sábado, 30 de maio de 2009

A COMEMORAÇÃO

Por Madalena S.

No dia em que Manuel João da Veiga, vulgo Manecas Veiguinha, comunicou à família que ia mudar de sexo, a tragédia abateu-se pesadamente sobre a parentela, da mais chegada à mais remota, com especial incidência no avô Xavier que nunca mais recuperou do AVC diagnosticado sem apelo nem agravo pelo primo Joaquim o qual, ainda que especializado em obstetrícia, tinha conhecimentos suficientes para reconhecer a sintomatologia e prestar socorro em primeira mão.
Até porque o Manecas escolheu mal a ocasião: comemorava-se o aniversário de casamento do tio Francisco com a tia Mimi, cinquenta anos de felicidade ininterrupta, lua-de-mel permanente desde que ele lhe pusera a vista em cima e as mãos em baixo para a amparar e impedir de cair por via do encontrão desastrado mesmo à esquina do Eduardo Martins, descia ele a Rua Garrett e subia ela a Rua Nova do Almada.
Ora cinco décadas e picos depois de tão auspicioso embate – que o namoro fora de curta duração – reuniu-se a família na quinta de Benavente, para almoço de fausto e fartura, com animação variada que incluiu logo pela alvorada missa evocativa com renovação de votos, seguida de garraiada no tentadero, abertura de pipos com prova de vinho novo e preparação do porco que foi posto a assar no espeto, em fogo lento mas determinado, por volta das onze da manhã.
De norte a sul, ninguém faltou à chamada. E até o primo Bernardo voou de Inglaterra trazendo a reboque a mulher, a galesa Bridget, e os sete filhos com que ela o brindara em oito anos de casamento.
Entre primos e primas, em primeiro, segundo ou terceiro graus, tios, tias, mães, pais, avós variados, cunhados e cunhadas, noras e genros, filhos e filhas, sobrinhos, cães, gatos e outros animais de muita ou pouca estimação, estimou-se uma participação na ordem das cento e trinta pessoas. Era obra.
E tudo correu bem até às quatro da tarde, quando começou o baile, abrilhantado pelo grupo do Finezas, barbeiro por obrigação profissional mas músico por gosto e obstinação, exímio tocador de concertina, acompanhado na viola braguesa pelo Afonsino e nos bandolins pelo Zé Maria e pelo Valentim.
Dançava-se o fado.
A tia Mimi, afogueada nos braços do esposo adorado, demonstrava à horda de primos jovens como eram as danças antigas e como, há cinquenta anos, os rapazes se sujeitavam a regras de convívio altamente respeitadoras das donzelas solteiras.
O Manecas estava para lá de bem bebido. Levantou-se do lugar onde aterrara há algum tempo, debaixo da sombra fresca do toldo gigantesco que cobria a mesa principal, e procurando manter um percurso certo e equilibrado rumou na direcção do Carlinhos – o namorado novo da prima Eduarda – dobrou-se sobre o rapaz e, ignorando completamente a presença dos demais convivas, declarou-lhe o seu amor eterno e incondicional e os inflamados desejos carnais que lhe maceravam o peito desde que lhe pusera a vista em cima, três meses antes, numa festa de arromba, no Lux.
Uma bomba, fosse ela de que calibre fosse, não teria feito tanto estrago.
O visado não achou graça, a prima Eduarda ainda menos, alguns dos mais chegados à cena riram-se e levaram a coisa para o lado do excesso alcoólico, mas o Manecas insistiu. Começou a falar alto, a repetir o que tinha dito, vieram mais tios ver o que se passava, chegou o avô Xavier e teve de se sentar à pressa numa cadeira, começou a sentir-se mal, o primo Joaquim mandou chamar o 112, a mãe do Manecas só dizia “ ai, ai”, o pai do Manecas afirmava que não podia ser, o tio Francisco segredava à tia Mimi “ Eu cá me parecia!...”, a tia Mimi revirava os olhos divertida, a prima Eduarda queria bater no Manecas em defesa da honra do Carlinhos e a festa acabou ali mesmo, com cento e trinta participantes em luta acesa, uns a favor, outros contra, outros nem sim nem não, os restantes a tentar perceber o que raio se estava a passar e o Manecas, afogado em lágrimas e em vomitado de bêbado, a garantir para quem o queria ouvir que tinha uma operação marcada para dali a duas semanas, nos Estados Unidos, para mudar de sexo – libertar-se dos acessórios masculinos e assumir livre e gloriosamente os seios que lhe estavam a crescer desde que iniciara um tratamento hormonal adequado, acompanhado de terapia de apoio e de mais uma parafernália de procedimentos preparatórios. Num gesto teatral, abriu a camisa num arranque que lhe fez saltar os botões e mostrou os seios novos, firmes e levantados, num tamanho já razoável tendo em conta a formação recente. A prima Eduarda emudeceu e amareleceu de inveja. Outras primas e tias a acompanharam e pensaram que Deus não era justo, nem bom, nem coisa nenhuma.
O Carlinhos levantou-se, em silêncio ofendido, deu meia volta e dirigiu-se à saída com a prima Eduarda no seu encalço. Mesmo ao portão, gerou-se discussão acesa entre ambos. A família, preocupada, tentava perceber o alcance da refrega mas em vão.
O dia acabou triste, os restos da festa abandonados sobre as mesas, a carcaça do porco a consumir as últimas brasas, metade da família na sala de espera do hospital por causa do avô Xavier, o primo Bernardo a tentar trocar nove bilhetes de avião marcados para dali a dois dias de forma a regressar o mais rapidamente possível ao remanso conservador e bucólico do campo inglês.
No ano seguinte, o tio Francisco e a tia Mimi decidiram comemorar o aniversário de casamento apenas a dois, não fosse o diabo tecê-las. Durante um mês inteiro pensaram no que fazer e, finalmente, decidiram-se por algo verdadeiramente radical porque, afinal, só se vive uma vez.
De modo que o avô Xavier ia tendo uma reincidência do seu AVC quando chegou uma carta do tio Francisco e da tia Mimi, directamente de Venice Beach, Califórnia, USA, com uma colecção de fotos da festa de união do Carlinhos com o Manecas, quase irreconhecível no seu vestido de lamê dourado, justo e de generoso decote de onde pareciam querer saltar as “meninas” que tinham amarelecido de inveja a prima Eduarda, um ano antes.
O tio Francisco e a tia Mimi tinham apadrinhado a união e iam ficar por lá mais uns tempos a ajudar o movimento que lutava pela legalização do casamento gay na Califórnia. Continuavam felizes e esperavam que a prima Alice se assumisse definitivamente, de preferência antes da comemoração das bodas de diamante.

