quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A VIAGEM

Por Madalena S.

Quando chegaram ao estábulo, seriam já umas dez da noite.
Deitados na palha, já lá estavam o burro, a vaca e três ovelhas. À entrada, dois pastores enrolavam cigarros - que os de filtro andavam pela hora da morte - e deitavam um olho pelo resto da carneirada espalhada nas imediações.
No estábulo em frente, enquanto bebericava copinhos de hidromel, um grupo de mulheres cuscava a propósito dos rumores sobre o casal, o papel do marido na história, para umas boa pessoa, para outras um parvo, uma joia de homem, um paspalho. E ela, então! Hum... história mal contada... soava mesmo a conto da carochinha...
Quano José chegou com Maria, um dos pastores levantou-se e reclamou:
- Até que enfim. Estamos à espera há mais de um mês!
Mas Maria, derreada, agarrada às cruzes, mostrou-lhe uma cara de poucos amigos e respondeu, desabrida:
- E daí?! Eu estou há espera há nove e não me queixo! Muda mas é a palha da manjedoura que mais dia menos dia aparecem aí os outros três finórios e não quero o estábulo todo encardido.
E, com um andar balanceado, foi sentar-se num fardo de palha, junto ao burro e à vaca, resmungando entre dentes, como se falasse para si mesma:
-... Obrigarem uma mulher neste estado a fazer uma viagem destas por causa de uma porcaria de um recenseamento...Cambada de burocratas!... Governos da treta!...
Meio enfiado, José baixou a cabeça, revirou os olhos e sussurrou para o pastor:
- Esteve assim o caminho  todo. São as hormonas!

2 comentários:

Comer com as Mãos disse...

Talvez fizesse bem aos homens do nosso país uma boa dose de hormonas...:)

Rita Lourenco disse...

Gostei muito. A Maria a balancear-se e com hormonas já é uma coisa muito refrescante. Dizer mal do Governo, agora ou há 2.012 anos, é patriótico !
Confirma-se, também nesta versão da história, que o José é um coitado.