domingo, 13 de julho de 2014

O ARISTOCRATA

Por Madalena S.

No palacete decrépito, a luz e o gás há muito tinham sido cortados. As noites tremeluziam entre a sombra das velas e as magras chamas alaranjadas da lareira do quarto, a única que ainda se atrevia a acender para poupar os cavacos secos que conseguira juntar antes da chegada da neve.
Agora, já lhe custava menos perceber porque é que a mulher partira levando o título que tanto ambicionara. Uma duquesa, ainda que falida, teria sempre alguma hipótese em Paris, Monte Carlo ou Porto Fino.
Quanto a ele, restava-lhe resistir. Resistir sempre, em nome da história, dos antepassados, da família.
Abril trouxe a Primavera e amenizou as noites. Agosto chegou quente, mas sempre solitário.
A resistência começava a esboroar-se.
Em Outubro foi empenhar o faqueiro da bisavó. Ao sair da casa de penhores, havia uma revolução na rua. Voltou atrás e salvou o faqueiro.


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