6 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Muito bom! Um forrobodó danado... não é todo dia que se vê um casal completando 50 anos, nem uma pessoa mudando de ares. Enfim, esse nosso mundo é sortido.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Eis que a gaveta da escrita se abriu, e abriu muito bem, visto que, expôs um texto maravlhoso, bem coordenado e por demais consistente. Só não entendi foi o aparecimento da prima Alice no final, pois em nenhum momento do texto a mesma foi citada.
Ou será que a omissão foi proposital?

Beijos,

Furtado.

N disse...

Amigo Rosemildo, penso que a prima Alice não terá sido citada mais cedo por (ainda)se encontrar no armário...
Muito bom Madalena! Não consigo deixar de comparar o Finezas ao grande músico-barbeiro Banza! Beijinhos e continua! Ah! e não te esqueças do xarope...

Nuno G. disse...

cheguei, simplesmente porque o nome tem também a palavra GAVETA...
e fiquei extasiado com a qualidade da sua escrita... excelente... vou colocar a sua gaveta, na monha-gaveta...

(www.minha-gaveta.blogspot.com)

Mar Arável disse...

A Alice é que sabe

Belo como sempre

JAIRCLOPES disse...

Belíssimo conto, lembra muito Dalton Trevisan, contista de méritos indiscutíveis de Curitiba. Parabéns!