terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A CASCA DE BANANA

Por Madalena S.

Ao fim de 30 anos de abusos e desconsiderações, Adelina atingiu finalmente o limite da paciência e da subserviência.
O ponto de ruptura deu-se na noite de passagem de ano quando, faltava um quarto para a meia-noite, a cunhada lhe telefonou a perguntar por onde andavam e ela teve de lhe responder que não andavam por lado nenhum: ela estava em casa, à espera do Júlio que ficara de a ir buscar às nove mas, até àquela hora, ainda não aparecera.
A cunhada ainda tentou convencê-la a ir ter com eles – sem grande convicção, é certo – mas ela recusara. Não ia chegar antes da meia-noite e não lhe estava a apetecer passar o ano na rua, no meio de coisa nenhuma a caminho de uma festa de família onde, ainda por cima, a sua presença sem o Júlio ia causar constrangimentos.
À meia-noite, levantou-se do sofá, meteu doze passas na boca e bebeu um golinho de vinho do porto para empurrar. E decidiu para si mesma, em silêncio: acabou-se!
O Júlio apareceu no final do dia de Ano Novo, seriam já umas onze e meia da noite, com uma bebedeira que devia ser a mesma que apanhara na noite de Natal, sujo e mal cheiroso e a arrastar a voz enquanto lhe ia contando pormenores da sua noite de passagem de ano, com o Zé e o Bexiga e com umas amigas deles, umas gajas todas boazonas que tinham feito isto e aquilo e frito e cozido.
Adelina nem respondeu.
A Graciete dera-lhe o nome do advogado que lhe tratara do divórcio. No dia seguinte ia falar com ele e acabava com aquilo de uma vez por todas.
Mas, depois, o Júlio começou a descrever com minúcia o que tinha feito especificamente com uma das boazonas. Sentado à mesa da cozinha, a descascar uma banana, ia falando como se estivesse a gabar-se para uma roda de amigos e não na presença da sua mulher. Uma mulher que tinha dezasseis anos quando casara com ele; que lhe dera três filhos maravilhosos; que trabalhava que nem uma moira, de manhã à noite, para sustentar a casa, os vícios do marido e os estudos dos filhos.
Já nenhum vivia com eles e, com a saída dos rapazes lá de casa, tudo se tornara ainda mais difícil. Nos trinta anos de casamento amargurado, Adelina não podia queixar-se de grandes tareias mas levara, por junto, talvez uma meia dúzia de tabefes e um único soco de mão fechada que lhe partira um dente e lhe deixara uma cicatriz fininha por cima do lábio.
Mais do que a violência física, o que a fartara de vez fora a violência psicológica, os vexames e humilhações, o abandono, a falta de respeito e consideração.
E agora que estavam sozinhos, até parecia que a coisa piorara. O vício do álcool acentuara-se e o abandono crescera desmesuradamente. A tal ponto que ela nem conseguia identificar as emoções que lhe povoavam o espírito. A única certeza é que não era amor, nem paixão, mas tão pouco ódio ou rancor. Tudo se desvanecera com o passar dos dias e, durante muito tempo, Adelina apenas sentira medo, um pânico quase absurdo, uma vontade urgente de se tornar invisível de cada vez que Júlio entrava em casa.
Nessa noite, porém, até esse sentimento de pavor doentio desaparecera. Olhou para ele que se ria alarvemente e pensou: “Mas até quando é que vais aturar isto, Adelina? Divórcio? Ele nunca vai aceitar. Não vai assinar papel nenhum, não vai falar com advogados, nem juízes, nem porra nenhuma. Ainda vai ficar ressabiado e vai moer-te a dobrar. Às tantas, voltas a apanhar que é coisa que nos últimos anos nem tem acontecido.”
As ideias fervilhavam-lhe na cabeça. Podia ir-se embora mas não tinha para onde. Não queria ir sobrecarregar os filhos. Os rapazes tinham a vida deles. O mais velho vivia com a namorada, a casa era minúscula, não dava para mais quem quer que fosse. O do meio partilhava um apartamento com três colegas e o mais novo alugara um estúdio encavalitado numas águas furtadas na zona do Castelo onde ele mal cabia, quanto mais a mãe e as suas tralhas.
E o Júlio que não se calava com a boazona assim e a boazona assado. E ria, o animal!
De repente, Adelina sentiu descer sobre si uma calma inexplicável. E, nesse mesmo instante, soube exactamente qual era a solução para o seu problema.
Abriu a porta do armário onde guardava as panelas e procurou a frigideira grande de ferro. Agarrou-a pela asa comprida, com as duas mãos, e mirou o formato, pesando-a a olho, avaliando a capacidade de movimentação e a velocidade que lhe conseguia imprimir.
Aproximou-se do Júlio, por trás, levantou a frigideira e lançou-a com toda a força sobre a nuca do marido. A pancada da frigideira a bater em cheio no crânio do homem soou grave e pesada e o Júlio caiu de borco sobre a mesa, inanimado, o sangue a jorrar-lhe de uma brecha larga, aberta ligeiramente acima do pescoço.
Adelina posou a frigideira no lava louça e voltou para junto do homem. Colocou-lhe dois dedos no pescoço, à procura de pulsação, mas não encontrou nada. Encostou o ouvido o mais possível à cara dele, tentando ouvir algum silvo, mesmo que frouxo, de respiração. Nada.
Foi à mala buscar o espelhinho pequeno que usava para arranjar as sobrancelhas e colocou-o em frente da boca do Júlio. Nem pingo de vapor. Voltou a tentar encontrar-lhe um vestígio de batidas do coração, no pescoço e no pulso, e mais uma vez não sentiu coisa alguma. Estava visto. Fora instantâneo. Júlio quinara sem sequer perceber o que lhe acontecera.
Então, Adelina agarrou-o por debaixo dos braços e levantou-o da cadeira. Sorte que a má vida que o homem sempre levara o deixara assim enfezado e mais leve do que seria normal num homem feito.
Puxou-o para junto da bancada de mármore do lado do fogão e mediu a distância com uma olhadela entendida. Aproximou-lhe a zona da ferida do bordo da bancada e, quando achou que a distância era a correcta, largou-o. A cabeça do homem bateu em cheio na esquina de pedra e o corpo morto escorregou em direcção ao chão de mosaico, deixando um rasto de sangue a escorrer pela porta do armário.
De seguida, Adelina pegou num esfregão, encheu um alguidar de água com lixívia e limpou a mesa até não restar um único vestígio de sangue. Lavou a frigideira, limpou-a e guardou-a no lugar devido. Colocou a fruteira sobre a mesa, olhou em volta certificando-se de que tudo estava no lugar e, então, agarrou na casca da banana que Júlio estivera a comer e, pegando num pé do cadáver, obrigou-o a pontapear a casca, como se esta estivesse no chão e ele tivesse escorregado. A casca voou até à outra ponta da cozinha, deixando um rasto pegajoso no sítio onde supostamente teria sido pisada e Adelina largou o pé do morto que caiu e ficou ali, inerte, a biqueira do sapato a apontar para coisa nenhuma.
Apagou a luz, saiu da cozinha e foi-se deitar. Armou o despertador para as quatro da manhã e adormeceu pacificamente. Quando o despertador tocou, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e caminhou até junto do corpo que continuava na posição em que o deixara. Voltou a certificar-se de que se tratava de um cadáver, procurando o pulso que não encontrou, obviamente, tanto mais que, por essa altura, o corpo já se encontrava asquerosamente frio.
Foi buscar o telefone e ligou para o 112. Deu todas as indicações que lhe pediram e, quando desligou, sentou-se e ficou a aguardar enquanto revia mentalmente a história que engendrara: deitara-se cedo, pelas dez horas. Não dera por o marido entrar em casa. Às quatro da manhã levantara-se, viera à cozinha beber água e deparara-se com aquele espectáculo.
Ainda considerou deitar umas lágrimas mas depois pensou melhor e achou que era preferível não fazer cenas dessas. Toda a vizinhança conhecia a sua relação infeliz e ninguém estava à espera de grandes manifestações de desgosto. Mais valia ser sincera.
Recostou-se na cadeira, em espera silenciosa, e deu graças a Deus por todas as noites em que, sozinha, vira e revira duas e três vezes, todos os episódios do CSI.

