segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A RETOMA

Por Madalena S.

No dia em que comprou o andar na Brandoa, Graciliano Baptista não teve dúvidas que atingira os mais altos píncaros da sua vida, a vários níveis.
Profissionalmente estava no auge. Em meados dos anos oitenta, vender automóveis topo de gama era como vender pãezinhos quentes. Não havia yuppie que se prezasse que não estivesse disposto a gastar uma pequena fortuna num modelo desportivo que lhe garantisse o sucesso dos engates de fim-de-semana.
O ordenado base era razoável e as comissões por cada carro vendido pagaram-lhe as mobílias e os electrodomésticos em duas penadas.
Na primavera de 85 casou com a Xana, namorada de longa data, e, quando deu por si, era pai de cinco raparigas nascidas em anos consecutivos. Quando a mais nova acabou de abrir os olhos ao mundo por via de uma cesariana – último recurso de um parto complicado a coroar uma gravidez de risco – o médico aproveitou para dar um nó nas trompas da Xana fechando assim a fonte de onde escorria aquele mar de mulheres que lhe invadira a vida.
- Não pode ter mais filhos! – Fora a sentença.
Graciliano também não queria mais filhos. Mesmo com a venda de carros topo de gama a manter-se em alta, cinco bocas para alimentar, não contando com a sua e a da Xana, eram um peso pesado.
Quando as miúdas eram pequenas, apesar de tudo, as coisas mostravam-se relativamente fáceis: a roupa das mais velhas passava para as mais novas, toda a gente comia sopa, as diversões de fim-de-semana eram familiares e baratas, as férias no parque de campismo de Vila Nova de Mil Fontes não traziam reclamações de maior.
Os problemas estrearam-se com a chegada das adolescências, ao ritmo de uma por ano num intervalo de cinco anos. Homem nenhum está algum dia preparado para tamanha provação.
A sopa foi banida da ementa quotidiana e substituída por batidos energéticos e barritas dietéticas que custavam uma fortuna e só podiam fazer mal à saúde. A roupa da mais velha começou a ser doada no Centro Paroquial porque a mana seguinte se recusava a vestir os trapos usados e esta atitude foi tendo os óbvios reflexos nas restantes. Passaram a usar ténis de marca, jeans de marca, t-shirts de marca, acessórios de marca. A ele, a única coisa que lhe interessava era verificar qual o preço marcado.
A juntar a tudo isto, a viragem do milénio inaugurou uma fase de algum decréscimo no ritmo das vendas. As comissões ressentiram-se.
A Xana ainda pensou em arranjar trabalho mas a dactilografia, que em tempos fora ganha-pão certo, passara de moda. Com a chegada da Microsoft e quejandos, qualquer um dactilografava com quaisquer dois dedos, e apagava as gralhas com mais rapidez do que levava a detectar o erro.
Graciliano Baptista deu consigo a fazer contas à vida. As duas mais velhas estavam na faculdade mas as outras ainda marchavam no compasso do secundário. E embora toda a gente estivesse no ensino público, não deixava de ser uma despesa considerável. Para não falar nos aparelhos dos dentes para as duas mais novas, nem nas lentes especiais para a do meio que, sem óculos, não via um palmo à frente do nariz. E nem queria pensar que alguma delas lhe pudesse aparecer a dizer que ia casar. Seria a calamidade final.
Sentia-se encurralado. Deu por si a matutar em alternativas para arranjar dinheiro.
Foi por esse tempo que conheceu Ramón Garcia.
Amanhecera deprimido, a condizer com o dia frio, cinzento e chuvoso. Fora o primeiro a chegar ao stand, como sempre acontecia desde que o patrão reduzira o pessoal a si, único vendedor efectivo, ao Mané que trabalhava a recibos verdes, à Rosinda do escritório e a ele próprio que, por ser patrão, não se sentia na obrigação de cumprir horário. Como a Rosinda dormia amiúde com o patrão, considerava que também não tinha de cumprir horário e como o Mané dormia, de vez em quando, com a Rosinda, devia considerar-se no mesmo direito do patrão, por interposta pessoa. De modo que até às dez, dez e meia, o stand estava habitualmente por sua conta.
Graciliano Baptista abriu as portas, ligou as luzes e a aparelhagem sonora de onde escoava aquela música de embalar clientes e sentou-se na sua secretária a ler o jornal.
Faltariam uns quinze minutos para as dez, quando Ramón Garcia entrou e lhe deu os bons dias com aquele sorriso de orelha a orelha que o caracterizava. Graciliano Baptista olhou para o homem e, pelo resto da sua vida havia de se lembrar de ter pensado que num dia como aquele, o que lhe faltava para o deprimir ainda mais era um galego qualquer com o espírito inteiro no alto.
