quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O MILAGRE

Por Madalena S.

Acordou com esforço, os olhos teimando em não se abrirem, as pálpebras ramelosamente coladas. Nestes dias em que o despertar era assim difícil, a vontade era de se deixar ficar, não lutar contra este peso que o pregava ao colchão, fingir-se de morto, respirar devagarinho para ninguém dar por ele.
Apurou o ouvido e sentiu a chuva a cair na rua atapetada pelo amarelo-torrado das folhas dos plátanos outonais.
Sentiu uma certa alegria ao pensar que a chuva ia impedir a estucha de trabalho que o esperava nesse domingo.
Um nó no estômago indicou-lhe que era errado pensar assim.
Aquele fogo a comer-lhe as entranhas era uma sensação que o assaltava sempre que o seu interior lutava desta maneira, o grilo falante da sua consciência a azucrinar-lhe os ouvidos e a aguçar-lhe o bicho do remorso.
Mas, por outro lado, a chuva não era responsabilidade sua. E se chovia daquela maneira, só tinha de humildemente aceitar a diluviana vontade divina que assim afogava a cidade.
Afastou os lençóis, cambaleou em direcção à casa de banho e tratou da sua higiene matinal. Era frugal nestas coisas: um duche rápido, a barba feita com uma lâmina das mais baratas, descartável, dentes escovados com genica e pouco mais. O cabelo tinha pouco que pentear e a fraca variedade de roupa também não obrigava a escolhas problemáticas. Ainda assim, teve dificuldade em encontrar um par de meias sem que, pelo menos uma delas, tivesse um buraco.
Enquanto mastigava uma torrada que ia molhando na chávena de café com leite para amolecer a côdea, rezava afincadamente para que a chuva continuasse a cair.
Saiu de casa e caminhou apressado, lutando com o chapéu-de-chuva mas não evitando que as calças se ensopassem e os pés se alagassem dentro dos sapatos de sola grossa.
Chegado ao destino, tinha as manas Antoninhas à sua espera e teve de ouvir as suas lamúrias a respeito da chuva e de como o dia estava mau e de como tudo podia estragar-se…
Foi assentindo, entre resmungos mal-humorados, mas, no seu íntimo, uma luz ia-se acendendo aos poucos na esperança de que a chuva não parasse.
Quando chegou o Hilário, mandou-o preparar tudo na mesma porque a chuva podia muito bem parar.
- Mantemos a hora de saída? – Perguntou o Hilário.
- Claro. Não está previsto para as três?
- Sim, mas com esta chuva…
- Bom, a essa hora logo se vê.
Ao meio-dia, a chuva parecia ter redobrado de intensidade. O seu coração iluminou-se mais um bocado enquanto mastigava a bifana rija que o Hilário lhe fora buscar ao café do cunhado, empurrada com uma cerveja preta sem álcool.
À uma da tarde, até trovejava e ele começou a ter dificuldade em disfarçar o bom humor que, aos poucos, parecia querer tomar conta de si. Afinal, não podia dar a entender que estava satisfeito com aquele contratempo. Para não levantar suspeitas, fardou-se a rigor.
Seriam umas duas e meia quando a chuva parou subitamente. Nem queria acreditar. Olhou para as manas Antoninhas nas suas farpelas domingueiras e só lhe apeteceu despejar-lhes um balde de água em cima, para aprenderem.
O Hilário entrou de rompante:
- Está a chegar gente aos molhos!
- É um milagre! – Anunciou a Maria Antoninha.
- Louvado seja Deus! – Completou a Antoninha Maria.
Eram três e vinte e um sol tímido espreitava por entre as nuvens que desapareciam rapidamente deixando entrever largos pedaços de céu azul, quando saiu para a rua e se colocou debaixo do pálio, depois de o último andor, com a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, ser carregado pela escadaria da igreja com a dificuldade que o seu peso exigia. Atrás de si, a filarmónica da terra entoava uma marcha de procissão num som roufenho e desafinado, seguida por uma multidão de fiéis que encerrava o cortejo.
Voltara-lhe o mau humor. A sorte é que a populaça entendia o cenho carregado como sacrifício e não como sinal de frete. Olhou para o andor que seguia na sua frente e pareceu-lhe que a imagem de madeira se voltava lentamente para o mirar por cima do ombro e para lhe dizer, com um sorriso trocista:
- Mas passou-te pela cabeça que iria chover à hora da procissão? Não estás bom do juízo, rapaz. Então eu sou Nossa Senhora dos Milagres, para quê? Que vergonha. Um padre sem fé!
Abanou a cabeça desalentado, pensou “Estou feito!” e, pelo sim, pelo não, iniciou um rosário completo e fervoroso de Ave-marias. Para se penitenciar.