5 comentários:

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Gostei muito da estória/história. A Adelina planejou muito bem os mínimos detalhes, só que, é bom lembrar que não existe crime perfeito.

Beijos,

Furtado.

Sônia Brandão disse...

Perfeito!
A vingança é um prato que se come frio.

Janete disse...

Apesar do dramatismo e de ser uma história triste, é facto que não pude deixar de me rir com o desfecho.
Gostei muito Madalena!

Rita disse...

Incursão pelo crime. Interessante. Não me lembro de te ter visto antes entrar por aí. Gostei, entraste bem, embora - talvez - com "calculismo CSI" em excesso (aviso: eu nunca vi o CSI, é mesmo só ciência de ouvir dizer ...)Parece-me frio demais, não o acto, que acho que sai bem contado e credível, mas o depois do acto. Quem conseguiria ir para a cama, calmamente, depois? E dormir ? Ela conseguiu. Mas com isso perde em humanidade. Eu acho que só na ficção é que a vingança se serve fria. Vingança é quente. Beijinhos

Dalva M. Ferreira disse...

Bem feito! Eu também tenho um continho sobre mulher que apanha do marido (http://casosligeiros.blogspot.com/2007/10/tempo-de-goiaba.html ) - mas a minha não assistia TV. Um abraço e feliz dia das mulheres, que já passou, para todas!