sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O SEMÁFORO

Por Madalena S.

O semáforo caiu para vermelho dois instantes antes de poder passar com segurança. Ainda pensou em acelerar e tentar a sorte mas, no último momento, o pé direito girou rapidamente do acelerador para o travão e o esquerdo levou a embraiagem a fundo fazendo o carro estacar com alguma chiadeira dos pneus.
Porque teve a noção de que a manobra podia ter induzido o condutor que a seguia em erro, instintivamente olhou pelo espelho retrovisor. Não havia azar. O carro de trás parara em segurança.
Irritava-a ter de parar naquele cruzamento porque o sinal demorava imenso tempo até voltar a ficar verde, mas quando era preciso, era preciso.
Olhou em volta. À sua direita parara um carro comercial, com umas listas verdes na diagonal e um logótipo que, com alguma boa vontade e uma generosa dose de criatividade, seria um parafuso. Por baixo, a confirmação: Ferragens São Martinho. Mirou o condutor que tinha o dedo indicador direito todo enfiado no nariz e quedou-se a apreciar a técnica com que o dito o rodava cuidadosamente, numa manobra em tudo semelhante à do parafuso, trazendo-o até à entrada e voltando a rodar de modo a enfiá-lo até meio, o polegar a auxiliar o manejo segurando a aba da narina… O homem deve ter sentido que estava a ser observado porque olhou de esguelha e retirou rapidamente o dedo, ao mesmo tempo que passava a mão na cara como se estivesse a espalhar o sono e o cansaço.
Sorriu para dentro e desviou o olhar, voltando a espreitar pelo retrovisor.
No carro de trás, um casal sentava-se em silêncio, ele ao volante, ela no lugar do pendura, cada um olhando para fora do carro pela respectiva janela.
Deixou-se ficar a olhar. O cabelo dele começava a rarear na frente e o dela mostrava uma raiz mais escura que o resto, denunciando necessidade de tinta fresca. Estariam na casa dos quarenta, a meio caminho para os “enta” seguintes.
Ele abriu a boca e disse qualquer coisa sem, contudo, olhar para ela. Ela não respondeu. Ele voltou a falar, olhando em frente e gesticulando com a mão direita enquanto a esquerda se mantinha, displicente, sobre o volante. Dessa vez ela respondeu, inclinando a cabeça para a esquerda enquanto falava mas sem desviar, ainda assim, os olhos da janela.
Imaginou-os casados. Ela, “Deolinda de Jesus”, administrativa na função pública, numa conservatória. Com quase trinta anos de serviço sonhava com a reforma mas via-a cada dia mais longe e isso deixava-a deprimida. Ele, “António José”, pasteleiro. Ou empregado de mesa numa pastelaria. Sim, era mais isso. “Via-o” de camisa branca e calça preta, com o nome numa placa de alumínio pregada no bolso da camisa, a pedir uma meia de leite e um jesuíta para o senhor engenheiro, lançando a voz meio gritada para dentro do balcão.
Fantasiou-os no dia do casamento. Na igreja de Santo António, com mais uma dúzia de outros noivos. Tinham sido noivos de Santo António. Ela estava bonita nesse dia. Mas agora, vendo-a assim através do vidro, não lhe parecia bonita, nem bem arranjada. Como é que o “António José” a teria conhecido? E o que é que o levara a apaixonar-se por ela?
Mas ele apaixonara-se. Sem remédio. Pois se até tinham casado… nessa época ela era magra e tinha o cabelo de uma cor só. Era fácil apaixonar-se.
O difícil era perceber como é que se mantinham juntos. É certo que tinha havido aquele caso com a outra. Ora, uma outra… seria quem? Ah, sim, podia ser a ”Zézinha”, cabeleireira, que ele conhecera num jantar em casa de amigos e com quem costumava ir até à praia de Carcavelos, tomar um copo numa esplanada. Não, cabeleireira não, era antes caixa no supermercado, brasileira e chamava-se “Magali”.
Mas a “Deolinda” era uma mulher à séria. Perdoara. Também não havia grande coisa para perdoar porque aquilo não passara de um devaneio e ele nem nunca chegara a molhar a sopa.
Agora olhava para eles, assim à socapa, numa imagem reflectida, e deu consigo a pensar como seria a vida desta gente, “Deolinda” e “António” – podiam ser Maria e Manuel ou José e Casimira que, para o caso, tanto faria. A curiosidade era acreditar que ele ainda gostava dela. O que seria, porém, que o fazia gostar de uma mulher que não tinha nada a ver com a mulher por quem se apaixonara há vinte anos? O hábito? Porque é que nos mantemos ao lado da mesma pessoa ano após ano? É para sempre? Nem sempre é para sempre.
“António José” voltou a dizer qualquer coisa e “Deolinda” riu-se, rodando o rosto para ele. Era isso, ela tinha sentido de humor. E na cama ele passara a apreciar mulheres mais cheiinhas. Visualizou a cena na sua cabeça. Ele e ela, nus… ou com pijama? Pijama ele e camisa de noite ela… talvez um negligé preto… hum… provavelmente era essa a cola que os mantinha unidos…
De repente uma buzina soou, frenética, e o “António José” gesticulou na sua direcção e do semáforo, o vizinho do lado acelerou o carro das Ferragens São Martinho e, em simultâneo, ela percebeu que o sinal estava verde. Avançou e esqueceu por instantes o casal do carro de trás e o facto de algum dia os ter imaginado na intimidade.
Quando voltou a olhar, o carro atrás de si era um táxi cheio de turistas.

1 comentário:

Dalva M. Ferreira disse...

Gostei! Mania que as pessoas tem de pensar que o carro é uma extensão da própria casa... Fazem ali coisas que, certamente, farão no escondidinho de suas alcovas. Muitas delas, um nojo (parafusar o nariz, ora veja!)