quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O MEMORANDO

Por Madalena S.

Começou por ter dificuldade em lembrar-se de coisas simples: recados, nomes de pessoas que tinha a certeza de conhecer, sítios onde tinha de ir, coisas que tinha para fazer.
Não ligou muito. Atribuiu ao cansaço e ao peso da idade. Afinal, os anos passam, quer se queira, quer não.
Foi à farmácia e a doutora vendeu-lhe umas ampolas para o cérebro. Magnésio, disse ela. Faziam muito bem e ajudavam a rejuvenescer as células.
Tomou duas caixas mas as memórias teimavam em fugir-lhe.
Até ao dia em que se esqueceu de abrir a porta ao Pepe – o seu rafeiro fiel e único companheiro há mais de doze anos – e só o uivar desgostoso do canito, farto de estar ao frio e à chuva que começou a cair por volta da meia-noite, o tirou da cama num susto para o ir recolher.
Nessa noite custou-lhe a pegar de novo no sono. Levantou-se por volta das cinco da manhã e às seis já estava à porta do Centro de Saúde para garantir que arranjava uma consulta.
O médico perguntou-lhe a idade e fez-lhe uns testes próprios para quem chega à beira dos setenta sem grandes sobressaltos. Fez-lhe mais perguntas. E mais perguntas. Até à fatal, a que sempre receara ouvir:
- Ó Senhor Alberto, você não tem família?
Não. Não tinha família, nem próxima nem afastada. Nem primos, nem sobrinhos, nem afilhados. Nada.
- E amigos?
Bom… tinha tido alguns. Ao longo da vida. Não muitos. Mais colegas de trabalho do que propriamente amigos. Amigos do peito, se assim se pode dizer, tivera o Almerindo, camarada de tropa que o salvara de uma bala cega numa picada em Angola, nos idos dos anos sessenta quando a guerra lhe comera a juventude. E o Santos, companheiro de bancada na oficina, parceiro na partilha da fresadora, na rotina diária do ganha-pão. Com o Santos também ia às meninas. Geralmente ao sábado à noite, nem todos os sábados, só quando podiam. Depois, o Santos casou e acabaram-se as noitadas a dois. Ainda tentou aliciar o Almerindo mas em vão porque o Almerindo fizera uma jura de nunca pagar para “amandar uma pinocada”!
Tanto um como o outro já lá estavam, tinham ido à sua frente para a terra da verdade.
- Pois é, pois é… - e o doutor franzia o sobrolho, preocupado.
Mandou-o fazer exames. Análises, TAC, uma prova de esforço, mais uma ressonância magnética. Gastou uma mão cheia de dinheiro e continuou a tomar ampolas de magnésio, embora com resultados muito fracos. A única vantagem é que tinha menos cãibras nas pernas, de noite.
Por fim, estava passado quase um ano desde que começara naquela vida, acabou por lhe ser diagnosticada a doença, sem sombra para dúvidas. O doutor dissera-lhe o nome mas assim que saiu do consultório, a designação esvaiu-se, apagou-se e passou a fazer parte das coisas de que não se lembrava. Só lhe ficou a martelar a ideia de que tinha um nome arrevesado e não tinha cura nem havia volta a dar. Ia continuar a esquecer-se de tudo, até ao dia em que a sua memória fosse apenas uma mancha branca, um vasto lençol estendido sobre a sua vida passada, apagando-lhe o prazer das boas recordações e a mágoa das más.
O médico receitou-lhe mais medicamentos, mandou-o exercitar o cérebro, ler, fazer palavras cruzadas. Encaminhou-o para a Segurança Social, a fim de tratar de um apoio para quando a doença já não lhe permitisse viver sozinho.
A sua primeira reacção foi de medo que foi crescendo até ao nível do pânico. Depois acalmou-se.
Voltou para casa e enquanto grelhava uma tira de entremeada para o almoço, olhou em redor e sentiu-se melhor quando percebeu que reconhecia todos os objectos, sabia como fazer uma refeição, ainda sabia que aquele instrumento era um garfo e aqueles pauzinhos eram fósforos.
Agora bastava-lhe não se esquecer de que era preciso tirar a pele daquelas bolas acastanhadas, antes de as meter dentro de água, ao lume. Elas tinham nome, certamente que tinham. E ele sabia-o. Logo se lembraria.
Nessa tarde, saiu e foi à papelaria do Centro comprar umas quantas folhas de etiquetas autocolantes. Voltou para casa e sentou-se na sala, a escrever o nome de todos os objectos que o rodeavam. Pela noite dentro foi colando etiquetas um pouco por toda a casa, identificando mesas e cadeiras, sofás e armários, pratos e copos, a pasta dos dentes, a caixa de guardar os óculos.
Em algumas coisas foi deixando uma folhinha anexa, explicando a utilização a dar-lhes – o sal é para pôr uma pitada na comida, a substância daquela caixa é para passar nos sapatos e esfregar com aquele objecto que se chama escova; o ferro de engomar queima mas é preciso estar ligado pelo fio aos buraquinhos da tomada, na parede.
Por fim, alinhou as caixas dos diferentes comprimidos e colou em cada uma a respectiva etiqueta com a dose diária a tomar. E no armário por cima do lava-louça, na cozinha, e no espelho da casa de banho, dois avisos iguais: “Vai tomar os comprimidos!”
Sentiu-se contente. Ia bater a doença. Ia vencê-la pelo cansaço.
Já a manhã clareava quando se sentou a escrever a última recomendação que titulou em maiúsculas centradas ao cimo da página - MEMORANDO: “Se te esqueceste de tudo o resto e não sabes o que estás aqui a fazer, chegou a hora de partires. Veste-te, penteia-te, solta o Pepe e vai buscar todos os teus remédios que estão na bancada da cozinha. Mistura-os e engole-os com um copo de água bem cheio. Depois senta-te no sofá, liga a televisão e espera que o tempo passe.”
Pregou esta folhinha ao abajur do candeeiro da mesa-de-cabeceira e foi à sua vida, sem se preocupar mais com a falta de memória.


