domingo, 27 de junho de 2010

O MACHO

Por Madalena S.

Silvestre Amorzinho, apesar do nome, era um macho. E latino.
Mas a latinidade fora um acaso, porque podia ter nascido na Escandinávia, na Terra do Fogo, ou em Vladivóstok que nada mudaria para si. Seria sempre um macho e orgulhava-se disso.
Tinha pelo na venta. E não só. Tinha pelo no peito, nas costas, no pescoço grosso como um tronco de árvore, nas pernas grossas como dois troncos de árvore.
Ainda andava descalço pelo meio dos trigais a perder de vista na sua Amareleja natal quando sentiu pela primeira vez que era um macho. Verdade se diga que essa primeira vez o deixou um bocado acagaçado nos seus frugais doze anos, face à poderosa sensação até aí desconhecida. Mas rapidamente lhe passou o cagaço e, mais rapidamente ainda, lhe nasceu esse espírito de varão, de galo de capoeira bicando em tudo o que era galinha e arrasando a crista dos rivais, simples pintos efeminados e mortiços.
Zarpou da Amareleja directamente para a Pontinha, aquartelado no Regimento de Engenharia nº 1 para cumprir três anos de serviço militar obrigatório, dois dos quais nas águas tépidas da Baía de Luanda quando o mandaram para a guerra mas a sua boa estrela lhe atirou o processo para o fundo de uma qualquer gaveta do sistema e por ali ficou esquecido, na cidade, a arrastar os fundilhos da areia da praia para o Rialto, para emborcar Cucas e galar as miúdas que passavam no largo fronteiro.
Foi a melhor época da sua vida: saía do quartel montado na Solex 3800 que comprara em quinta mão ao Vieira de Avintes – desmobilizado e de volta para a terra – e fazia o pobre motor espremer-se até ao limite, marginal fora em direcção à ponta da cidade para atravessar para o Mussulo na barca do Zé Muxima e ir estender-se na sombra dos coqueiros, colado ao corpo mulato da Sandra, o chocolate da sua pele jovem a contrastar com a areia branca e fina até quase o enlouquecer.
Tanto gostou daquela terra que, depois da tropa, ficou por lá. Levou a Sandra para uma casa que arranjou no Bairro das Ingombotas e começou a trabalhar como empregado de mesa, no Clube Naval. Ganhava bem e prosperava. Era feliz. Depois a Sandra ficou grávida e arredondou as formas. Sobretudo à terceira vez. E ele começou a demorar-se mais para voltar para casa. Até que, à quarta vez, desapareceu por mais de seis meses e só regressou quando o Baleizão, colega no serviço de Bar, o informou do nascimento da Maria Flor, a sua filha mais bonita. Pelo menos das que tinha conhecimento.
Em setenta e cinco, quando toda a gente fugiu de Luanda como da peste, Silvestre Amorzinho decidiu não retornar. Ficou sem o emprego mas os anos que levara a servir à mesa no Clube Naval tinham-lhe dado contactos. Conseguiu passagens para mandar a Sandra e os miúdos para a metrópole e, livre de preocupações, dedicou-se às negociatas próprias dos tempos de guerra. Fez amigos na FNLA, na Unita e no MPLA e levava e trazia informações para os militares portugueses que tratavam da última ponte aérea.
Viveu no arame até setenta e nove quando morreu Agostinho Neto.
A chegada do novo presidente ao poder coincidiu com a sua partida, primeiro para a África do Sul, de lá para o Quénia, depois para a Holanda, Inglaterra e, finalmente, Lisboa. Na bagagem trazia mais quatro mulatas que fora coleccionando durante esses anos de loucura e a quem chamava assistentes. Vinha rico e, na passagem por Amesterdão, ainda ficou mais rico quando trocou o que trazia escondido no forro do casaco por uns bons milhares de dólares.
