domingo, 13 de julho de 2014

A JANELA

Por Madalena S.

Quando Jimmy e Grace alugaram o estúdio, agradou-lhes o pátio interior rodeado pelas janelas dos vizinhos, criando uma proximidade apelativa. A cerejeira, no centro do pátio, florescia denunciando a primavera e carregava-se de frutos com os quais a velhota do rés-do-chão do canto fazia compota, oferecendo depois frasquinhos com tampas coloridas à vizinhança.
Jimmy e Grace gostavam de se sentar em frente da janela rasgada sobre o pátio e ficar a observar os vizinhos, sobretudo os da frente que tinham uma relação que parecia conturbada. Discutiam frequentemente e, embora não os ouvissem, conseguiam perceber que alguma coisa não estava bem com aquele casal.
O assunto tornou-se uma obsessão. Compraram uns binóculos e, desde que chegavam a casa ao final do dia, entretinham-se a mirar os vizinhos da frente e a conjecturar as histórias que, na sua imaginação fértil, arquitectavam a vida daquele par tão bizarro.
Até que a vizinha desapareceu. 
O desaparecimento forneceu viçosos pastos aos devaneios exuberantes de Jimmy e Grace. De binóculos em punho seguiam todos os movimentos do vizinho, profundamente convencidos de que um crime passional tivera lugar na janela da frente.
Um dia, Grace chegou a casa corada e ofegante. O mistério resolvera-se. Encontrara a vizinha a passear no parque de braço dado com outro homem. Para crime passional, depois de tanto tempo a construírem cenários incríveis, tudo lhes parecia agora bastante decepcionante.
De binóculos em punho, viram o vizinho a aquecer uma embalagem de comida pronta no micro-ondas e a sentar-se na sala, jantando em frente da televisão.
A noite chegou e a luz partiu. Já não se via. Grace e Jimmy pousaram os binóculos e enrolaram-se no divã. Na janela em frente, o vizinho sorria.
Ele tinha binóculos com infra-vermelhos.


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