sexta-feira, 6 de março de 2009

O ANIVERSÁRIO

Por Madalena S.

No dia em que fez cinquenta anos, Sebastião Salsinha pensou que estava acabado. Sentiu-se asfixiar, afogado numa mágoa inexplicável que lhe consumiu o espírito e o extenuou fisicamente.
Às duas da tarde, após ter almoçado na companhia de alguns colegas de trabalho, voltou ao escritório e sentou-se à secretária olhando para a papelada espalhada na sua frente sem vontade de lhe tocar.
A pressão no peito aumentou. Tossiu para espantar o mau estar e foi buscar uma garrafa de água com gás ao mini bar, encostado no canto entre o sofá e a janela.
Ficou ali parado, a bebericar pequenos golos de água e a mirar o que se passava na rua, dez andares abaixo dos seus pés.
Como se estivesse a assistir a um filme, imaginou-se a abrir a janela e a saltar esparramando-se no solo, numa amálgama de ossos quebrados e massa encefálica, com fios de sangue a escorrerem pela calçada portuguesa, criando novos desenhos, muito mais modernos e inovadores do que os existentes.
Anteviu igualmente o seu velório. Centenas de pessoas. Milhares, mesmo.
Afinal, tratava-se do homem que reinventara a calçada portuguesa, introduzindo notas de modernidade quer no tipo de desenho, quer na cor que passara do branco e negro basalto para o branco, negro basalto e vermelho sangue.
Vermelho sangue… mas o sangue também pode ser azul. Sangue azul. Se ele tivesse sangue azul, seria barão. Ou marquês. Ou duque. O que é que valia mais? Marquês ou duque? Duque… de Loulé, avenida, contra marquês, de Pombal, praça e rotunda. Entre avenida e praça e rotunda, era difícil a escolha.
Voltou ao velório. Uma imensa massa humana a chorar por ele na Basílica da Estrela. Ou nos Jerónimos? Ou no Panteão? Não, no Panteão é para onde se vai depois de morto e enterrado, mas não se fazem velórios. Gostava da ideia de ir parar ao Panteão. Ao lado do Almeida Garrett e da Amália Rodrigues. Isso é que era. E um dia o Eusébio juntar-se-ia a eles.
Na secretária, o telefone deu sinal de vida. Olhou para lá de esguelha e deixou-o tocar. Não se moveu um milímetro do seu poiso seguro, junto à janela. Ao fim de meia dúzia de toques, o aparelho calou-se.
Voltou a olhar para a rua. Agora era a cabeça que parecia querer estalar. Que gaita! Seria que estava a ter um enfarte? Ou um AVC? Apalpou os braços, estendeu as mãos para a frente. Estava um pouco trémulo mas colocou esse tremor na categoria do nervoso miudinho. Estava nervoso. Porém, sem motivo. Só porque fazia cinquenta anos?
Que dor de cabeça do caraças! E que má disposição. Aquilo só podia querer dizer ataque de qualquer coisa suficientemente ruim para o deixar entrevado, sem préstimo, preso a uma cadeira de rodas ou, pior ainda, a uma cama. Mais valia acabar já com tudo.
E se ele se limitasse a abrir a janela, saísse para o parapeito mas não saltasse? Uma cena mais leve, só para dar nas vistas, para assustar a turba lá em baixo e espalhar o terror na turba cá de cima. Humm… Era algo a considerar. Considerar, consideração. Ora aí estava uma coisa que ninguém tinha por ele. Há mais de trinta anos que ali trabalhava e nunca lhe tinham dado ao menos uma palmadinha nas costas. Costas, costas largas. Ou costas quentes? O que é que se aplicava melhor a si próprio? Costas quentes, quentes, mornas, águas mornas, trópicos, Caraíbas, Cuba… Cuba, férias. Férias! Era disso que ele precisava urgentemente.
Sentiu um ligeiro alívio sobre a pressão no peito. Respirou fundo, emborcou o resto da água e dirigiu-se novamente para a secretária. Sentou-se de forma displicente e colocou os pés cruzados sobre o tampo da mesa. Fechou os olhos. Ao fundo do seu cérebro cansado começaram a chegar imagens suas, em calções, de chinelas havaianas, camisa às flores, desabotoada, panamá colorido a tapar-lhe a careca. Estava sentado à beira mar, debaixo de um chapéu-de-sol imenso, com os pés dentro de água, a bebericar por uma palhinha de meio metro um cocktail cor-de-rosa servido num copo extra largo.
Por todo o lado havia música, rumbas e mambos, e mulatas belíssimas que agitavam provocantemente as ancas fartas mesmo na frente dos seus olhos.
Sentia o coração a bater na mesma onda da música e à medida que o ritmo desta abrandava também a sua pulsação diminuía. A pouco e pouco perdeu a noção do que o rodeava e percebeu que estava a cair num torpor apenas explicável pela iminência da morte. Sobre si foi descendo um véu carregado de escuridão, que o envolveu por completo e o apagou suavemente.
Passava das quatro da tarde quando Dona Mariquinha, estranhando tamanha quietude, abriu a porta e se dirigiu à secretária para confirmar que o ruído que dali provinha era mesmo o ressonar regular e plácido da sesta de Sebastião Salsinha que, parecendo senti-la, acordou em sobressalto, deu um pulo na cadeira e rematou atrapalhado:
- … Hum… Dona Mariquinha… hã… tenho estado aqui a pensar… traga-me lá o dossier do projecto de Moçambique, faça favor!
E enquanto a mulher dava meia volta e saía em direcção ao arquivo, exclamou para si mesmo:
- Merda para isto! Agora já só consigo sair daqui depois das oito e vou chegar atrasado ao jantar de aniversário!

7 comentários:

Rosemildo Sales Furtado disse...

O Sebastião parece mesmo ser fanático por turismo, é daqueles que planeja tudo antes da partida. Primeiro planejou a morte espatifando-se na calçada e decorando a mesma com sangue. Viajou com destino ao céu ou ao inferno, isso ninguém sabe. Só se sabe é que muitos choraram a sua partida. Ao retornar do seu fúnebre passeio, já planejou uma outra, tirou férias e foi à Cuba, se divertiu bastante e quando voltou, acordou suado já pensando num outro passeio, só que verdadeiro.

Invadí a tua praia, gostei e me fiz seguidor, isso até quando permitires. É claro!

Abraços,

Furtado.

Sônia Brandão disse...

Gostei da sua maneira de escrever o conto dando uma leve pitada de humor.
bjs

Solange Maia disse...

Adorei seu blog.
Encantador, belos textos...

Parabéns !

Quando puder visite meu blog também :

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

Beijo,
Solange Maia

Pedro Teias da Ega disse...

Algumas semelhanças com o conto "Trânsito", não?

Parece-me que a autora anda a explorar uma temática de personagens de meia idade a braços com crises de existência.

Ou talvez Salsinha possa afinal ser o indivíduo de "Trânsito" em capítulos diferentes.

Dalva M. Ferreira disse...

Muito muito muito bom!

Mar Arável disse...

Copmo vos compreendo

Na verdade estamos sempre a desnascer

e por vezes

renascemos

até ser outro dia

Bom texto

RB disse...

E de vez em quando encontra-se blogues que dão vontade de ler desde o início...