quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A CABELEIRA

Por Madalena S.
 
Lembrava-se bem de quando tinha uma vasta cabeleira, forte, caindo-lhe sobre os ombros num ondulado natural que se movimentava ao ritmo do seu andar gingão e lhe emoldurava o rosto de anjo que sempre o caracterizara.
Costumava minorar esse ar seráfico com os Rayban de lentes verde-escuro, à aviador, como ele dizia, ou à piloto de automóveis, dependia de como se sentia quando se levantava da cama, por volta da uma da tarde.
Nessa época, as raparigas vinham comer-lhe à mão, traziam-no nas palminhas, viam nele coisas que nem ele conseguia ver, mesmo quando se mirava no espelho pendurado por cima do lavatório minúsculo na casa de banho que a avó mandara encavalitar no vão da escada, quando ele começara a querer tomar banho todos os dias.
Essa avó materna que o criara fora a grande responsável pelo seu estilo de vida. Nada era demais para o seu menino e o facto de o marmanjo ter deitado corpo suficiente para trabalhar não parecera surtir qualquer efeito porque a mulher esfalfava-se a passar a ferro a roupa alheia para prover às necessidades do neto.
Do pai ninguém tinha notícia desde o dia em que a mãe, na inocência dos seus quinze anos acabados de fazer, lhe comunicara com um sorriso de orelha a orelha: “Estou grávida!”
O sorriso depressa se desvaneceu e, com o sorriso, todas as esperanças de um futuro. No dia em que ele fez três meses, foi entregá-lo à avó e desapareceu no mundo, lavada em lágrimas mas decidida – não ia acabar a lavar escadas ou a passar a roupa de outros a ferro. Acabou à beira da auto-estrada do norte, ao quilómetro cento e dezassete, onde o corpo foi descoberto, espancado e roubado, vestido apenas com as meias de renda preta com que atraía os clientes de beira da estrada.
No seu décimo terceiro aniversário, a avó deu-lhe cinquenta escudos para ir ao cinema com os amigos. Era uma maquia e tanto. Em vez de ir ao cinema, comprou a motorizada do Aniceto que estava a cair de podre mas tinha os pneus razoáveis, os travões menos mal e o assento como novo, que o Aniceto tinha-o substituído há pouco tempo. Foi o início do seu negócio de peças usadas. A motorizada, vendida à posta, rendeu-lhe cento e trinta e cinco escudos: lucro bruto de oitenta e cinco escudos.
Aos dezoito anos, para além da cabeleira estilosa e dos óculos à maneira, tinha um barracão alugado a servir-lhe de oficina e armazém, lá para os lados da Matinha, num dos pátios labirínticos que desembocavam na Rua do Vale Formoso de Baixo, e mantinha a trabalhar para si, mesmo nas barbas da GNR com quem coabitava pacificamente à distância de um ou dois quarteirões, uma brigada de gandulos que gamava carros e motas e os desmontava com uma rapidez e uma perícia que nem mecânicos de equipas de fórmula 1.
Para disfarçar, continuava a fazer alguns negócios mais ou menos lícitos, comprando um ou outro exemplar pronto a ir para a sucata, que desfazia em peças e distribuía a preços imbatíveis por uma clientela fiel e dedicada.
Alimentava uma escrita rudimentar que nunca passaria numa fiscalização das finanças mas que servia, sobretudo, para manter uma fachada de respeitabilidade que lhe dava jeito. A vida corria sem sobressaltos.
Até ao dia em que conheceu a Dalila.
A Dalila fazia as noites ao balcão do Cuba Libre, bar de frequência mais do que duvidosa, forrado a espelhos e pesados veludos carmesim, a lembrar as boîtes dos anos setenta, e animado por um quinteto que, como o resto, parecia ter saído directamente dessa época.
A Dalila era uma rapariga séria, como fez questão de sublinhar logo na noite em que se conheceram.
A seriedade era tal que precisou de uma semana inteira para conseguir que ela o acomodasse no seu quarto decorado com uma profusão de rendas e folhos cor-de-rosa, em casa da D. Perpétua.
Só mesmo a paixão desmedida que o consumia evitou que ele se sentisse agoniado com tanto folho e tanto cor-de-rosa. Nunca fora homem de rocócós! Com ele era pão, pão, queijo, queijo.
Mas a Dalila sabia levá-lo à loucura. Descobriu-lhe os pontos fracos. Diga-se em abono da verdade que, em simultâneo, lhe descobriu igualmente os pontos fortes.
A coisa era de tal ordem que a D. Perpétua teve de intervir - não queria poucas vergonhas lá em casa.
Mudaram-se para a casa dele. Da avó, aliás. Livrou-se dos folhos e do cor-de-rosa excessivo mas, em contrapartida, ganhou outras preocupações. A Dalila era exigente. Gostava de coisas boas. E caras. O negócio de peças usadas começou a não chegar para pagar as despesas. Teve de aumentar o fluxo de entradas e saídas de material subtraído aos legítimos proprietários.
A Dalila e a avó pegavam-se diariamente. Ele enervava-se. Um dia, enervou-se mais do que a conta e, para acabar com a gritaria, pregou dois bananos na Dalila. Ela ficou ressabiada. Os olhos faiscaram-lhe de raiva e ele pôde ver o ódio a subir-lhe à garganta, como uma azia ácida a corroer-lhe a alma.
Nessa noite, a Dalila apanhou-o a dormir e, pegando na tesoura da cozinha com que a avó esventrava o peixe, cortou-lhe a cabeleira o mais rente que pode.
A Dalila não mediu bem a dimensão da vingança. A tareia que levou no dia seguinte ultrapassou largamente as medidas. Tão largamente que foi preciso vir a GNR, chamada à pressa pelos vizinhos, para lha tirarem das mãos. A coisa azedou. Atrás da queixa da Dalila, apresentada com dificuldade por causa do ar a esvair-se por entre a falha nos dentes da frente, veio a investigação às suas ocupações profissionais.
Dez anos de prisão efectiva foi a sentença lida por uma juíza franzina e fanhosa que, não contente com a pena aplicada, levou quase duas horas a ler o acórdão e a pregar um sermão com apreciações pouco edificantes sobre o carácter do arguido.
Infelizmente, na prisão não lhe permitiram voltar a deixar crescer o cabelo. Por uma questão de higiene, disseram.
A Dalila nunca o foi visitar. Nem uma vez. Valeu-lhe a avó que, ao domingo, religiosamente, lá estava para o animar.

2 comentários:

Rita Lourenco disse...

Soube-me bem ler, é-me sempre gostoso (é mesmo isto que quero dizer, não tem nada a ver com o significado brasileiro) ler escritos teus. Mas achei "A Cabeleira" um bocadinho previsível e com algum excesso de "desgraçadinho". Muito mais arejado o conto da Maria em pico hormonal :-)

adkalendas disse...

Gostei muito do texto, exceto da parte dos cabelos. Não é preciso ir parar à prisão para ficar sem cabelo. Nem ter uma Dalila!