Instalou-se como um nababo num andar à Avenida dos Estados Unidos da América, dez assoalhadas gigantescas no topo de um prédio luxuoso, com direito a terraço panorâmico. A vizinhança olhava para ele de lado, desconfiada daquele entra e sai de mulatas a que rapidamente se juntou um pequeno exército de empregadas louras, umas para cozinhar, outras para limpar, outras para o que fosse preciso.
Em menos de nada chegou a Sandra com as quatro crianças que, entretanto, se transformaram em quatro adolescentes bravios, dois machos e duas fêmeas comandados pela mais nova, a bela Maria Flor, rainha na beleza e na rebeldia, líder incontestada daquela tropa de guerrilha urbana, nome de culto na noite Lisboeta.
Silvestre Amorzinho bancava a extravagância dos filhos e das mulheres que proliferavam em sua casa. O dinheiro jorrava dos seus bolsos como petróleo.
Era o rei da mansão. O Hugh Hefner português.
Até ao dia em que lhe cheirou a esturro. Andava desconfiado. A Sandra dera em sair muito de táxi. Ora ele pagara-lhe a carta de condução e, para além disso, tinha motorista. Começou a empreender naquilo. Para todos os efeitos, a Sandra era a eterna dona do seu coração. Muito à macho, considerava-a como sua mulher mesmo sem nunca ter assinado qualquer compromisso, nem civil nem religioso, e apesar de tanto afastamento e abandono e de tantos anos sem dar notícias. Quando ela se queixara, ele esticara o indicador em frente do nariz e deixara sair um “shiuuuu” sibilante e ameaçador. A Sandra não voltou a abrir a boca. Mas começou a sair muito. De táxi.
Uma tarde, Silvestre Amorzinho foi atrás dela. Na esquina da Almirante Reis conseguiu reconhecer o motorista de táxi – já o vira mais do que uma vez à sua porta.
Quando os viu entrar na Pensão Cairo, no começo da subida para a Graça, a vista turvou-se-lhe e sentiu um baque como se lhe tivessem dado um murro em cheio no estômago.
Respirou fundo. Aquilo não era coisa que macho que se preza aturasse sem retaliar. Estacionou na rua da Palma e, olhando para os lados para ter a certeza de que não era visto, meteu a mão por baixo do assento do carro e tirou de lá uma arma, um revólver pequeno e robusto, que enfiou no cós das calças, por baixo do casaco.
A vista do revólver desatou a língua ao empregado mal-encarado que se encontrava por trás de um balcão encardido, em frente da porta: em que quarto estavam, quantas vezes por semana, três horas de cada vez, ela é que pagava, às vezes levavam uma garrafa de gin, pediam gelo, saíam juntos tal como entravam, identificavam-se como José e Maria.
- Jesus! – Assobiou Silvestre.
- Não, não. Só José e Maria. Nunca veio nenhum Jesus… - esclareceu o homem, apressado em desfazer qualquer mal entendido de carácter evangélico.
Olhou para o infeliz na sua frente, borrado de medo, e pensou que ia subir a escada e dar dois tiros nos desgraçados. Lavava a honra com sangue. À macho. À moda antiga.
Mas, por uma qualquer razão inexplicável, as pernas não se mexeram. Ficou parado, estático. Desengatilhou o revólver e voltou a enfiá-lo no cós das calças. Deu meia volta e saiu daquele antro agoniante com a maior rapidez que conseguiu.
Até à morte da Sandra, comida por um cancro vinte anos depois, Silvestre Amorzinho, macho do baixo Alentejo curtido pelo sol dos trópicos e por uma vida de aventuras, nunca falou no assunto, nunca deixou que alguém tocasse no assunto à sua frente e nunca mais a seguiu. Quando ela saía de táxi, à tarde, ele sentava-se na sala, em frente do televisor e ficava a ver filmes de pancadaria, luta livre, boxe, artes marciais, o que de mais violento conseguisse encontrar. E esquecia tudo. Até à vez seguinte.

1 comentário:

Rosemildo Sales Furtado disse...

Eis que a boa filha retorna ao lar. Rsrs.

O Silvestre Amorzinho pensava que era macho, mas não passava de um cornão conformado. Belo conto amiga.

Beijos e ótima semana pra ti e para os teus.

Furtado.