quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O ESCRITOR

Por Madalena S.


Sentou-se por trás da mesa coberta com um pano azul-cobalto e, enquanto agarrava na esferográfica, com um sorriso meio tonto nos lábios, olhava para a linha de pessoas que se perfilavam na sua frente, com um livro – o seu livro – na mão, à espera da oportunidade para obter um autógrafo, de preferência com dedicatória.
- Para?... – Gaguejou para a primeira pessoa.
- Para a Tininha. – E a jovem loura, de formas generosas, com um sorriso tão rasgado que permitia lobrigar a pastilha elástica que mastigava furiosamente, debruçou-se na sua frente deixando ver um bocadinho de seios a mais do que seria desejável tendo em conta que não convinha distrair-se durante a tarefa que o esperava na hora seguinte.
Escreveu na sua letra mal desenhada, de tipo cursivo mas com inclinação de algumas letras para a direita e de outras para a esquerda, “Para a Tininha, com um beijinho do Cazé". A culpa daquela situação era, sem sombra para dúvidas e em última análise, da sua professora da primária, a D. Noémia. Ela é que teimava em dizer que ele redigia muito bem, baseando-se na observação directa das suas composições escritas e tentando incentivá-lo a continuar. Anos mais tarde, chegou a pensar que fora o facto de, invariavelmente, terminar cada texto com um untuoso “eu gosto muito da minha professora”, que em muito teria contribuído para formar tal opinião no espírito da D. Noémia.
É claro que, assim que saíra da escola, deixara para trás todo e qualquer conselho da mestra a respeito de escritas, leituras e outros estudos afins e dedicara-se de corpo e alma à nobre arte do futebol. Com uma bola nos pés chegaria longe. Pelo menos, essa era a crença do Augusto, técnico de televisões e técnico de futebóis nas horas vagas, treinador aplicado e esforçado cuja estratégia mais brilhante era a de chegar junto à linha lateral e gritar para o meio do campo: “Tresmalhem-se, tresmalhem-se!!”
Muito mais por falta de motivação do que por falta de jeito, abandonou a equipa e entregou-se a tempo inteiro à condição de desempregado. A chegada da crise ajudou a fundamentar a necessidade do apoio social recebido e a vida passou a correr-lhe menos mal. Levantava-se tarde – convém dizer que também se deitava tarde pelo que uma coisa equilibrava a outra – e empregava à volta de uma hora, hora e meia, na toilette matinal prestando especial atenção ao arranjo do cabelo.
Um dia, à saída do cinema, armou-se uma discussão em torno do filme Angel, o rebelde vingador - um "trailer" de acção e muita porrada como o definira o Domingos - e da eventual qualidade, ou falta dela, do argumento.
Palavra puxa palavra, o Domingos quis bater no Nelo, o Nelo, para se defender, começou aos pontapés, à maluca, e, no auge da confusão, mandou uma biqueirada em cheio nas partes do Aniceto que caiu redondo, literalmente, todo enrolado sobre si mesmo, a gemer e com falta de ar, tal a intensidade da dor que lhe subia em linha recta dos genitais à cabeça, deixando-o zonzo, agoniado, "à beira da morte mesmo, por um triz", como mais tarde relatou o acontecimento a quem se prestou a dar-lhe ouvidos.
O facto é que o Aniceto foi parar ao hospital e ficou lá uma noite, nas urgências, a ganir baixinho e a mandar analgésicos para a veia.
Por solidariedade, calhou-lhe a ele a nobre missão de acompanhar o amigo na sua jornada de dor e sofrimento.
Na sala de tratamentos, sentou-se num cadeirão vago e, enquanto no cadeirão à sua direita o Aniceto dormitava e gemia intermitentemente, à sua esquerda sentou-se um tipo alto e magro, com a camisa rasgada e ensanguentada, olheiras profundas e um braço ao peito, cabelo desgrenhado e oleoso, e que, vítima de insónia crónica e violenta, aproveitou o relativo silêncio que se foi instalando noite fora para lhe contar a história da sua vida, começando por se apresentar:
- Licínio Santos, às suas ordens!
- Carlos José. Cazé p'rós amigos!
- Prazer!
Uma tragédia. Órfão de pais, fora criado por uma tia que morrera quando ele era pouco mais do que adolescente. Sozinho, fizera pela vida na noite, a vender copos ao balcão de bares mal frequentados, trabalhara nas obras, gamara carros, estivera preso, drogara-se, fora travesti, recuperara, arranjara emprego numa drogaria, conhecera a sua Custódia, apaixonara-se perdidamente, juntara-se, vivera feliz até ao dia em que a Custódia o trocara por um tipo que era segurança nas Amoreiras, entregara-se à bebida, recuperara mais uma vez, encontrara Jesus, encontrara a Juliana, voltara a ser feliz e a ser trocado, tentara o suicídio, abandonara Jesus e retomara a bebida. Nessa noite, com o passo incerto pelos eflúvios do álcool, fora atropelado na Rua da Misericórdia.
A história aguentou a madrugada até ao nascer do sol quando o Aniceto teve alta e saiu amparado por Cazé, caminhando de perna aberta para aliviar o incómodo que se mantinha no entre-pernas.
Foi então que Cazé teve uma epifania: ia escrever um livro. Contar a história trágica de Licínio.
O facto é que desapareceu de circulação durante três meses mas, quando voltou, trazia meia resma de folhas debaixo do braço. Era o seu livro.
Sentado no computador do café do Camilo, pesquisou na Internet formas de publicar livros. O Camilo deu-lhe uma ajuda. Seis meses passados e depois de muita discussão com o tipo que o editor lhe dissera que ia rever o livro, a coisa saíra para a luz do dia, com direito a sessão de lançamento, autógrafos e tudo!
É certo que, à cabeça, tivera de comprar metade da edição, mas... que diabo! Escrevera e publicara um livro. Que estava a ser um sucesso de vendas. E como estava proibido de manifestar publicamente a sua opinião sobre os críticos literários, para não ser acusado de atentado ao decoro, nada o incomodavam as acusações de facilitismo, de não se estar perante literatura, de ser infantil e estar mal escrito, de ser pouco mais do que um romance de cordel, folhetim de faca e alguidar.
Estava-se nas tintas! A verdade é que, à medida que a fila de leitores e admiradores diminuía, dispersando-se pelos corredores do centro comercial, aumentava, na proporção inversa, a sua satisfação pessoal pelo próprio feito.
O segundo romance já germinava na sua cabeça. Ia contar a história do Aniceto que, entretanto, nunca mais perdera aquele andar com as pernas ligeiramente abertas, depois do fatídico pontapé do Nelo.

Finalmente tinha uma profissão. Era escritor.



2 comentários:

Anónimo disse...

Há cabelo nesta história...
Fiquei com uma dúvida, sendo escritor deixou de ser desempregado?
Gostei!

Lindalva disse...

Bom dia Lena. Teu voto na final do 8º pena de ouro foi validado. Beijos perfumados no coração. E domingo aparecça no salão Pérolas do meu Ostra para grande festa de encerramento e entrega do prêmio ao vencedor.