quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

TRÂNSITO

Por Madalena S.

Parado na fila, sem andar um metro há mais de quinze minutos, fixava, com o olhar estático de quem não está a ver nada, o movimento regular dos limpa pára-brisas na sua dança simétrica sacudindo as gotas grossas da chuva que caía, ininterrupta, desde a noite anterior.
O caos instalara-se na cidade. O temporal nocturno provocara inundações e quedas de árvores, entupira sumidouros, deixara as ruas num lamentável estado de desordem.
Já pela manhã, o martírio do trânsito agravara-se com vários acidentes que tinham vindo completar a situação apocalíptica.
E nada fazia prever que o tempo estivesse para mudar. O céu mantinha-se cinzento, escuro e carregado de água que despejava impiedosamente sobre a cidade impermeável.
No rádio ligado mais por hábito que por gosto, a voz grave do jornalista debitava o estado dos vários acessos, dos acidentes que cortavam vias, dos cruzamentos por onde nada circulava.
Procurou outro posto. Passou pelos Rolling Stones, pelo Abrunhosa, por mais notícias, publicidade, pela nostalgia do José Cid, mais publicidade e acabou por sintonizar a Ella Fitzgerald dando corpo à música de Gershwin.
Anteviu a sua chegada ao trabalho, o olhar enviesado do coordenador rodando dele para o relógio, sem dar nas vistas para não armar em patrão à antiga mas de forma suficientemente explicita para lhe passar a mensagem de que o estava a controlar.
Depois pensou na Cristina. Na véspera, voltara a discutir com ela até à exaustão, por causa da Vera e dos ciúmes. De nada lhe valia garantir-lhe que há muito tudo estava acabado, de nada valia pedir desculpas, suplicar perdões. De seguida, pensou na Vera. Ainda estava para perceber o que lhe passara pela cabeça para andar enrolado com ela.
Acendeu o quinto cigarro do dia e aspirou com força inundando os pulmões de nicotina e alcatrão. Que estúpido se sentia por ter voltado a fumar. Três anos sem dar uma passa e numa noite apenas, para aconchegar uns whiskies a mais em farra de amigalhaços, deitara por terra todo o sacrifício passado e confirmado pelos doze quilos que ganhara com a abstinência.
Começou a sentir um formigueiro nos pés. Estava incomodado. A cabeça fervia-lhe num exagero de imagens que vinham em catadupa, sem plano prévio, sem razão aparente. A Cristina não podia ter filhos, logo ele não iria ter filhos. Mas a Vera fizera um aborto. Duas prestações da casa em atraso. A máquina de lavar avariada. O merdas do Mendonça recebera o prémio de mérito e passara-lhe à frente na empresa. Que raio de mérito havia em beijar o cu aos chefes? Tinha de responder aos telefonemas da mãe. Já ia em três, com mensagem deixada no telemóvel. Ia ter de a ouvir. À tarde não podia esquecer-se de passar no sapateiro para ir buscar as botas da Cristina. As botas da Cristina tinham um salto tão alto e tão fino… Se ela lhe desse com a bota na cabeça, conseguia furar-lhe o crânio com aquele salto!... Sentiu a dor aguda do salto a enterrar-se-lhe nos miolos.
Abriu uma nesga da janela para deixar sair o fumo e entrar o fresco. A chuva, porém, batida exactamente daquele lado, começou a molhar o interior. Voltou a fechar a janela. Faltava-lhe o ar. Porra! Há vinte minutos que aquilo não andava, nem para a frente nem para trás! Começou a doer-lhe a cabeça. Era a falta da primeira bica do dia. Já a devia ter bebido há coisa de uma hora.
E então, repentinamente, fez-se um grande silêncio à sua volta. O rádio, que passara da Ella Fitzgerald para o Elvis Presley, calou-se. Os ruídos do trânsito e da chuva desapareceram. Dentro da sua cabeça, as imagens pararam. Sentiu uma pressão tão grande como se estivesse a ser esmagado numa prensa gigante. Quis respirar e não conseguiu. Libertou-se do cinto de segurança e esticou o peito para a frente em direcção ao volante, procurando endireitar o corpo. Ia morrer?!?
O universo inteiro pareceu ficar suspenso, como se estivesse dentro de um filme e alguém tivesse carregado no botão da pausa.
Mas tão inexplicavelmente como surgira, o silêncio morreu num enorme urro urbano, o som infernal das buzinas a massacrá-lo sem piedade.
Nesse instante, tudo lhe pareceu tão claro e tão simples que até lhe custava a entender como não vira mais cedo a solução.
Desligou o motor, abriu a porta e saiu ao encontro da chuva purificadora.
Começou a caminhar por entre os carros até chegar ao passeio, andou mais dois quarteirões e continuou, calmamente, debaixo de água, como se soubesse exactamente para onde ia.
Desapareceu na esquina seguinte.
Foram precisas duas horas para desfazer o imbróglio criado por um carro cujo condutor se evaporara misteriosamente deixando o rádio ligado, a chave na ignição e as luzes acesas.
Durante muito tempo, a Judiciária investigou a possibilidade de rapto. Sem resultados.

4 comentários:

Pedro Teias da Ega disse...

Gosto da duplicidade (evidente) do título

Mar Arável disse...

Também nestes casos

a investigação é intemporal

Bom texto intrigante

e metafórico

arlindo mota disse...

Em "trânsito" por aqui, com prazer renovado (escrita límpida, sem facilitismos...como quem diz "por sob o musgo que se esconde entre as pedras?")...

"A Seda das Palavras"

Dalva M. Ferreira disse...

Perfeito! Esse seu sotaquezinho português-de-portugal é mesmo uma delícia! Eu o venho bebendo às gotas, desde Camões até Saramago... se bebesse às canecas, já estaria afogadinha da silva!