terça-feira, 24 de março de 2009

A VIÚVA

Por Madalena S.

Dona Cândida era ainda uma mulher interessante quando enviuvou. Os belos olhos verdes amendoados sempre haviam sido o seu melhor atributo e nem os rios de lágrimas amargas que a partida do falecido desencadeara tinham conseguido manchar a limpidez do verde e o amendoado das formas.
Quanto ao resto, não havia sinal digno de nota. Algumas rugas, não muitas, um peso claramente superior ao desejável, o cabelo curto e espesso pintado num tom a oscilar entre o caju e o ameixa escuro e os dedos pequenos e sapudos cobertos de anéis de imitação com grandes pedras de vidro colorido.
Ao ver-se sozinha nas suas cinco assoalhadas antigas em Campo de Ourique, obrigada ao uso do preto por força das conveniências sociais – pelo menos durante um ano como mandavam as regras do luto de viuvez – Dona Cândida passou por várias fases: primeiro revoltou-se com a situação, acusando Deus de lhe pregar tamanha partida; depois voltou as suas recriminações para o defunto que não soubera resguardar a saúde e levara uma vida de libertinagem e excessos, de álcoois e tabacos, de gorduras variadas e toda a qualidade de desmandos alimentares, até entupir definitivamente as artérias e cair redondo e desamparado à porta de casa após esforçar o coração na íngreme jornada até ao 4º andar, sem elevador.
Também conheceu a etapa em que se autoflagelou por não ter sabido impor-se, obrigá-lo a dietas, a caminhadas saudáveis, a vigilâncias regulares pelo médico de família.
Por fim, quando já era passado meio ano, a dor foi amainando e Dona Cândida aprendeu a conviver com o seu novo estado civil. Começou por comprar uma blusa preta com pintinhas brancas e uma saia cinzenta. Depois, como precisava de mudar de roupa, a compra seguinte já foi um vestido com uns laivos de amarelo. Estava claramente a “aliviar o luto”, mesmo sem perfazer o protocolar prazo de um ano. De manhã, antes de sair de casa para comprar o pão, uns legumes ou uma fruta, olhava-se ao espelho e pincelava as maçãs do rosto e o nariz com um cheirinho de pó-de-arroz numa tonalidade de pêssego maduro que lhe dava um ar corado e saudável e ligava muito bem com os olhos verdes amendoados.
A primeira vez que foi sozinha à matiné nas Amoreiras, custou-lhe horrores e sentiu-se uma pecadora sem nome. Na segunda vez já respirou melhor e a partir da terceira insistência decidiu prazenteiramente instituir aquele hábito assentando numa ida semanal ao cinema.
Foi num domingo à tarde – tinha ela ido passear até à beira rio, apanhar sol frente aos Jerónimos e comer dois pastéis de Belém com um chá de camomila – que conheceu Abel, antigo sargento da marinha, aposentado com uma pensão muito jeitosa, divorciado, sem filhos, com residência nos Olivais, proprietário de um Renault 21 Nevada cinzento-escuro que, não fora o design algo antiquado, ninguém diria estar na sua posse há mais de vinte anos de tão estimado que era.
Foi ele que meteu conversa e se apresentou. Ela achou-o simpático e deu-lhe corda. Conversa puxa conversa, combinaram no mesmo sítio e à mesma hora para o domingo seguinte. E atrás desse domingo veio um outro e ainda um outro antes de ser marcado um primeiro encontro mais formal, com direito a jantar e fados e guitarradas, numa casa muito conhecida, em Alfama.
Embora não se podendo considerar que tivesse sido um espinhoso calvário, também não foi a coisa mais fácil do mundo para Abel conseguir que Dona Cândida o convidasse a jantar em sua casa. Por essa altura, ela esperava ansiosamente por um pedido para avançarem para uma etapa mais formal da relação.
Recebeu-o com sorrisos, amabilidade e um assado no forno a libertar um tal aroma pela escada abaixo que ainda ele não tinha chegado ao patamar do 2º andar e já os seus sentidos estavam em alerta total. No final do jantar, Abel estava rendido e absolutamente convencido que encontrara a mulher da sua vida, com quem tinha de casar rapidamente, antes que alguém aparecesse e se antecipasse.
Estavam sentados na sala em frente da televisão, em silêncio satisfeito, a ver um documentário sobre os rituais de acasalamento dos elefantes no National Geographic e a bebericar golinhos de licor de figo, quando Dona Cândida começou a sentir algum incómodo. Queria descalçar os sapatos, desapertar o soutien, tirar a cinta, “pôr-se à vontade”, mas a presença do convidado inibia-a.
Franziu o sobrolho, olhando para ele de esguelha. Era um belo homem, não havia dúvida. Alto, seco de carnes, o cabelo a grisalhar sobre as fontes. Mas não passava disso.
Mentalmente reviu os últimos dois meses, depois de se terem conhecido. Os encontros, as saídas, os jantares. Feitas as contas e os somatórios, não tinham ido ver um único filme escolhido por si, não gostara de nenhum dos restaurantes onde a levara, não apreciara especialmente a noite de fados. Ele quisera falar de livros mas ela nunca lera Lobo Antunes nem Jorge Amado que ele idolatrava e ele não suportava Paulo Coelho que ainda era o único autor que, lá de vez em quando, Dona Cândida conseguia ler.
A estas desarmonias foi juntando outras que buscou no fundo da memória recente: o anel que ele usava no dedo mindinho, os sapatos demasiado bicudos para o seu gosto, o aftershave de perfume adocicado.
O perfil sombrio do companheiro sentado a seu lado foi-se avolumando na sua imaginação de uma tal maneira que Dona Cândida deu consigo a pensar que metera um estranho em casa, que estava a correr um risco terrível, que podia ser assassinada, quem diabo seria o homem, Meu Deus, o que é que eu fiz? e Meu Deus, o que é que eu faço agora? será que ele já percebeu, será que ele me vai propor alguma indecência, se o apanho a olhar-me com segundas intenções dou-lhe com o candeeiro em cheio nas ventas, e por aí fora. Deixou de prestar atenção ao documentário e ficou sem saber o que fazia a elefante fêmea depois da cópula. Mas também, em boa verdade, não era coisa que lhe interessasse.
De modo que – seria perto da meia-noite – quando Abel, talvez embalado pelos rituais de acasalamento dos elefantes, lhe perguntou se ela não estava a pensar em refazer a sua vida, Dona Cândida respondeu-lhe peremptoriamente que a sua vida estava refeita. O que ela não tinha era intenção de voltar a desfazê-la. Como ele parecesse não ter percebido, ela acrescentou mais dois ou três esclarecimentos, foi dizendo que sim senhora, que ele até era simpático, mas nunca na vida, e estava bem assim e já era tarde, e os vizinhos iam falar, e mais isto e mais aquilo e foi-se levantando e andando para a porta.
Cinco minutos depois, Abel, ao volante do seu Renault 21 Nevada cinzento-escuro, fazia um esforço para perceber o que lhe tinha acontecido mas sem obter grandes resultados.
No 4º andar em Campo de Ourique, Dona Cândida finalmente descalçou-se, tirou a lingerie que a atabafava, vestiu um robe e deitou-se no sofá pondo os pezinhos gordos sobre uma almofada para melhorar a circulação. Sintonizou um canal de filmes e recostou-se, a preguiçar e a bebericar golinhos de licor de figo.
À cautela, deixou de ir apanhar sol para os Jerónimos e passou a frequentar o Parque das Nações.

