quarta-feira, 30 de julho de 2014

A SEXTA-FEIRA SANTA

Por Madalena S.


Aproximava-se o fim da Quaresma.
Frederico Bexiga – o Fred das Fitas – sabia que, com a sexta-feira santa à porta, tinha de se aproximar o mais possível de Alvazim do Rio, terreola esquecida dos vivos, enterrada na margem direita e seca do Guadiana, de frente para coisa nenhuma porque, na margem esquerda, apenas duas oliveiras vergadas sob o peso da canícula testemunhavam a existência das sessenta e sete almas que a habitavam.
Natural de Ferreira do Alentejo, casado, pai de dois filhos, com morada certa em Pias e incerta onde calhasse a sua carrinha levá-lo, mais o seu projector e a tela enrolada para o caso de não haver parede branca capaz, começara a palmilhar o sul do país, levando a ilusão da sétima arte aos abandonados alentejanos, ignorados pela sorte, pela vida e pelos restantes mortais, em meados dos anos sessenta, ainda jovem e solteiro. O gosto pelo cinema vinha-lhe diretamente do tio Faustino, irmão do pai, que fugira de Ferreira para a capital para escapar ao destino de miséria que lhe estava reservado. Em Lisboa, um promotor atraíra-o para o boxe, no Parque Mayer, onde ainda ganhara alguns combates e algum dinheiro. No final de um desses combates, um produtor inglês de passagem pelo Estoril descobriu-o e levou-o para Espanha para ser figurante no Lawrence da Arábia. De vez em quando, vinha a casa passar uns tempos e mostrar as notas de cem escudos que ninguém por ali conhecia. E falar de cinema. Se lhe perguntavam o que fazia, respondia: sou figurante! E com isso calava a boca aos curiosos.
Fred foi parar com os costados a Angola no final de sessenta e dois, tinha acabado de fazer vinte anos. Voltou no ano seguinte, ferido por uma arma defeituosa que lhe levou dois dedos da mão direita. Costumava dizer que, se fosse uma mina, lhe tinha levado tudo, por isso estava grato.
Mas se a sobrevivência no Alentejo, naquela época, era difícil para quem tinha as extremidades completas, era quase impossível para quem tinha falhas. Valeu ao jovem Fred o tio Faustino que lhe emprestou dinheiro para tirar a carta, comprar um carro em segunda mão e um projector usado. Uns meses depois, Fred percorria as planuras de além Tejo ao volante da sua Renault 4L a que retirou os bancos traseiros para melhor acondicionar o projector.
E foi isso que Fred – Fred das Fitas como rapidamente passou a ser conhecido – fez durante a sua vida inteira. Só usou a carrinha para outros fins, três vezes: quando casou e decidiu levar a patroa a passar a noite numa residencial com vista para o mar, em Olhão, e quando teve de a levar a Beja, para ter os filhos, cada um em sua vez.
Ao longo dos tempos, Fred foi construindo o público fiel que não lhe falhava nunca, fosse Verão ou Inverno, foi percebendo os gostos de cada um, conhecendo as suas preferências. A revolução, em setenta e quatro, trouxe-lhe outras responsabilidades e Fred deu por si a participar na alfabetização popular, projectando filmes até aí proibidos pela censura por diversas razões: ou porque tinham povo a mais, ou porque tinham corpos a mais, ou porque tinham ideias a mais.
Mas, por outro lado, a democracia também trouxe uma tão rápida evolução da sociedade que, em breve, Fred se viu a braços com as dificuldades resultantes do aparecimento do vídeo, das cassetes em VHS, depois do DVD e da Internet, golpe fatal para a carreira do projeccionista ambulante.
Em meados dos anos noventa, Fred não tinha grandes incentivos para continuar, mas tinha dois filhos para acabar de criar. Valeram-lhe os filmes eróticos, então em voga.
Não era pornografia que isso da pornografia era para quem não tinha imaginação, não era para os amantes do cinema, como ele gostava de frisar. Mas, por fim, até esse filão deu o que tinha a dar.
Restava-lhe Alvazim do Rio, fiel à tradição do cinema só para homens, à sexta-feira santa.
E, nesse ano, Fred tinha uma surpresa para a rapaziada. Saíra há uns tempos um filme que prometia ser um sucesso dos antigos. Ele tinha-o visto no recato da sua casa, a altas horas da noite, já a mulher dormia ferrada e, tinha de confessar, há muito que um filme não o perturbava tanto e lhe provocava aquele formigueiro muito especial. Não levou muito tempo a decidir que aquele era o filme apropriado para a sexta-feira santa em Alvazim do Rio.
Nessa tarde, a chegada de Fred à localidade foi saudada com carinho e até alguma ansiedade.
À noite, a população masculina, vinte e nove almas na totalidade – a maioria dos Alvazinenses eram mulheres solteiras, casadas ou viúvas – reuniu-se, como era hábito, no armazém do António da Licas. A tela estava colocada, o projector no lugar. À entrada, cada um deixava o dinheiro do bilhete na caixinha de madeira que Fred colocara sobre uma pipa velha. Não havia trocos nem desconfianças.
Alguns traziam bancos consigo, que no armazém não havia assentos para todos.
No início do filme, o silêncio era quase palpável. Mas, com o desenrolar da história, a animação foi crescendo. Por mais do que uma vez o público se entusiasmou e aplaudiu generosamente, acompanhando a excitação com assobios e expressões brejeiras. Nessas alturas, Fred parava a fita, rebobinava e repetia.
E foi assim que Sharon Stone cruzou as pernas quarenta e oito vezes numa noite.


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