sábado, 23 de abril de 2011

A ROTINA

Por Madalena S.

Costumava deitar-se tarde deixando-se ficar pela noite dentro em frente da televisão, a beber filmes e séries como se dali lhe viesse algum sopro de vida extra.
Algumas vezes, continuava para lá da última série a apreciar os milagres das televendas, produtos extraordinários que lhe mudariam a vida num instante, a fazer fé nas palavras mágicas dos respectivos promotores.
Amiúde dormitava no sofá e acordava estremunhado, lá pelas cinco e tal da manhã. Só nessa altura apagava a televisão e cambaleava a depressão em direcção à cama onde se deixava cair para um sono que não chegava a ser reparador, de curto e tardio que era.
Às sete estava a pé. Vestia-se sem dar grande atenção à roupa o que frequentemente fazia com que saísse de casa com uns conjuntos perfeitamente anacrónicos e berrantes, a parte de cima colidindo aparatosamente com a de baixo.
Passava o dia sem história, uma hora a seguir à outra, um minuto depois do anterior. Fazia uma pausa ao meio dia, para sair do cubículo minúsculo e ir comer uma sopa, uma bifana e uma bica no café em frente e voltava uma hora depois para retomar a conferência dos documentos, uma guia sobre outra guia, e depois outra e outra, até ficar completamente anestesiado.
Na volta à casa, ao começo da noite, parava no quiosque da comida rápida, à saída do terminal dos autocarros, e comprava uma sopa. Às vezes juntava-lhe um salgado. E, aproximadamente uma vez por semana, uma embalagem pequena de gelatina de morango.
Entrava em casa, despia-se, pendurava a roupa no cabide de quarto aos pés da cama e vestia o pijama.
Só se dava ao trabalho de aquecer a sopa se a dita estivesse completamente fria. Caso contrário, comi-a assim, tépida, engolida directamente da embalagem para não ter de lavar louça. À noite nem bebia café tentando não espantar o sono, mas o efeito do chá de cidreira que levava para a sala para ir bebericando enquanto fazia os primeiros zappings da noite era absolutamente nulo e o sono tardava, por sistema.
Vivia naquela pasmaceira há mais de vinte anos. Cumprimentava os vizinhos com um aceno de cabeça ou com um bom dia surdo e murmurado para dentro, mas nem lhes conhecia o nome.
Não esperava mais da vida.
Até ao dia em que parou no quiosque da comida rápida para comprar a sopa da ordem e foi servido por uma empregada diferente da habitual.
- Aconteceu alguma coisa à D. Fernanda? – Atreveu-se a perguntar.
- Não, reformou-se. – Respondeu-lhe a outra, mal-humorada.
Agradeceu, pagou a sopa e a empadinha de frango e encaminhou-se para casa. A meio do caminho, porém, estacou. Alguma coisa dentro de si lhe doía, uma dor fininha, uma espécie de picada que lhe atravessava o peito. Rodou sobre os calcanhares e voltou ao quiosque. Pediu mais uma sopa, mais um salgado e duas embalagens de gelatina de morango.
Quinze minutos depois batia à porta da D. Fernanda, a empregada do quiosque de comida rápida que o atendera durante vinte anos.
Primeiro, a mulher entreabriu a porta e espreitou, sem dizer nada. Depois, franqueou-lhe a entrada como se estivesse à espera daquela visita há muito tempo.
- Trouxe jantar. – Explicou.
Sentaram-se na mesa da cozinha da D. Fernanda que decidiu que a sopa precisava de um calorzinho. De seguida, cortou um tomate para uma saladinha de acompanhamento dos salgados. Foi buscar um pão e um queijinho.
Partilharam uma cerveja e enfeitaram a gelatina com um resto de chantilly que andava há tempos no frigorífico.
Ela fez café e foi buscar a garrafa da ginjinha. Ainda pensou recusar o café, por causa da insónia, mas depois achou que era falta de educação, de modo que bebeu uma grande xícara de café e acompanhou com um generoso cálice de ginja.
Sentaram-se no sofá, lado a lado. Ia começar mais uma reposição de E tudo o Vento Levou. Pensou que a coisa iria atirá-lo lá para as quatro e meia da madrugada e considerou a hipótese de se ir embora. Mas começara a chover e ela disse-lhe:
- Deixe-se estar. Eu nunca me deito cedo.
Deixou-se estar. Adormeceu recostado no sofá, pouco passava das onze e meia.

1 comentário:

Mar Arável disse...

Excelente texto

... mas há quem não durma