Ramón Garcia queria comprar um carro. De luxo. Espampanante quanto bastasse para condizer com o lenço de seda estampado em cores garridas que trazia enrolado ao pescoço. Não queria carros pretos que lhe lembravam funerais. Nem carrinhas de família. Tinha pensado num BMW cor-de-rosa. Queria dar nas vistas. Ao meio dia, depois de muita conversa, Graciliano conseguira convencê-lo de que a BMW em nenhuma circunstância pintaria os seus modelos de cor-de-rosa mas que o Alfa Romeo amarelo gema de ovo, que tinha no stand há mais de um ano, era o último grito da moda. Saíram para um test drive. Almoçaram juntos. No final do dia, Graciliano Baptista fizera uma venda e um amigo.
Por alturas da revisão dos vinte mil quilómetros, Graciliano e Rámon eram quase inseparáveis. Quando não se juntavam ao almoço, faziam-no ao jantar. Graciliano ainda se sentia um bocado estranho nas saídas com o espanhol, porque as pessoas olhavam para eles de esguelha, admiradas com aquele par tão heterogéneo, um de fato e gravata, discreto, cinzento, uma ligeira calvície a despontar a medo, o outro de botas de verniz e calças justas, cheio de pulseiras e de lenços coloridos ao pescoço, sentado ao volante de um Alfa Romeo amarelo gema de ovo que só a quem fosse completamente cego poderia passar despercebido.
Um dia, Graciliano contou-lhe as suas dificuldades. Rámon ouviu-o, em silêncio religioso. No final, disse-lhe que tinha a solução para ele. E explicou-lha. Graciliano começou por se rir a bandeiras despregadas. Parou de rir quando o outro lhe disse quanto podia ganhar por noite. Nem queria acreditar. Andou duas semanas a reflectir e a remoer em cima do assunto, até ao dia em que as duas mais velhas lhe pediram dinheiro para as propinas. Resolveu-se. Foi ter com o amigo e disse-lhe, audaz:
- Aceito!
O dinheiro voltou a entrar no lar da Brandoa como nos tempos áureos do início. Deixou de haver restrições. O que as meninas queriam, as meninas tinham. A Xana quis mudar de cortinados e não encontrou qualquer tipo de oposição. O mesmo para os tapetes do quarto. Foi só quando obteve autorização, sem resistência, para fazer obras e mudar os móveis da cozinha que uma luz de desconfiança se acendeu no seu espírito inocente.
Fez uma cena. Exigiu saber o que se passava. Associou a boa vida recente às novas amizades do marido, incluindo o tal Rámon, o espanhol que ela conhecera umas semanas antes, num jantar, e que se lembrava de ter achado muito esquisito. Amaricado, para não dizer pior. O que andavam eles a fazer todas as noites até às quatro que nunca ele chegava antes dessa hora?
- Graciliano, tu explica-te! Tu andas a traficar?
- Ó mulher! Estás doida? A traficar?! Eu sou lá homem para me meter nessas coisas! Ganhei umas comissões com que não estava a contar! Só isso.
- Ná!... – E a Xana abanava a cabeça recusando-se a acreditar em mentira tão óbvia. Tanto insistiu e tantas acusações lhe fez que Graciliano não teve outro remédio senão abrir o jogo.
Nessa noite, a Xana, sentada numa mesa de canto, no Tropicália Club, ali para os lados de Santos, não conseguia fechar a boca, a surpresa a descair-lhe o queixo.
No palco, o seu Graciliano, travestido de pin-up dos anos 40, loura platinada dentro de um corpete justo de lamé prata, segurando na cabeça, com maestria de profissional, um imenso toucado de plumas de avestruz de tom verde brilhante, assumia a sua vida dupla e soltava a voz em estridências antes desconhecidas e que agora lhe rendiam, para além de um prazer óbvio, um muito confortável reforço do orçamento familiar. Em off, o apresentador anunciara:
- Minhas senhoras e meus senhores, convosco… Margot, a Rainha da Noite!

6 comentários:

Francisco disse...

O Graciliano é um homem de coragem, porque viver na Brandoa e contar à família não dá saúde à Margot. E, no caso, o que não é bom para a Margot não o será para a família...
Boa história. Gostei.
Francisco

Dalva Maria Ferreira disse...

Soberbo, como tudo que você escreve. Muito muito muito bom mesmo! Parabéns. E fica aqui um abraço, transoceânico.

JAIRCLOPES disse...

Madalena, você continua sensível e consegue passar para a oalvra escrita essa tua visão das coisas. Parab´nes pela bela alma que você tem.

arlindo mota disse...

Saudades de vir aqui...o tempo esse maganão. Vim e li. Os contos curtos no ponto têm o cuidado na escrita, a experiência de vida(s), a surpresa do olhar. Bom que vim. Bom Ano e muita inspiração!

Carla Diacov disse...

que renda maravilhosa!

continuando assim... disse...

gostei

a necessidade aguça o engenho ... lol

Teresa