8 comentários:

Maria João Louro disse...

Madalena,

Excepcional!!!!!
Adorei!
Este texto tem tanto de angustiante, como de verdade.
Talvez por ter pessoas por perto com alzheimer perceba tão bem o significado de cada palavra deste texto.

Obrigada.

Um grande beijinho.

Maria João Louro

Fernando Reis disse...

Em bom português: welcome back!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Eis que a boa filha volta ao lar.
Belo texto Madalena, um pouco triste, porém demonstra o alto gráu de resignação e determinação do Sr. Alberto. Maravilha! Muito bem coordenado.

Engraçado, não sei se já notaste, mas eu sou um dos teus mais antigos segudores, e nunca recebi uma visita tua.

Beijos,

Furtado.

Ana disse...

Este é forte!
Bem sabes que a mim me assusta muito... Por outro lado, atenuaste a situação ao não atribuir nenhum familiar. É tão mais fácil pensar assim, não é?
De outro ponto de vista, o memorando é sem dúvida o melhor remédio!
"Death is just another path..."
beijinhos

Felipa disse...

Tremendamente realista... mas espero que haja outras soluções.
Muito bem escrito.

Mar Arável disse...

Eu queria fazer um comentário

naturalmente ilogioso

mas já não me lembro

bjs

Rita disse...

Assim não vale. Li o Memorando quando o publicaste. E escrevi logo um comentário. Lembro-me, boa coisa lembrar-me, que saudava o teu regresso à Gaveta e dizia que começas a já não ter direito de fazer ausências tão prolongadas. Depois dizia que gostei muito (lembro-me que quis dizer "mesmo muito") do conto; por tudo, pela fluidez da escrita, pelo gosto que é ler o bom português que escreves e, mais que tudo, porque encontraste forma de, a final, este homem continuar dono da sua vontade mesmo depois de já não saber que a tem. Escrevi isso tudo e depois ... devo-me ter esquecido do "nome de utilizador" desta coisa da conta gmail ou mesmo da "palavra passe" e nada seguiu. A ver se me lembro desta.

Pedro Teias da Ega disse...

Bom regresso