa. A pensar em mim. Fizeram-me panachés. Os amigos saíram de lá às três da manhã. Eu saí às oito.
- E agora?
- Agora? Para a semana preciso que me emprestes o teu saco cama. Vamos de lancha até ao Cabo Espichel, acampamos na Lagoa de Albufeira e vou provar feijoada de búzios.

6 comentários:

Anónimo disse...

Classe pura, ou o desconcerto da escrita.
Uma caldeirada até nem parece mal, uma traineira ainda vá que não vá... mas recebê-la em fato de treino é que não!
E afinal o que esteve ela a fazer lá até às oito da manhã?
Suspense no seu melhor...
FR

Mar Arável disse...

BOM ANO

SEMPRE A OUSAR

COM CRIATIVIDADE

O Puma disse...

A ficção deve ser comentada como tal para não nos confundirmos com a outra realidade - no quotidiano -
todos nos vergamos - até para calçarmos os sapatos

Bjs

arlindo mota disse...

Bem vinda à "a seda das palavras". Reciprocamente permitiu-me chegar à "Gaveta da Escrita". Com prazer, pois habituado ao "contrabando" ou à ilusão da facilidade, os posts lidos dizem-me que não é esse o caminho que trilha: antes pelo contrário.
Até breve
arlindo mota
Blog "A SEDA DAS PALAVRAS"

Dinis Lapa disse...

Muito engraçado o final. Era o que eu queria. Já ia dizer mal: "então mas a gaja é materialista, assim não interessa". Mas não!

Beijinhos e feliz 2009

Farpa disse...

Hilariante. Confirmo o sentido de humor já referido. E especialista em reviravolta no fim, muito em voga, mas sempre interessante.