terça-feira, 17 de maio de 2011

O NÚMERO TREZE

Por Madalena S.

Olhou para a filha mais nova que fungava um choro manso e pouco sentido com a neta bebé ao colo e pensou para consigo que, por muito que tentasse estar actualizada e ser moderna, nunca compreenderia a celeridade com que as relações começam e acabam nestes novos tempos.
Ela própria estivera casada quarenta e três anos e só deixara de estar porque o seu Jacinto se finara sem um pio naquela fatídica quarta-feira de cinzas. É certo que o seu Jacinto pintava a manta. Aliás, na manhã da sua partida vira-o chegar depois de o ter visto sair no sábado de Carnaval sem lhe ter voltado pôr a vista em cima nos quatro dias de folia. Mas fosse como fosse, casamento era casamento, marido era marido e não percebia como é que ao fim de onze meses se punha fim a uma relação só porque – afirmava a filha entre soluços – “ ele não presta!” Não conseguia ver onde estava o busílis. Homem nenhum presta. Sempre fora a sua opinião.
- Bom, tu é que sabes. Mas pensa bem. Tens uma filha.
- Já pensei mãe. Já pensei. Só preciso de vir cá para casa uns tempos. Até arranjar um canto só para mim e para a menina.
Bebiana Raminhos suspirou, um suspiro fundo, arrancado às entranhas.
Com a mesma conversa regressara a sua Joaquina, a do meio, que trouxera as duas gémeas, ainda de colo, e o Marquinho.
Dois anos depois, o Abel, o seu rapaz mais velho, zangara-se com a mulher, partira-lhe o serviço da Vista Alegre que fora prenda da avó dela e saíra porta fora, caminhando sobre os cacos com raiva e determinação. As diferenças foram tão irreconciliáveis como impossível foi a colagem do serviço. Os cinco netos ficaram com a mãe e o Abel voltou à casa paterna. Até ao dia em que a ex-nora arranjou um namorado novo e foi viver para Moçambique. As crianças vieram viver com o pai.
E agora era a sua Geninha que mal saíra da lua-de-mel e já estava de volta, uma bebé nos braços e um casamento curto, de menos de um ano. É verdade que esta nem chegara a casar, mas era como se tivesse casado, estas coisas já não são o que eram e, verdade, verdadinha, até lhe dera mais jeito assim, que não tivera despesas nem na altura, com festanças de casório, nem agora com papeladas de divórcio.
O que lhe matava as entranhas era aquela agonia de deitar contas à vida, mais duas bocas para o total dos lugares à mesa. Somou-as mentalmente e, contando com a bebé, chegou ao número redondo de treze. Não gostava de treze pessoas à mesa. A sorte era que, para contrabalançar azares vindouros, a mais pequena ainda levaria algum tempo até se sentar à mesa.
Pediu emprestado um colchão extra à vizinha Gracinda e acomodou mãe e filha no seu quarto, atravessadas aos pés da cama.
De manhã era a primeira a sair para o trabalho que a limpeza de escritórios era feita em turnos, um até às 3 da manhã, o outro a começar às 4 e meia. A encarregada, que gostava dela, tentava sempre dar-lhe o turno da manhã e, assim, ela conseguia estar despachada ao meio dia e ir buscar os miúdos à escola, dar-lhes o almoço e, ainda, fazer umas horas a passar a ferro em casa da doutora da farmácia.
Costumava rezar para que, quando caía à cama, por volta das dez da noite, a pequenita já estivesse ferrada no sono e a deixasse descansar o corpo moído durante as magras cinco horas de repouso que lhe sobravam até à hora de retomar a faina.
O facto é que o canto que a sua Geninha ia arranjar só para ela e para a menina tardava em aparecer e não demorou muito até a mais novinha ganhar direito a um lugar à mesa. Aí estavam os treze que Bebiana temia.
Por essa altura, acrescia ao fatídico número de comensais, a sensação de a sua ser uma casa de doidos. Bebiana Raminhos não dava conta do recado e preocupava-a cada dia mais um incómodo que lhe batia no peito, se avolumava e ganhava tonalidades de raiva e de um certo rancor mal contido contra toda aquela gente, uma turba barulhenta e mal cheirosa, encostada às facilidades que o seu feitio meigo e manso lhe garantia.
A ideia germinou no seu cérebro cansado como erva de cheiro que rompe para a vida. Cresceu, tomou formas e deu frutos. Tratou de tudo o que tinha a tratar e passou o Natal em família, sem deixar perceber o que quer que fosse.
No dia de Ano Novo, assou um lombo de porco para o almoço e ficou de pé, encostada à bancada da cozinha, a vê-los sentados à mesa, em alegre gritaria, a sua dúzia privada, filhos e netos.
Calma, anunciou:
- Amanhã vou-me embora.
O Abel ainda perguntou para onde, distraído, mas as raparigas ficaram alerta, de imediato.
E então Bebiana explicou que treze à mesa era um número que a afligia. Não conseguia engolir nada se estivessem treze à mesa. Por isso, tinha tratado de tudo e arranjara trabalho na Suiça, em casa de uns amigos da doutora da farmácia. Ia ganhar bem, podia mandar-lhes algum dinheiro. Eles teriam de partilhar a casa, as despesas, as ralações, os barulhos. Podiam usar a cama dela e devolver o colchão à vizinha Gracinda. Mas tinham de fazer pela vida.
No dia seguinte, olhando pela janela do avião para os cumes nevados dos Alpes, Bebiana Raminhos antecipou com um certo formigueiro de prazer, a paz e o silêncio que o futuro imediato lhe anunciava.

3 comentários:

JAIRCLOPES disse...

Fazia tempo que eu comparecia ao teu blogue, mas foi com grande alegria que constatei o quanto teus textos merecem ser lidos. Aos lê-los me dei conta que ainda existe inteligência na bloguesfera, Parabéns, JAIR.

Dalva Maria Ferreira disse...

Amei o teu conto! Talvez seja uma solução viável para o caso de muita gente. Hmmmm... a ideia de trabalhar na Suíça me atrai muito. Em Lugano? Seria perfeito!!!

dilita disse...

Passei aqui por acaso, mas voltarei de propósito...
Gostei muito da sua forma de escrever, parabéns por este texto.
(logo mais lerei os outros)
Fiquei seguidora.
Dília Maria