8 comentários:

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Fiquei muito feliz com a tua visita, o comentário e, principalmente por teres te tornado seguidora do nosso humilde espaço. Isso somente aumenta a minha responsabilidade de melhorar tudo aquilo que crio e escrevo. Espero que voltes mais vezes, pois será sempre um prazer renovado.

Adorei o texto. Muito bem coordenado. Um verdadeiro alerta para aqueles de pouca fé. Será que ele continua rezando até hoje?

Beijos,

Furtado.

Felipa disse...

Apenas um pequeno reparo: os padres não se fardam, paramentam-se. Fora esse mínimo detalhe está perfeito, gosto do modo como escreve. E quem não conhece umas Antoninhas por aí?

Madalena S. disse...

Resposta à Felipa:

Obrigada pelo seu reparo. Eu sei que os padres não se fardam, paramentam-se.Mas já agora gostaria de deixar aqui uma explicação: a ideia era que não se percebesse, até ao final do texto, que se tratava de um padre com pouca vontade de fazer uma procissão. Daí que eu tivesse optado por não utilizar nenhuma expressão que pudesse induzir o leitor a ter essa percepção antes do momento certo. Será que o consegui, ou não? Ou seja, gostaria que a Felipa me dissesse se, no momento em que eu referi que ele se" fardou a rigor", já sabia que se tratava de um padre. Era importante, para mim, ter essa noção.
E, mais uma vez, obrigada pelos seus comentários.

Felipa disse...

Eu gosto de contos, e os contos normalmente são imprevisíveis; deve ser por isso que eu gosto. Quando li que ele se fardou imaginei um bombeiro (até ali imaginava um escritório ou um consultório médico) e comecei a tentar perceber o final (é assim que eu leio os contos, sempre a tentar adivinhar o final) mas depois deparei com essa falha, em relação aos paramentos.
Estive eu própria a pensar como diria isso, se fosse eu a escrever, e só me ocorreu isto: vestiu-se a preceito; deu uns últimos retoques na indumentária que acabava de vestir; vestiu as roupas que o Hilário preparara.
Continue a escrever, os seus contos são bons. Chamei-lhe a atenção apenas porque estou interessada no que escreve e tenho o costume de dizer o que penso, se for para ajudar a melhorar o trabalho de cada um.
Boa continuação.

JAIRCLOPES disse...

Aproveito para recomendar o blog: www.seteramos.blogspot.com lá você encontra um excelente texto em homenagem a Grabriela Mistral. Vale a pena ler.

Pedro Teias disse...

Há contos na gaveta para o novo ano?

E uma edição dos contos, seria plausível?

Cumprimentos

Manuel Clemente disse...

Olá..."surprise"!!!!Boas surpresas são sempre alavancas para o nosso renascimento na "fé" de que ainda vale a pena continuar a acreditar neste veículo que é a "cultura"..e a "sensibilidade", nos seus mais diversos cambiantes...Ela nos alimenta...seja a "alma",seja o "espirito"...seja a "energia"...seja uma especial dinâmica para nos reitalizarmos.

Bons textos.

"Fardado a preceito"...Concordo!!!O que é um "paramento" se não um tipo de fardamento...não retira às "vestes sacerdotais" nenhuma dignidade e dá-lhe o sabor subjectivo do que pretende a/o autora/autor..." paramente-se a farda e fica tudo estabilizado...Certo?!Manuel Clemente

Manuel Clemente disse...

Errata:No texto/comentário anterior: onde está "reitalizarmos" deve ler-se "revitalizarmos".
Bjs-Manuel Clemente