sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

DEAN, FRANK E SAMMY

Por Madalena S.
Entrou no teatro pela porta pequena dos artistas.
Subiu a escada esconsa que conduzia aos camarins e, na passagem, atirou um “boa tarde!” para dentro do cubículo onde o Emílio dormitava intermitentemente, equilibrando os seus oitenta anos para trás e para a frente na cadeira de baloiço tão velha quanto ele.
Era cedo. O sítio estava deserto mas era àquela hora que mais gostava de ali estar, quando a ausência de movimento emprestava às sombras e às curvas labirínticas do espaço entre o palco e os camarins uma patina mágica, dourada e aromatizada com o cheiro envelhecido das almas dos que por ali haviam passado antes.
Entrou no seu camarim minúsculo, acendeu as luzes que iluminavam profusamente o espelho grande e brilhante e sentou-se no cadeirão que tomara já as suas formas com o uso continuado de uma vida.
Escolheu entre a pilha de CD amontoada numa extremidade da mesa uma gravação do Dean Martin e colocou-a no leitor, carregando no Play.
- Vamos a isso, Dino, old friend!
A voz arrastada do velho crooner soou melodiosa: “How lucky can one got be, I kissed her and she kissed me, like the fellow once said, ain’t that a kick in the head”. Trauteou a letra com mestria, garantindo que a sua voz coincidia com a do cantor que idolatrava desde a juventude.
Da prateleira lateral ao espelho, por cima da sua cabeça, retirou uma garrafa de Jack Daniels e um copo e serviu-se de uma dose generosa.
Depois, enquanto as melodias se sucediam e o bourbon lhe aquecia a garganta, foi preparando a sua transformação. Colocou uma base de cor específica na cara e, de seguida, com um pincel que ia molhando num frasquinho, foi colocando as rugas no sítio certo, disfarçando as próprias e criando outras. Com um pó mais escuro sombreou os olhos de modo a salientar as olheiras sobre os papos que lhe vincavam a expressão do olhar.
Penteou o cabelo de forma peculiar, puxando-o para trás, nos lados, para lhe dar aquele toque de anos cinquenta que agora até parecia que estava outra vez na moda.
As duas horas seguintes passaram sem dar por isso. Parou a sua tarefa apenas para mudar para outro CD.
Vestiu as calças do smoking, colocou os botões de punho na camisa branca com folhos no peitilho e a faixa de cetim sobre a cintura. Vestiu o casaco, ajeitou as mangas e sentou-se no cadeirão recostando-se e fechando os olhos.
Bateram à porta e abriram antes que ele dissesse algo:
- Estás pronto? – Perguntou o Carlos, enquanto enfiava a cabeça dentro do camarim.
- Há muito tempo. E vocês?
- O Firmino está a vestir-se mas eu só cheguei agora. É rápido.
- Não sei como consegues transformar-te em Frank Sinatra em cinco minutos.
- É a prática. Até já.
Esperou alguns instantes e, antes que o contra-regra tivesse de o vir chamar, saiu e dirigiu-se para o palco. Ficou ali, a olhar para as bailarinas que constituíam o número de abertura daquele musical que, ia para dois anos, se mantinha em cartaz com um sucesso inexplicável.
Quase no fim do número, Firmino com o seu gingar à Sammy Davis Jr. e Carlos, ainda a compor as calças do smoking, juntaram-se-lhe.
As bailarinas saíram de cena e na aparelhagem sonora, uma voz em off anunciou como se estivessem em Las Vegas:
- And now… ladies and gentlemen… The Rat Pack!
Entraram no palco e, nas duas horas seguintes, a sua perfeita imitação de Dean Martin garantiu-lhe o ordenado de mais um dia, assim como ao Frank e ao Sammy, seus colegas de lides artísticas e seus vizinhos na Praceta de Bafatá, em Sacavém, há mais de trinta anos.

2 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

A prática, a rotina, os atos repetidos até a náusea. Isto acaba se tornando uma segunda natureza, em detrimento das sensações e das vivências novas. É inevitável. Quanto a Sacavem, garanto que Dean, Frank e Sammy sentir-se-iam honrados em conhecer esta linda localidade e a sua antiquíssima história! Eu, pelo menos, adoraria andar pelas escadarias da cidade velha... quem me dera, quem me dera.

Chela disse...

Gracias por tu visita a mi blog y dejarme un comentario con la letra de uno de mis fados preferidos.

Me gusta tu blog,y me gustan tus relatos; en este último mencionas a un grupo excepcional, los recuerdo juntos en una película titulada "La cuadrilla de los once" que estaba muy bien, y en otras muchas en que nos deleitaban con sus hermosas canciones.

Acabo de incluirme como seguidora de tu blog para visitarte.

Entiendo el portugués anunque no lo escribo. Supongo que tu también comprendes el español aunque no lo escribas, así que podemos domunicarnos en nuestros respectivos idiomas.

Un saludo desde Galicia, que es como un poco de Portugal.