sexta-feira, 6 de julho de 2012

O CHEFE

Por Madalena S.

Saiu sub-repticiamente do seu posto por trás da secretária  e caminhou em bicos de pés em direção à porta da rua. Ainda olhou por cima do ombro para o lugar onde o chefe, cabeça baixa enfiada num processo de oitocentas folhas, parecia aspirar o conteúdo amarelecido por dois anos e meio de papel acumulado nos percursos entre despachos. O homem nem deu por ela.
Aconchegou o casaco ao pescoço enquanto acendia o cigarro debaixo da pala minúscula que não protegia da chuva nem do vento, e pensou nos subsídios que tinham voado. Cambada de ladrões! Como é que poderia ir apanhar sol nos 15 dias de férias que se avizinhavam e a ajudariam a suportar melhor a tristeza da sua rotina, o seu fraco entusiasmo pelo quotidiano, o cinzento de uma primavera que teimava em prolongar o inverno?
Não podia.
Cambada de ladrões!
Voltou para dentro. Sentou-se e vagueou pela internet até que chegasse a hora de sair. Já tinha trabalhado o suficiente para a miséria que lhe pagavam.
Tornou a olhar para o chefe, já de casaco vestido e com a mala ao ombro, e verificou que o homem continuava praticamente na mesma posição, com a cabeça enfiada no mesmo processo, atento para além do expectável.
- Até amanhã, chefe. Olhe que não vale a pena matar-se a trabalhar. Já nem temos subsídios e as horas extraordinárias foram-se.
O homem não lhe respondeu.
Saiu enquanto pensava para si: "Isso, isso. Vale bem a pena essas cenas, ó palhaço! Engraxadores da treta, têm a mania que fazem mais do que os outros."
Felizmente que era sexta-feira. Tinha dois dias para escapar à maldita repartição, ao chefe, aos processos... não ia esquecer a falta dos subsídios mas isso era o que era e não valia a pena insistir.
Sábado e domingo aproveitou para desencardir as janelas, vidros e estores, lavou roupa, passou a ferro, fez compras, foi ao cinema, discutiu com a ex-cunhada a respeito do ex-marido, foi jantar com o Gabriel, passou pelo Ikea para ver o sofá que trazia debaixo de olho e, quase sem dar por isso, era segunda feira de novo e estava de volta ao trabalho.
Quando entrou, de manhã, sentiu um cheiro desagradável. Não percebeu logo o que era mas franziu o nariz, agoniada.
Depois ficou surpreendida por já lá encontrar o chefe, de novo com o nariz enfiado no mesmo processo.
"O homem está doente! Que raio de processo é aquele que o faz madrugar e ficar até depois da hora?"
De longe, disse bom dia e perguntou:
- Ó chefe, já cá está há muito tempo? Não me diga que passou cá o fim-de-semana! Já deu pelo cheiro? Que pivete é este que anda no ar? Quer ajuda para deslindar esse calhamaço?
Não obteve resposta e, nessa altura, sentiu um baque no coração. Aproximou-se da secretária do chefe e tocou-lhe no ombro.
A gritaria atraiu todos os funcionários das outras repartições e das secções contíguas.
O médico legista disse, mais tarde, que o homem devia estar morto há quatro ou cinco dias, pelo menos.
Meteu baixa psiquiátrica e fechou-se em casa à espera da junta médica.

3 comentários:

Janete disse...

Bela excerto Madalena. A sua escrita faz-me muito lembrar a escrita do Mario Zambujal. Uma mistura de tragedia, satira e comedia... mesmo ao meu estilo :)

Ligia disse...

Boa, minha linda ... já sentiamos saudades das tuas palavras ... acho que andamos um pouco como a funcionária, a dizer entre dentes "cambada de ladrões", não é??
Continua e não esperes tanto tempo - 1 ano!!???

Anónimo disse...

Realmente...um ano é muito tempo...

Quanto ao que interessa, a história é fabulosa, como habitualmente.
Prometo vir aqui mais vezes, para não me deixar afundar nos processos de 800 folhas.
Quanto ao resto, como posso eu discordar?
Bjs
FER