quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O DOM

Por Madalena S.

Maria Celestina tinha um dom. Não sabia com exactidão quando é que a coisa começara mas costumava recordar aquela longínqua noite da sua adolescência em que tivera a premonição sobre a morte da Salomé, a gata siamesa da Tia Veva, como a primeira manifestação séria do seu dom.
Antes disso, lembrava-se de pequenos episódios adivinhatórios, como saber quanto eram oito vezes nove antes mesmo de a professora a fazer declinar em conjunto com os colegas a simples tabuada do dois, ou ter a certeza de que o Celso se ia espalhar ao comprido nos degraus da igreja, ainda o dito não tinha virado a esquina em correria desenfreada para fugir da fisga do Zeca Finuras.
Depois do trágico desaparecimento da Salomé, que viera confirmar as suas capacidades de prever o futuro, Maria Celestina começou a ser solicitada para pequenos favores à vizinhança.
A Laurinda pedira-lhe o sexo do bebé que esperava, o Sr. Manuel da mercearia queria saber se o Felismino lhe ia pagar a dívida que lá tinha há mais de um ano e quando é que isso aconteceria, a prima Gracinda precisava insistentemente de conhecer o nome da lambisgóia que lhe andava a desnortear o marido.
O tempo foi passando e Maria Celestina foi crescendo, de corpo e de espírito, transformando o que era uma corrente de pequenos obséquios à família e conhecidos numa verdadeira prestação de serviços à comunidade.
Começou a dar consultas em casa, no quartinho dos fundos onde colocou uma mesa redonda e um par de cadeiras e pendurou nas paredes uns quadros e uns cartazes mais ou menos esotéricos, com claras alusões aos astros, ao oculto e a conceitos similares. Por via das dúvidas, acrescentou à decoração uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, com uma lamparina acesa em chama mortiça a aquecer os pés de gesso da santinha, e mandou fazer uns cartões com a figura de Santo António e uma oração no verso que oferecia às clientes com problemas sentimentais.
Como o seu dom parecia crescer em eficácia, a palavra começou a espalhar-se e Maria Celestina ganhou notoriedade alargando a sua área de influência para além das fronteiras do bairro. Quando tomou consciência de que era conhecida pela Vidente Celestina, mandou fazer uma tabuleta discreta e colou-a ao lado da campainha. A clientela cresceu.
Um dia bateram-lhe à porta, de manhã cedo, estava ela a preparar-se para sair, ir beber a sua bica matinal, comprar o pão, um peixito para o almoço e voltar para casa por volta das onze para começar as consultas.
Maria Celestina abriu a porta e olhou para o homem engravatado que tinha na sua frente, segurando uma pasta castanha e um chapéu-de-chuva com uma vareta partida.
O homem identificou-se. Era das finanças. Tinham recebido uma queixa. Havia ali actividade comercial, negócio, sem recibos, sem facturas, sem contabilidade organizada.
Maria Celestina rapou do caderno onde assentava o seu deve e haver, de um lado o nome dos clientes e a data das consultas, do outro as quantias que recebia de cada um. Mais organizada que ela não havia, podia haver igual mas mais não!
O homem não aceitou a explicação. Onde estavam as declarações do IRS, do IVA? Onde estavam as contribuições para a segurança social? Se era uma actividade económica, onde estava a declaração de IRC? Fuga ao fisco, declaradamente.
Preencheu um impresso, depois um outro, mais duas folhas cheias de perguntas e de quadrados onde foi inserindo cruzes. No final, entregou-lhe um duplicado amarelo e informou-a de que tinha oito dias para apresentar recurso. E teria de encerrar imediatamente a actividade.
Saiu no preciso instante em que chegou a Micaela, que vinha tirar a limpo se a cunhada andava metida com o tipo da imobiliária ou não.
Maria Celestina estava perturbada. Ainda tentou satisfazer a curiosidade da Micaela mas em vão. Não via mais nada para além dos oito dias que tinha pela frente para resolver a vida e nem conseguia perceber como é que não tinha adivinhado o que lhe ia cair em cima. Que diabo! Seria que o dom começava a falhar-lhe?
Nessa noite não dormiu nada de jeito mas, pela madrugada, tinha resolvido que estava na hora de usar o seu dom em proveito próprio.
Oito dias depois, a vizinhança acordou num alvoroço e a notícia correu como rastilho – a Vidente Celestina fora-se embora. A casa estava vazia, vendera os móveis ao Inácio da barbearia, deixara a Nossa Senhora de Fátima à Micaela – para compensar a sua incapacidade de lhe dar a informação pretendida – e distribuíra o resto das orações de Santo António pelas empregadas do minimercado.
A maioria ficou com pena, muitos não percebiam o porquê da partida mas, entre uns quantos, houve logo quem duvidasse das suas intenções e denegrisse as suas capacidades premonitórias.
Só quando o Horácio do Snack-bar Avenida anunciou aos quatro ventos que ela tinha acertado no Totoloto, Joker incluído, é que a populaça percebeu a real dimensão do dom de Maria Celestina.



8 comentários:

Farpa disse...

Cumprimentos cara Madalena.

Gosto da ironia fina e sentido de humor (quase negro) que atravessa esta história.

Parabéns, boas leituras e escritas.

Mar Arável disse...

Belo texto para reflecrir

Por mim falo

pois estava para abrir

um espaço de atendimento público

só para ouvir

Farei como a nossa amiga

primeiro vou inscrever-me

no totoloto

Não sou pessoa de desistir

mas como nunca fui bafejado

pela sorte

decidi pedir namoro a Celestina

para tentar conquistar a vida

Bjs

Miguel Barroso disse...

Gostei.


Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

ivone disse...

Madalena
vim até aqui encaminhada pelo Arlindo Mota... não consigo ter a certeza se tu és a Madalena que eu suspeito... não me dás uma pista?

Madalena S. disse...

Olá Ivone.
Sou eu mesma, a Madalena da Parede, dos Lombos, da João e da Leonor. Como vais tu?
Há já muito tempo que não nos cruzamos. Está na hora de mudar isso. Digo eu.
Usa o meu e-mail:
madalenagreen@gmail.com
Dá notícias.
Um abraço
Madalena

Dalva M. Ferreira disse...

Magnífico! MUITO bem escrito, coisa de português de Portugal mesmo...

Acordos ortográficos são coisa de gente que não tem o que fazer. Se o bonito da coisa é justamente esse "não sei quê"!

PiresF disse...

Deste, onde utilizou a técnica da surpresa final à boa maneira contista, gostei imenso.
A Madalena, tem uma escrita muito fluida, coisa que nem todos conseguem, não é fácil.

Abraço.

PS: Consta que as videntes (para quem acredita), não têem poderes em causa própria.

VFS disse...

Um conto muito bem estruturado com um final surpreendente.

Pelo menos, para mim!

Obrigado.