terça-feira, 28 de setembro de 2010

O PRIMEIRO PARÁGRAFO

Por Madalena S.

Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão. Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.
O dia amanhecera num tom entre o cinzento e o amarelado, como se as nuvens cerradas não fossem suficientemente espessas para impedir a passagem da luz do sol que, por trás delas, procurava afincadamente romper para cumprir a sua função de causticar aquele tempo de Agosto abrasante.
Chegara-se à janela no instante em que os pingos grossos como bagos de uva começaram uma sinfonia de sons ao baterem no tejadilho dos carros, nas pedras da calçada, nos canteiros e nos caminhos de saibro do pequeno jardim fronteiriço, nos vidros das janelas, no telhado de chapa de zinco da oficina do Ramos. Deixara-se ficar encostado ao parapeito, espreitando o cenário à sua volta, observando a ucraniana que vivia nas águas furtadas do outro lado da rua a apanhar a roupa estendida com a maior rapidez que conseguia; sorrindo perante o desespero do papagaio da D. Carolina, no seu poleiro do lado de fora da janela da dona, retorcendo-se e sacudindo as penas molhadas, calado e demasiado ocupado para repetir até à exaustão o seu “Ó Lina!” com que exasperava os vizinhos; admirando a ligeireza do velho Garcia, sempre coxo e a queixar-se das artroses, das artrites, dos reumáticos, mas que agora atravessava a rua num passo corrido, ligeiro e sem mancar, entrando na leitaria do Vacas com um rompante próprio de adolescente.
Lembrava-se do instante preciso em que as palavras se acenderam dentro do seu espírito, sonoras, volumosas, desproporcionadas, como se uma voz tonitruante lhas ditasse, uma a uma, qual mandamento, o mais importante dos dez, num eco repetitivo para que as memorizasse sem esforço. A ucraniana recolhia a última camisa da corda, a D. Carolina acoitava a sua ave falante e ensopada e a chuva parava, ficando no ar apenas o som dos pingos finais, o último andamento daquele concerto estival de frescura abençoada e a frase inteira, escrita a néon vermelho, intermitente, a brilhar-lhe diante dos olhos: “Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Há quanto tempo procurava em si uma frase assim, capaz de um grande começo, de introduzir um primeiro parágrafo perfeito, sem mácula, limpo de metáforas e de pontuações duvidosas.
Voltou-se com rapidez e mesmo de pé, dobrado sobre a mesa que era de cozinha, de jantar e de trabalho, escrevinhou a sentença numa folha branca e pontuou-a exclamativamente. Endireitou-se e ficou a olhar para a linha única. Voltou a dobrar-se e riscou o ponto de exclamação. Naquela frase, bastava um ponto final. Tão simples quanto isso.
Sentou-se à mesa e ligou o computador. Há dois dias que não lhe mexia nem para ver se tinha correio.
Abriu um documento novo e repetiu a escrita da sua frase, ao cimo da folha, sem se preocupar com formatações. Deixava isso para depois.
“Tinha acabado de cair uma chuvada de Verão.”
Sorriu e continuou a escrever, ligeiro, as letras a aparecerem uma a seguir à outra diante dos seus olhos: “Daquelas repentinas que chegam de súbito e partem da mesma maneira, deixando no ar esse cheiro embriagante de renovação da vida que sobe da terra molhada de fresco.”
Ali estava o seu primeiro parágrafo.
Admirou-o, lambeu-o como os cães lambem as feridas, aspirou-lhe os odores, tomou-lhe o gosto e teve, nessa febre de inspiração, a sua epifania – fosse o que fosse que ele escrevesse em continuação, aquele primeiro parágrafo garantia-lhe a genialidade do romance que há cinco anos lhe fugia. Agora só precisava de definir o narrador, o tempo, o espaço, as personagens, a acção… coisas de nada, comparadas com a falta de um primeiro parágrafo.

1 comentário:

Dalva Maria Ferreira disse...

Não é o nosso caso. Temos tudo, só nos falta o pontapé inicial. Abraço!