11 comentários:

Sônia Brandão disse...

E viva a liberdade!
Seus contos são muito gostosos de ler, é sempre interessante a escolha dos assuntos e dos personagens.
Beijo.

Rosemildo Sales Furtado disse...

É Madalena! D. Cândida depois da morte do marido, foi se acostumando com a vida solitária até que surgiu o Abel, sem filhos, jeitoso, pensão razoável, o que provocou-lhe um certo impácto e a deixou um tanto impressionada. Quando a mesma começou a viver momentos que não vivia há tempos, acordou na hora do pega pra capar e o resultado foi mandar o Abel andar, pois já não via com bons olhos, os acontecimentos que para o futuro, se lhes apresentavam.

Abraços,

Furtado.

Dalva M. Ferreira disse...

Parabéns pelo conto, muito bom mesmo! Dá até para visualizar a cena, eu me senti em Portugal agora. Que invejinha de você...

singamaraja disse...

Singamaraja visiting your blog

Dinis Lapa disse...

A Dona Cândida é uma parva porque gosta do Paulo Coelho e bebe licor de figo. Depois, podia ter ido para a cama com o Abel. Se o sexo fosse espectacular certamente que iria querer ficar com ele. Quanto a mim, precipitou-se.

(brinco; gostei do conto)

beijinhos

singamaraja disse...

Reading your blog

Paula Crespo disse...

Excelente história e excelente também toda a descrição, em especial a das desarmonias!... ;)

arlindo mota disse...

Viva Madalena! Regressado, ainda a meio gás, à blogosfera, vim dar a espreitadela costumeira. A segurança narrativa, o domínio da técnica do conto, o desenho das personagens estão aqui presentes. Para quando ganham corpo em livro.

Abraços.
"A SEDA DAS PALAVRAS"

N disse...

Então, para quando mais post's? Deu-te a preguiça?

Mar Arável disse...

Magnifico minha amiga

Fora o Paulo Coelho

a senhora tem futuro

nas bibliotecas

e porque não num baile da pinha

Pois anda à pergunta

do homem que não existe

e isso é bom

Bom texto como sempre

RB disse...

Fantástico. Texto cheio de descrições deliciosas...