domingo, 1 de fevereiro de 2009

O ESPELHO

Por Madalena S.

Três meses antes, ao tentar fugir para a casa de banho para evitar os murros do marido, sentira-o a agarrá-la pelos cabelos no último minuto e só se lembrava de olhar para o espelho e, um instante antes de a cara se esborrachar em cheio contra o vidro empurrada pela manápula grosseira do homem, pensar que partir um espelho dava sete anos de azar.
Agora, olhava a sua imagem distorcida pelo vidro rachado e pensava que de azar tinham sido os catorze anos anteriores, duas vezes sete anos, tempo de martírio que só terminara no dia em que partira um espelho à cabeçada, atirada contra ele como se fosse uma pedra, um tijolo sem valor.
Tirou o espelho da parede com cuidado para não se cortar nos cacos mal unidos entre si, atirou-os para dentro de um saco de plástico e, desembrulhando com cuidado o novo espelho que encostara à banheira, pegou-lhe pela argola da corrente e pendurou-o no lugar do anterior.
Olhou em frente, séria e sem pestanejar, e mirou-se pela primeira vez em três meses numa superfície lisa e intacta que lhe devolveu uma imagem de marcas e cicatrizes, umas na alma, fundas e sem remédio, outras no rosto, dois golpes sobre o sobrolho direito, um outro mais profundo cortando-lhe a face esquerda em dois em direcção à orelha, e um outro arrepanhando-lhe o lábio superior, num trejeito que, ironia das ironias, lembrava um sorriso permanente.
No hospital disseram-lhe que podia fazer uma operação plástica. Ou mais do que uma. Para recuperar as feições. Estava em lista de espera mas a sua médica já lhe tinha dito que ia tentar tudo para a operar rapidamente, para não lhe prolongar demais o sofrimento. Ela acreditava. Os médicos tinham sido todos muito bons para ela. O ortopedista que lhe tratara da fractura no braço direito fizera um trabalho perfeito, felizmente. E hoje, já conseguia ir trabalhando ainda que continuasse na fisioterapia “pelo menos mais dois meses”, já lhe anunciara o Dr. João.
As patroas também tinham sido muito compreensivas e tinham aguardado pela sua recuperação. Todas menos a lambisgóia do engenheiro. A estúpida nem esperara que ela saísse do hospital, mandara recado a dizer que não podia estar sem ninguém, ia arranjar outra pessoa. A culpa era dela que acedia a trabalhar sem contrato, sem descontar para a segurança social, sem seguro. Não fosse isso e a finória tinha de ter baixado a bolinha, que ela tinha direito a estar de baixa médica, a recuperar.
Vá lá que a D. Irene e a D. Filomena tinham sido impecáveis. E ela até calculava o transtorno que devia ter sido para a D. Filomena, com cinco homens em casa, todas as semanas um rol de camisas para passar a ferro, sem falar nas fardas do marido, oficial da marinha, sempre exigente com os vincos das calças.
Agarrou no saco com os cacos do espelho partido e foi deitá-lo no lixo, serena, tão serena como no dia da última tareia quando se arrastara a pingar sangue até ao patamar da escada e pedira à vizinha que chamasse a polícia, pondo um ponto final no horror de uma vida em sobressalto constante.
Do tacho pequeno sobre um fogo brando, saía o aroma dos coentros e do alho para uma minúscula açorda para o almoço, com a qual ia aproveitar os restos do pão da véspera, já duro e sem préstimo para ser comido ao natural.
Escalfou um ovo na açorda e tirou-a do lume com cuidado despejando-a para o prato fundo. Sentou-se à mesa e comeu com vagar, saboreando a comida e o silêncio à sua volta.

5 comentários:

Alex Pinheiro disse...

Ah se não são os momentos em que o silêncio é mágico!
Essa violência conjugal,,, esse perene passional,,, tudo muito estranho pra mim, graças a Deus!

Agora, pitaco dizer que, salvo algumas excessões, há consentimento SIM!
...
Venho de traçar links,,, acabei lendo-te e gostei.

Bjs e sociais invenções!

Mar Arável disse...

São os espelhos ocultos da vida

sem nexexidade

Um texto real

doce mente trágico

Sônia Brandão disse...

Às vezes é preciso um espelho ou um corpo quebrado para que se comece a viver.

Comecei a ler os seus textos e gostei. Pretendo voltar.
Abraços.

PiresF disse...

Uma forma de contar um certo e malfadado quotidiano que infelizmente ainda é a realidade de algumas casas. Felizmente, neste caso, a protagonista conseguiu fugir às grilhetas de uma vida que não pode ser imposta a ninguém.
Gostei da forma fluida como o conto decorre e gostei da história.
Convirá dizer que, para a Net o conto é grande (eu tenho o mesmo problema e não me consigo livrar dele), tudo o que tem mais de vinte linhas dificilmente é lido.

Abraço.

Dinis Lapa disse...

Realista e descritivo, como é teu hábito.

Na verdade, a violência doméstica é ainda um grave problema, tanto masculina como feminina (e agora até há filhos que batem nos pais).

Em relação a este assunto aconselho vivamente a leitura de "O remorso de Baltasar Serapião" do valter hugo mãe.

beijinhos