terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O LIVRO

Por Madalena S.

Há dois anos que jurava a pés juntos ao seu editor que o livro estava quase pronto. Faltava acabar a revisão, aprimorar dois ou três parágrafos, dar um jeitinho no epílogo, um jeitinho apenas, uma questão de verosimilhança.
A verdade é que depois do seu último sucesso editorial – dez semanas no top de vendas – apoderara-se dele uma “branca” de tal ordem que não conseguia alinhavar duas frases com sentido.
Começara vários projectos, com efeito, mas deixara-os com uma página, alguns com duas, apenas um ou dois haviam passado das três páginas. Na sua cabeça, criara um sem número de personagens mas depois não tivera como lhes dar vida, não soubera o que lhes fazer, andavam por ali a mastigar-se em rolos de palavras desconexas.
Tinha sobressaltos de cada vez que o telefone tocava, sempre a pensar que era da editora, reclamando o livro ou a devolução do adiantamento que entretanto já esbanjara desafogadamente. Um dia recebeu a intimação judicial: ou livro ou processo por quebra de compromisso.
Na manhã seguinte comprou uma arma. Coisa simples, sem grandes exigências de treino, algo que ele próprio pudesse manusear facilmente. Dirigiu-se à editora. Entrou calmamente no edifício, passou pela recepcionista com um bom dia seco e desembocou no gabinete do editor que estava sentado à secretária a mexer em papéis.
Nem sequer abriu a boca para se justificar. Perdido por cem, perdido por mil. Empunhou a arma e disparou três vezes. Logo à primeira, o editor escancarou os olhos sem perceber o que era aquela coisinha que lhe batera no centro da testa, queimando como ponta de cigarro, e caiu para trás desamparado, os braços abertos numa ridícula tentativa para encontrar um ponto de equilíbrio.
Finalmente, tinha matéria para o seu novo romance policial: arma, criminoso, vítima, motivo, oportunidade e todos os demais ingredientes do género.
Seis meses depois, a história do autor que matou o seu próprio editor era um best-seller e ia ser adaptada ao cinema. Da prisão, enviava por e-mail aos seus leitores, autógrafos digitalizados.

10 comentários:

Pedro Teias da Ega disse...

Afortunados os que são perseguidos pelos editores para que ESCREVAM E ENTREGUEM livros.

No mundo real, é o inverso. Gavetas de escrita a abarrotar enquanto os editores publicam mais do mesmo, dos mesmos de sempre.

Para se escrever em revistas temos de publicar livros, e para se publicar livros, temos de escrever em revistas.

Mar Arável disse...

Espero o seu livro publicado

com autógrafo ao vivo

e que não seja àcerca do freeport

anareis disse...

Estou fazendo uma campanha de doações para criar uma minibiblioteca comunitaria na minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,preciso da ajuda de todos.Doações no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Que DEUS abençõe todos nos.Meu e-mail asilvareis10@gmail.com

ParadoXos disse...

lá estarei!!
abraço fraterno!

Dinis Lapa disse...

Estória muito engraçada. Em teoria da edição eu tinha escrito uma parecida em forma de guião. Há que matar os editores!

Madalena S. disse...

Dinis,
este foi precisamente o microconto que eu fiz para Teoria, revisto e ligeiramente aumentado.
Fui repescá-lo porque sempre achei que era uma ideia muito refrescante.

Dinis Lapa disse...

São "da mesma onda". No meu, o autor não queria que se soubesse que era homossexual, então matou o editor que queria promover o livro como gay.

beijinhos e parabéns atrasados!

Dalva M. Ferreira disse...

Muito bom, Madalena!!! Que invejinha de você...

Pedro S. Martins disse...

A ficção envolve a realidade que envolve a ficção.

RB disse...

Genial